Quadrado Inverso: Eduardo Gageiro. Autor Rui campos

Esta semana devo um pedido de desculpa aos meus caríssimos leitores. Tinha prometido falar sobre formação. Porém este fim-de-semana esteve por terras beirãs um nome incontornável da Historia da fotografia em Portugal: Eduardo Gageiro, que, por ocasião do centenário do Jornal de Notícias de Gouveia, foi expôr no Museu Abel Manta. Quem tiver disponibilidade para visitar a exposição vale a pena.

_DSF7728 copyJamais poderia dar a conhecer aos leitores do Correio da Beira Serra o trabalho de Eduardo Gageiro sem antes deixar claro aquilo que é a dimensão humana deste homem. E para mim bastam duas palavras: Valores Morais.

Eduardo Gageiro afirma peremptoriamente que quando fotografa alguma pessoa não é para a denegrir, mas sim para realçar a sua dimensão humana. Eu acrescento que o trabalho de Eduard Gageiro, mais do que realçar a condição humana dos seus retratados, atribui-lhes um lugar no Mundo.

Tomei a liberdade de selecionar algumas fotografias do Eduardo (é assim que gosta de ser tratado) para mostrar ao leitor. Para conhecerem o seu trabalho mais a fundo e o seu percurso de vida na íntegra podem os senhores leitores aceder ao site www.eduardogageiro.com.sabiaque_8

Não sei se o mesmo se passa com o senhor leitor. Comigo passa-se muito. Vejo, como devem calcular, centenas de fotografias todos os dias. Porém, às vezes tropeço em algumas e paro para as observar. Algo me diz que são fotografias feitas em Portugal ou de portugueses. A grande maioria das vezes quando vou investigar as mesmas confirma-se são fotografias feitas em Portugal. Não consigo explicar porquê. Eduardo Gageiro tem esta capacidade quando fotografa meras cenas de quotidiano em que o conteúdo é preenchido de ilustres desconhecidos.

Diria que Eduardo Gageiro, na sua longa carreira, foi um dos fotógrafos portugueses que melhor retratou Portugal. Pese embora tenha fotografado em 70 países. portugal-eduardo-gageiro06

Portugal é Fado e destaco uma fotografia que este senhor fez de Amália Rodrigues em 1971. Amália aparece de cabeça erguida, orgulhosa e com um vestido escuro e uma écharpe em redor do pescoço.  Das suas orelhas pende um par de brincos, provavelmente de pedras preciosas. A echarpe esvoaça ligeiramente por trás do seu corpo, deixando a sua Marca. Amália deixou a sua marca por onde passou. Está pestes a entrar num também escuro BMW. Ao fundo está um carro do Povo, um Carocha e aparecem seis crianças que estão completamente indiferentes à sua presença. Também as crianças terminam a dar dimensão a Amália, muito mais alta, obviamente e destancando-se também por este motivo. Por fim, a sua expressão séria e firme, destacando a personalidade da artista. Será porque a sua presença é constante neste lugar? Será porque as crianças desconhecem a grandeza da artista? A pergunta fica no ar para o observador responder.

Amália era mulher do povo e nunca negou as suas raízes. Sempre esteve com o Povo, pese embora a sua notoriedade. Não posso afirmar aquilo que Eduardo Gageiro viu e sentiu na hora de fazer esta fotografia, mas posso ler a fotografia sob o ponto de vista da sua forma. O posicionamento do elemento principal numa linha de força, os elementos dispostos a distâncias variáveis no enquadramento, desde o primeiro plano até ao fundo, indicam muito cuidado na composição por parte do fotógrafo. Vejo nesta fotografia um retrato latente do nosso Portugal. Diferenças de classes, inocência e talento…Amalia-01,medium.1415707605

Eduardo Gageiro é um homem de conversa fácil. Defensor da preparação e do trabalho quando está a preparar um trabalho. Concentrado e compenetrado quando está em serviço. “Não falo com ninguém”, refere ele. “Tento adivinhar sempre o que vem a seguir e estar preparado para tal”. Gageiro também refere que as imagens devem ter a Forma e o Conteúdo. A forma é a estrutura da imagem, a forma como os elementos que a compõem se aglutinam. O Conteúdo é a acção e a mensagem que a fotografia pode passar.

Confesso que me identifico muito com o trabalho do Eduardo. Não descura a forma nas imagens, ao contrário de muitos outros fotojornalistas. Isto não é bom ou mau, melhor ou pior. Acho que uma fotografia mais bem estruturada acaba por ser menos distrativa. 14o63xc

Conheço relativamente bem o trabalho de centenas de fotógrafos, talvez milhares. Não me custa colocar o trabalho deste senhor português ao nível dos melhores do Mundo. Em relação ao trabalho dele destaco o seu domínio da luz, esta sua capacidade de retratar pessoas e, acima de tudo, a dedicação que consagra ao fotojornalismo, estudando as pessoas e os temas, preparando-se meticulosamente e finalmente apresentando trabalhos que acabam por ser intemporais.

Para o seu trabalho “Fé”, Eduardo Gageiro leu imensas passagens da Bíblia, o Al Corão e a Torah. A sua opinião é a de que se mata demais em nome da religião. “Estes são livros extremamente violentos”.

Se Eduardo Gageiro tem uma mensagem para os que pensam ou se estão a iniciar eu diria que é precisamente esta. Preparação e trabalho.

Eduardo Gageiro tem quase 60 anos de carreira, fotografou em mais de 70 países. Sempre se preparou para os seus trabalhos. Privou com políticos e alguns dos mais poderosos do Mundo. Esteve com artistas de variadas disciplinas. Tem uma vida cheia, preenchida com histórias e, acima de tudo, com conclusões e análises críticas dessas Histórias.

É uma pessoa simples que abraça os grandes desafios da sua vida com um pragmatismo desconcertante. Eduardo Gageiro tem uma vida que merecia ser contada em Livro ou até em filme.

Rui CamposAutor: Rui Campos

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