Quadrado Inverso: Importa ter consciência. Autor: Rui Campos

Quantas vezes nos deparamos com cenários que nos chamam a atenção e depois quando os registamos com a câmera fotográfica, eles não nos parecem como os vimos? Isto deve-se a algumas diferenças que precisamos observar e ter em atenção quando fotografamos. Toda a gente sabe estas coisas, pese embora quando nos iniciamos nisto da fotografia não somos chamados à atenção para este facto.

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Antes de mais importa perceber que nós não vemos apenas com os olhos. O cérebro desempenha um papel fundamental no nosso processo de observação. O cérebro define quais são os elementos que estão ao alcance da nossa visão a que devemos prestar atenção. Os olhos recolhem a informação e o cérebro interpreta-a. O cérebro tem a capacidade de registar e aprender com experiências passadas.

Como exemplo, desafio o leitor a observar a imensa quantidade de brancos que existem ao nosso redor… Mais brilhantes, mais escuros, mais amarelados, mais azulados… enfim, uma infinidade… Porém para nós tudo é branco. Perecer que ainda que brancos, são todos diferentes, acaba por ser informação irrelevante para o nosso dia-a-dia salvo algumas excepcões de profissionais que observam estas coisas por imperativos profissionais. Na profissão de fotógrafo ter consciência deste facto é de primordial importância. Por incrível que possa parecer, para a câmera fotográfica esta variedade de brancos é muito importante e o desempenho desta é influenciado por esta diversidade.

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Temos aquilo que se chama de Visão Seletiva. O cérebro ordena os nossos olhos para observar as coisas que nos chamam a atenção e não fazemos caso de outras. É por isso que vemos a toda a hora à nossa frente coisas que estão nítidas ao nosso olhar e outras não. É a nossa visão periférica que se encarrega dos elementos aos quais não queremos prestar atenção. Temos consciência da presença desses elementos e só isso. A câmera não tem essa capacidade, regista tudo o que está à nossa frente e todos os objetos que estão à mesma distância aparecem igualmente nítidos. E isto altera por completo as imagens que registamos com as nossas câmeras em relação às cenas que observamos a olho nú.

Por outro lado, o ser humano possui uma visão estereoscópica (temos dois olhos lado a lado). E todos nós sabemos que a nossa visão é ligeiramente desfazada de um olho para o outro. O que importa perceber é que o nosso cérebro interpreta este ligeiro desfazamento e com isso avalia a profundidade… Por isso vemos a três dimensões (espaço, distância e profundidade).

Ora, a câmera fotografica (convencional – as 3D também registam a duas dimensões, apenas varia a forma como as observamos) regista tudo a duas dimensões. E esta condicionante também influencia muito na forma como as nossas fotografias ficam comparativamente às cenas que observamos. É pois preciso recorrer por um lado à técnica para transmitir profundidade nas nossas fotografias, e por outro lado às consequências da física para isolar os elementos principais nas nossas propostas visuais. Aqui precisamos de dominar a técnica.

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Outro pormenor que é muito importante ter em conta prende-se com a elasticidade. Ou seja, no nosso dia a dia passamos de zonas altamente iluminadas para zonas de sombra e até bastante escuras e os nossos olhos adaptam-se rapidamente a estas diferenças de luminosidade. Nós nem nos apercebemos. Porém, quando temos uma câmera na mão achamos que esta tem a mesma elasticidade e isso está muito longe de ser verdade. E por isso precisamos ter consciência de como as diferenças de luminosidade afetam a forma como as imagens ficam nas nossas câmeras fotográficas depois de fazermos a fotografia.

A nossa visão do Mundo que nos rodeia prende-se unicamente com a nossa atenção e é limitada apenas por ela. Porém, uma fotografia está sempre limitada por linhas e ângulos retos e estes têm muitíssima influência na forma como os elementos que constam das nossas propostas visuais se relacionam. Importa conhecer algumas técnicas e também a proporção que as nossas câmeras fazem, se elas fazem proporções mais quadradas ou mais retangulares vão influenciar de forma diferente os elementos das nossas fotografias. Temos de ter este fator em conta na hora de compor e enquadrar os assuntos nas nossas propostas visuais.

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Outro fator importante prende-se com a questão da disposição dos elementos na cena. Para dar um exemplo que julgue mais inteligível, façamos uma comparação entre um desenho ou pintura e uma fotografia. No desenho ou na pintura o artista pode dispor os elementos na cena a seu bel-prazer e alterar os esboços da forma que achar mais conveniente a fim de dar harmonia ao seu trabalho. No caso da fotografia isso na maior parte dos casos é impossível. A fotografia exige destreza de observação e capacidade (e muito, mas mesmo muito treino) para que o artista possa aglutinar os elementos na cena e dar-lhe equilíbrio e harmonia. Não se podem mexer casas, rochas, bancos de jardim, etc. Esta premissa leva-nos à ultima questão que importa ter em conta na hora de levar as nossas câmeras para a rua e ir fotografar. A fotografia é feita de um ponto de vista fixo e o nosso olhar move-se constantemente. Às vezes um simples dobrar de joelhos ou um ligeiro passo para um dos lados altera por completo as cenas. E isto é de importância fulcral. É preciso mexermo-nos constantemente para dar oportunidade às cenas, para que estas ganhem valor nas nossas fotografias.

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Quando estamos a caminhar numa rua, todos os edifícios que vemos estão na vertical. Agora peguem numa câmera, até pode ser a de um telefone e façam uma fotografia de baixo para cima, como se estivessem a olhar para cima, depois peguem na fotografia que fizeram, olhem para cima e comparem com a cena que vêm a olho nú. É uma diferença abismal. Observem o que acontece às linhas que observamos a olho nú e vemos na vertical. Ficam convergentes. Isto porque o nosso cérebro interpreta a informação. A Câmera não tem essa capacidade.

Importa compreender estas diferenças e dominá-las, tê-las presentes sempre que estamos a fotografar. Esta parece-me uma boa forma para começar. Entender a diferença entre aquilo que nós vemos e aquilo que as câmeras registam.

Para terminar, sugiro que peguem nas vossas câmeras e experimentem estas diferenças que vos descrevi. Não se preocupem com a qualidade dos vossos trabalhos, mas sim com experimentar estas diferenças na prática. Tomar consciência destas coisas é basilar para toda e qualquer pessoa que queira começar a fotografar.

Com isto, e em jeito de conclusão, creio que importa perceber que na hora de fotografar precisamos sempre de ter consciência das caraterísticas quer do equipamento, quer do assunto. Fotografar deverá ser sempre um ato de consciência.

Autor: 5Rui Campos

 

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  • Guerra Junqueiro

    Rui Campos;

    Os meus parabéns, excelente explicação.
    Eu estava literalmente “em branco”, mas agora sei, que serei um bom fotografo quando as câmaras tiverem cérebro. Infelizmente não são só essas que não têm.

    Cumprimentos
    Guerra Junqueiro

    • António Rui Campos

      Guerra Junqueiro;
      Infelizmente não ha mais bons fotógrafos porque se insiste em olhar para o lado errado. Acredite que é incrivelmente fácil. Porém a fotografia só nos devolve aquilo que investimos nela. E não, não é investimento monetário. Não há atalhos nem caminhos fáceis nisto da fotografia. Mas isso nao quer dizer que fazer boa fotografia é dificil. Leva é tempo 🙂