Que Pátria é esta?!? Autor: Artur Fontes

“Mas que pátria é esta, que trata os seus homens como animais?”

João Tordo, in “Benigno”

João Tordo, apesar de ser um jovem escritor, (nasceu em 1975), é já um nome importante na escrita portuguesa. Premiado por diversas vezes pela qualidade do seu trabalho, João Tordo descreve-nos neste seu pequeno livro “Benigno”, (2014), as condições miseráveis dos soldados portugueses pertencentes à Segunda Expedição, em Moçambique, durante a Iª Guerra Mundial.

Benigno, através de cartas para Lisboa, vai-nos relatando em tom de queixa, o estado anímico e técnico dos nossos soldados, e escrevia “A infantaria é uma argamassa de soldados mal treinados, (…) alguns deles têm dois meses de recruta e nenhuma experiência militar, (…), Há artilheiros que desconhecem as armas que trazem, (…), Os portugueses tinham estado a disparar uns contra os outros. Desconhecendo as manobras do outro regimento, ambos os lados se convenceram de que os alemães disparavam contra eles”. (2014:78/79)

Enviados para África, “perante o desinteresse do país”, (p. 37), para essa terra longínqua e desconhecida da maior parte deles, muitos sem nunca terem saído das suas próprias aldeias, sem disciplina militar e sem saúde “ As tropas foram morrendo, os soldados caindo para o lado de doenças, de tédio”, (op.cit. p.76). Benigno, na sua lamentação, retracta com realismo, o martírio daquele tempo de guerra, naquelas distantes paragens” Chegámos há menos de noventa dias e já falta comida e água, (…), somos cada vez em maior número no hospital” (p.77).Mostra-nos, também, a forma que encontraram para quebrar esse tédio, “Há alguns dias, cerca de catorze praças e sargentos foram corridos de uma aldeia à pedrada. Dizem que entraram embriagados e alguns deles tentaram possuir uma mulher à força” (p.77)

Vivia-se, nesse Portugal de então, um período de instabilidade política. A República tinha poucos anos de existência. A monarquia tinha deixado os cofres completamente vazios! Muitos destes soldados eram voluntários “que se apresentaram em estado lastimável, gente que quer fugir da vida que tem. (…) Doentes, bandidos, velhos, maltrapilhos, vagabundos”. (p. 44).

O Portugal de hoje, o dos nossos dias, o de agora, apresenta-se também em estado lastimável. Há gente novamente a atravessar as fronteiras, já não como dantes “a salto”, nem pelos trilhos que levaram os seus pais ou os seus avós, para além dos Pirenéus. Fogem da vida que têm, do desemprego que lhes rói a esperança ou do medo de perderem o presente sem vislumbrarem o futuro. Portugal atravessa uma das suas maiores crises, desde que, em 1974,a democracia se implantou. Crise que provoca mais outras crises. São os escândalos que se sucedem. As fraudes, as derrapagens, o dinheiro mal parado, os desfalques que nos surgem em notícias surpreendentes e…as prescrições! Os milhões nunca dantes falados sobrevoam por cima daqueles que desesperadamente procuram pagar o que já quase não conseguem. Um «polvo» engordado na escuridão dos negócios e nas falsificações das palavras e que se alimenta da austeridade que nos arruína.

Os números são a prova desta crise. A evolução da dívida em percentagem do PIB era 64,1 em 2006; 65,3 em 2007; 64,3 em 2008; 66,2 em 2009; 75,2 em 2010; 84,4 em 2011; 114,6 em 2012; 119,3 em 2013 e, neste ano voltou a subir!

O desemprego entre 2005 e 2008 manteve-se entre 7,6% apesar de em 2007 ter subido para os 8%. Mas, em 2009 subiu para 9,4%; em 2010 sobe para 10,8%; em 2011 temos 12,7%; em 2012 são já 15,5% e, em 2013 os 16,2%.

Guerra Junqueiro, escrevia em 1896, caracterizando os portugueses de que ele tanto gostava “Um povo imbecilizado e resignado, (…), burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice”, perante uma “burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo “.

As desigualdades sociais, o fosso entre ricos e pobres aumentaram assustadoramente, neste Portugal europeu.

A pergunta feita por Benigno, “Mas que pátria é esta? (p. 91) no livro de João Tordo, apesar de ter sido proferida em 1915,numa das cartas escrita por aquele, tem hoje toda a pertinência de ainda voltar a ser colocada, a cada um de nós.

Assim, também cada um terá a obrigação de saber encontrar para si, a devida resposta, uma vez que “pátria” somos todos nós!

Artur FontesAutor: Artur Fontes

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