Terça-feira, Março 28, 2017
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Rotundolândia… Autor: João Dinis, Jano

Rotundolândia… Autor: João Dinis, Jano

Com um quilómetro de distância a separá-las, são duas as rotundas inauguradas muito recentemente, na zona da Cordinha.

Uma, a Sul de Ervedal, à entrada (ou saída) da EN 231 – 2, rumo à Ponte do Salto. Outra, a Norte, quase no limite da Freguesia de Ervedal com a Freguesia de Vila Franca da Beira.

Nesta última vê-se o conjunto escultórico e arquitetónico em “homenagem à mulher queijeira”.

Encima-o a figura estilizada, em chapa de ferro, de uma suposta queijeira em plena manufactura do Queijo da Serra, que se fosse a fazê-lo de facto, quase pela certa só poderia ser “queijo de ovelha curado”, dadas as esquisitices das certificações que sobretudo servem para fazer encarecer o queijo em para aí um euro a mais por quilo…

Nos anéis em cimento da base deste conjunto, vê-se o desenho de alguns pares de mãos que lá foram impressas (tamanho real) directamente por queijeiras profissionais da atualidade. Ao nível do solo, a toda a volta do conjunto, há plantas (naturais) de cardo. Como é sabido, o cardo “bom” é uma substância retirada da flor e utilizada na feitura deste queijo.

Enfim, há quem goste e quem não goste do conjunto. Depende dos gostos… Mas, de facto, ali há uma componente artística bem visível, embora não fotográfica, digamos assim. Respeitemos a ideia – a homenagem à mulher queijeira –  e apreciemos a arte.

O acto de serrar rolos que de facto não era assim…

O conjunto da rotunda Sul, em Ervedal, tem como tema a homenagem à indústria de serração de madeiras, uma atividade económica cuja origem, na Cordinha, remonta ao início do século XX e que ainda hoje é dominante na zona.

Ao centro, o conjunto mais escultórico procura reproduzir em forma de silhuetas, em tamanho real, em chapa de ferro, dois supostos “serradores” a serrarem um “rolo”. À volta, há plantados pinheiros anões, naturais, ouvimos dizer que importados do Japão!

Bom, neste conjunto escultórico, a componente mais vincadamente artística é bastante menor do que a da “queijeira” da outra rotunda.

Aqui, e como já se disse, há apenas duas silhuetas de homem, recortadas em chapa de ferro, que estão a serrar, na horizontal, com um “serrote-traçador” um rolo (oco…) apoiado em dois “cavaletes” afastados um do outro… Sim, aqui é tudo muito mais linear.

E parecendo até que não, será merecedor de maior análise crítica. Vejamos:

– Não era nada assim que se serrava a madeira, desde logo o tronco de pinheiro que o de eucalipto é muito mais difícil de serrar.

–  No início das serrações de madeira, os verdadeiros serradores – a que supostamente correspondem as duas silhuetas lá colocadas – serravam os rolos com a “burra”, esta uma serra-serrote braçal com “ponteiras” distintas, uma para cada mão, de cada uma das extremidades da “burra”.

Os dois serradores que utilizavam a “burra”, ficavam, um em cima do rolo (de pé ou sentado de pernas escanchadas) e, outro, praticamente por baixo (ajoelhado) do mesmo tronco –  que era colocado na oblíqua com uma extremidade assente no solo e a outra suportada por um apoio, normalmente um cavalete.

E a “burra” serrava quase na vertical, para cima e para baixo, puxada alternadamente pelos dois serradores.

E assim é que se serrava os rolos, as tábuas e as ripas. Na mata ou já fora desta. Era trabalho difícil que para além de resistência física também tinha alguma “arte” prática. Daí que os primeiros serradores tenham para aqui vindo de regiões como Leiria, Fundão, Mortágua…

– A seguir, anos depois, chegaram as serras mecânicas, a vapor. Mais tarde, as serras e os “charriot” movidos a energia eléctrica… E assim hoje continuam.

–  O tipo do “traçador” reproduzido no conjunto desta rotunda, esse servia para cortar-derrubar os pinheiros ainda ao alto (agora temos a motosserra) e para os “traçar” já assentes no solo (não em cavaletes), em rolos à medida, antes de serem serrados pela “burra”.

Naquela rotunda está representada uma forma de serrar rolos que simplesmente não existiu !…

E até poderíamos analisar os dentes do “traçador” que estão “cegos” ou seja, estão perfeitamente alinhados quando as serras e os “traçadores” tinham – e têm – os dentes alternadamente virados um para um lado, outro para o outro, para dar “trave” ou “rasgo”.

Já agora, mesmo que quisessem, não iam conseguir “traçar” um rolo (enfim, seria para lenha) posto em cima de dois cavaletes colocados na posição dos que lá estão reproduzidos.

“Traçar” um rolo naquela posição, faria com que, quando o golpe do traçador estivesse a mais de dois terços da espessura do rolo, este – em resultado do peso das duas partes confluir para o meio, dado o vão – apertasse cada vez mais o “traçador” a ponto deste já não poder ser movido pelos serradores…

A única forma de serrar rolos grandes na horizontal, com apoio em cavaletes, até cortar todo o rolo, seria colocando os cavaletes muito mais próximos um do outro para que, a dada altura, o peso das duas meias-partes, em progressivo e autónomo aumento, contrariasse a força da gravidade, digamos assim, e puxasse para cima (dado ficarem muito próximos um do outro os pontos de apoio proporcionados pelos dois cavaletes) permitindo o trabalho em vaivém do “traçador” até o corte ficar consumado. Porém, com os cavaletes nesta posição, iríamos provocar instabilidade ao acto de serrar. Não é prático.

Em síntese: – quem fez aquele conjunto da rotunda Sul, em Ervedal, não sabe o que foi serrar madeira a sério ou, se sabe, ignorou a realidade…embora também não tenha produzido arte.

Por isso, nós não gostamos “daquilo” e dizemo-lo.

A  “consulta pública” que não houve…

Manda a sabedoria que sobretudo quando se pretende homenagear pessoas ou “coisas”, se trabalhe para obter consensos alargados em torno dos respectivos projectos e da forma como os concretizar. Há a “consulta pública”, por exemplo…

E aqui, particularmente para esta rotunda Sul, não houve digamos que essa “sensibilidade” prévia. Apenas um grupo muito restrito teve o ensejo de analisar a ideia e o correspondente projecto para a materializar.

Nós respeitamos a ideia – homenagear a indústria da serração de madeiras.

Mas contestamos “rotundamente” o conjunto “escultórico” lá instalado e pelas razões atrás aduzidas.

É verdade, por mais voltas que dê àquela rotunda Sul, não consigo gostar “daquilo”…por não respeitar a realidade que, no caso, também é tradição. E também não contém “grande coisa” em termos de arte escultórica. Se lá tivessem colocado os dois serradores a serrar com a “burra” um rolo na oblíqua – estilizados ou não – ora aí teríamos nós um conjunto escultórico muito mais fiel à especialidade laboral daqueles esforçados homens. Teríamos agora, ali, um conjunto muito mais interessante também.

Bem, e não posso deixar de dizer que, de hoje em dia, não se deve instalar quaisquer tipos de conjuntos escultóricos dentro de rotundas porque distraem os condutores e acrescentam factores de risco à condução.

janoentrev1Autor: João Dinis, Jano

  • Guerra Junqueiro

    Caro professor João Dinis, devia ter-lhe ensinado antes. Sabe, para quem só tem um martelo, todos os problemas são pregos.
    Espero que o próximo presidente da câmara tenha a sensatez de tirar aquilo dali.
    Se o Sr, for o próximo presidente da junta, concorda ou não com a ideia.

    Cumprimentos
    Guerra Junqueiro

    • Rotundolês

      Trata-se de, nesta “rotunda” questão, tentar expor, segundo os códigos de muito poucos, aquilo que a muitos diz respeito: Homem, necessidades,matéria-prima, ferramentas, técnicas, trabalho, produto final. Concisamente, poderíamos trazer, a esta questão, a do Conhecimento.
      É claro que, muito antes das “indústrias de madeiras se terem implantado ” naquele território – e foi só naquele? – durante muitos séculos, em anterior presença, homens e árvores se encontraram e “misturaram”, rodeados de pedras, e construíram esses alicerces a que, ainda hoje, sem qualquer constrangimento, poderemos chamar de “civilização berço”.
      Ou seja: e antes do tratamento industrial dessa matéria prima, Homem e árvores andaram de “candeias às avessas”?
      Não.
      Provavelmente, muito antes de o Homem, mesmo por aqui, ter aprendido a trabalhar com a pedra, aprendeu a utilizar a madeira…ou as madeiras…
      Esse Conhecimento é anterior à industrialização.
      Esse Conhecimento permitiu obras, realizações, ainda hoje, quase incompreensíveis…
      Se me envolvo nesta questão, deste modo e com este balanço, é apenas para aconselhar – não para as rotundas – um estudo mais atento para todos os aspectos da História e civilização concelhias.
      Só assim se estará em condições de, antes de realizar “obras”, se pense , melhor, naquilo que elas podem significar e homenagear.
      O resto, é improviso. E, como em tudo, quem não domina a técnica, o conhecimento, não consegue improvisar…
      O resto, é pressa de mostrar “obra feita”. E, como em tudo, a “pressa” não é boa conselheira…
      O resto, é …enfim…”Os outros têm, eu também tenho que ter”, “A minha rotunda é melhor que a tua”, ” Gasto milhares, mas fico feliz”…
      O nome , para este simbolismo, é conhecido. É um nome composto. Adjectivo+substantivo.

  • Vermelhão

    O mandato está terminar. Mais um anito. Se não forem estas fantásticas rotundas, que obra foi feita? Temos de ser compreensivos. O homem não pode mandar fazer aqui um TGV ou um aeroporto. Assim, todos os oliveirenses se recordarão no futuro destas obras, e do dinheiro que seguramente podia ser melhor empregue.

    • Vermelhão

      Perdão. Digo Oliveirenses.

  • joão dinis, jano

    Já agora…

    Não tivemos possibilidade de intervir a tempo de poder influenciar a concretização do conjunto decorativo – não volto a chamá-lo por “escultórico” – instalado na rotunda Sul, em Ervedal .Não tivemos essa possibilidade quase todos nós, aliás.

    Devo reconhecer que, hoje, concordo com a ideia de ali se consagrar a indústria de serração de madeiras. Reafirmo que, sobretudo junto dos Ervedalenses, devia ter havido uma “consulta pública” acerca da forma de concretizar a ideia.

    E se assim tivesse acontecido, é provável que não tivéssemos, agora, a “fraude” decorativa que lá está a simbolizar um acto de serragem que não existiu na realidade, e na tradição, da serração de rolos de pinho, até meados do século XX.

    Fazer reverter a “coisa”, um dia ? Talvez, se houver condições para isso, obviamente.

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    Já agora…

    Vale a pena rebuscar nos álbuns antigos que condensam as vidas, anónimas, sacrificadas,de muitos dos que nos antecederam neste “vale de lágrimas”…no caso nesta nossa terra-chá da Cordinha.

    Reflectindo um pouco mais na imagem do serrador que ficava, muitas vezes sentado “a cavalo”, em cima do rolo de pinho colocado na oblíqua, a puxar na tal serra braçal – com tracção a dois serradores – serra alcunhada de “burra” que trabalhava quase na vertical em relação ao solo, acho que essa imagem poderia sugerir ( eu nunca vi a cena através dos meus olhos) um homem encavalitado numa burra (animal…)…que sentado num cavalo isso era para os privilegiados…

    E também podemos imaginar o outro serrador – aquele que ficava por baixo do rolo – normalmente era o “ajudante” – de joelhos ou enfiado a meio corpo num buraco escavado de propósito no solo para lhe facilitar a serragem…

    Sim, podemos imaginar o “ajudante”, no calor do Verão (embora procurassem as sombras), com o suor a escorrer, com a serradura dos cortes a cair-lhe nos olhos, no rosto, no tronco, na velha camisa pegajosa de resina… E mesmo o serrador de cima, a equilibrar-se no rolo oblíquo por vezes a mais de 45 graus de inclinação (por isso muitas vezes trabalhava sentado “a cavalo” no rolo), rolo escorregadio da geada matinal do Inverno..ou da água da chuva, enquanto puxava a “burra” para cima ( e a deixava seguir para baixo, ao puxão do “ajudante”), com ambos os braços, e seguia com os olhos e com a sua inteligência prática, a recta do traço que guiava cada corte do rolo, das tábuas, das ripas…

    Esforçados homens esses. Heróis anónimos, esquecidos que ficaram no tal conjunto decorativo de rotunda em causa. Isto até foi uma injustiça !

    João Dinis, Jano

  • João Dinis, Jano

    João Dinis, Jano

    Permitam-me ainda…

    Deixem-me imaginar e sentir a sensação, do som da “burra” a subir e a descer, a serrar os rolos e as tábuas de pinho, na mata….

    Fazia um “solo” a dois tons:- um, mais grave, quando subia; outro, ligeiramente mais agudo, quando descia; a rasgar com os dentes (com “trave”…) as fibras mais ou menos carregadas de resinas….

    Seria sons que o vento carregava facilmente consigo e estendia pelos monte e pelos vales mais próximos… Seriam sons em natureza, entendíveis (rom-róm-rom-róm) por rolas em namoro e por outra e livre passarada…

    Hoje, de repente, trespassando o silêncio harmonioso das matas, somos muitas vezes “espantados” pelo som, mais do que “berrado”, das estridentes motosserras que retraçam sem piedade os “nosso” pinhais que já são sobreviventes a incêndioa e a doenças perigosas…

    Os operadores dessas maquinetas, também eles são esforçados heróis que, além do mais, fazem um trabalho com perigos vários. Mas fazem demasiado barulho e assim “espantam” a própria natureza ( e não só a passarada) !

    João Dinis, Jano