Artur Fontes

Saber olhar… Autor: Artur Fontes

«Não há Resistência sem Resistentes. Estou aqui para dizer em nome da República, quanto lhes devemos, quanto lhes estamos reconhecidos, quanto nos honramos do seu sacrifício, da sua abnegação, do seu heroísmo silencioso». Jorge Sampaio, 23 de Abril 2004

Nas Comemorações do 30º Aniversário do 25 de Abril, o então Presidente da República, o Dr. Jorge Sampaio, também ele resistente à Ditadura, proferiu estas palavras em frente ao Forte de Peniche, ex-Cadeia dos Presos Políticos, de então, como gratidão e reconhecimento oficial aos que lutaram e sofreram por um Portugal Livre e Democrático!

Quarenta e três anos (!) depois, daquela data de Libertação, foi assinado um Protocolo para dar seguimento, ainda, às obras de recuperação da Casa do Passal, em Cabanas de Viriato, casa onde viveu Aristides de Sousa Mendes. Situação que foi de destruição, de abandono e desprezo tão comum a outros edifícios históricos ou de interesse público. Bem podemos utilizar as palavras escritas, em relação ao “Convento de S. Francisco da Ponte, Valor da Arte Coimbrã”,1998:5): “Nem os ultrajes do tempo, nem as sevícias dos homens lhe diminuíram a dignidade”.

Uma sua neta, Vitória de Sousa Mendes, presente na assistência, e não na mesa, desabafou em particular e com alegria: “É uma forma de fazer justiça ao meu avô, que foi tão maltratado no tempo de Salazar”. Não só pelo governo da Ditadura, como pelo silêncio cúmplice das comunidades deste concelho! As atitudes corajosas de quantos souberam opor-se pelos mais variados meios, e dos mais variados quadrantes ideológicos, apesar de saberem «que se sujeitavam a uma perseguição sem tréguas, nos empregos, nos trabalhos, nos negócios, na família, na vida social” e que, “às dezenas de milhar foram presos, aos milhares torturados, em grande número condenados, muitos mortos”, (Carlos Brito, in “Cadeia do Forte de Peniche”, 2016:107), merecem aquelas palavras de louvor, que Jorge Sampaio proferiu.

Somos, todos nós, reféns do legado, daqueles que souberam enfrentar as vicissitudes de uma luta de décadas para, hoje, podermos sem medo opinar e esclarecermos livremente. Poderem as ideias circular sem que sejam constrangidas a um cerco e a uma censura. Somos responsáveis por aquele legado histórico, cultural e mental, na sua preservação e perpetuação, através da memória e referências materiais e imateriais. Assim como «os textos só nos falam quando os sabemos interrogar» (Marc Bloch, cit. por José Tengarrinha, in “Nova História da Imprensa Portuguesa das Origens a 1865”), também teremos que saber olhar para a Casa do Passal e sabermos interrogar a sua história e integrá-la na História Contemporânea, quer portuguesa quer europeia!

Não será por acaso, que a Presidente da CCDR Centro, Drª Ana Abrunhosa, na sua breve e espontânea alocução defendeu que “a cultura continua a ser um pilar essencial para aplicar fundos comunitários” (…). e que, o “investimento na cultura continua a ser fundamental para o desenvolvimento do País”.

Ora, a recuperação da Casa do Passal é importante. Urgente. Sem dúvida! Embora, ainda se não saiba o que fazer depois?!? Contudo, na minha opinião, essa é a parte exterior desse legado. É a parte material. A mais importante, a espiritual, a consciencialização e interiorização dos valores humanistas, a parte interior, essa é que germinará frutos. Sem esta, existirá um esvaziamento do exemplo de Aristides Sousa Mendes e de todos, quantos tiveram a intuição e a plenitude da compreensão de pôr fim ao obscurantismo e ao atrofiamento cultural, só possível com Liberdade de Pensamento e de Ideias.

Quarente e três anos, após o 25 de Abril, na sede do concelho, não existe uma referência em rua ou nalguma praça, ou alguma estátua, que nos aponte para aquela data, ou para ideais de “Liberdade” e “Democracia”, as quais levaram mais de quarenta anos a poderem ser soletradas e cantadas! Por cá, não se espelham em lado algum!

Não existe uma placa, que lembre às jovens gerações, ter havido no concelho, gente que soube colocar-se ao lado daqueles valores para, hoje, os diversos órgãos do Poder Local terem existência livremente escolhida, por todos nós! Os discursos, por mais brilhantes e eloquentes que sejam, “voam com o vento”, como se costuma dizer.

Para nosso bem, e para compensar este vazio, temos o caso de Aristides de Sousa Mendes, apesar de, infelizmente, ser fruto de uma atitude desumana, vingativa e prepotente do governo de Salazar, que não soube sequer aplicar os ensinamentos do Evangelho!

Triste, são os cartazes que se espalham pelo concelho sobre o Musical em honra ao Cônsul, e depararmos com um erro crasso e lamentável!

A letra A  de Aristides está inserida no símbolo da Anarquia !!!

Sousa Mendes nunca foi anarquista, nem nunca perfilhou tal corrente ideológica, que teve o seu período áureo, no início do Sec.xx! Foi sim, monárquico e conservador! A acrescentar, falta a vírgula, entre “Aristides” e “o Musical”. Lendo como aparece, ficamos com a impressão de ser um outro Aristides o Musical e não o Aristides de Sousa Mendes!

De facto, o investimento na cultura é um factor primordial no desenvolvimento do ser humano e das sociedades!

Artur FontesAutor: Artur Fontes

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  • Contracanto Associação Cultura

    Caro Artur,
    A expressão artística, enquanto linguagem livre, é subjectiva e aberta a várias interpretações. E essa é uma das suas características mais maravilhosas. O “A” de “anarca “, como refere, não pretende ser uma definição de Aristides de Sousa Mendes, enquanto Homem, mas antes e precisamente a ironia de como o seu gesto – no contexto pessoal de conservadorismo de Aristides – acabou por ser interpretado e condenado pela Ordem em vigor. É uma imagem invertida, intencionalmente e ironicamente invertida do Homem. E não literal, como o senhor escolheu interpretar. Mas, insisto, na Arte, assim como na vida de Aristides de Sousa Mendes e na dos homens que somos, a Liberdade é ainda, e ainda bem, um valor superior. Por essa razão, a sua interpretação literal, embora não tendo alcançado a nossa intenção, é válida, justa e, portanto, na conta e medida que escolheu para si próprio, correcta também. Por ser livre. Por ser a sua.
    Quanto ao título da obra, ele é: Aristides – O Musical, não com vírgula, mas com hífen. A designação de “O Musical” é o “cognome” da peça, a especificidade do género, que, no grafismo dos cartazes, é dada pela utilização de duas ordens de grandeza diferentes e por duas linhas em vez de uma única linha.
    Curiosamente, a família de Aristides de Sousa Mendes, como saberá, era sensível, admiradora e praticante de música, sim. O que não deixa de ser uma coincidência feliz.
    Saber olhar é um exercício não só de inteligência, mas também e muitas vezes, antes de mais, de sensibilidade. Obrigada pelo seu contributo na divulgação do gesto de Aristides que, na verdade, é o que é realmente o essencial.
    Sandra Leal