“Saio de consciência tranquila”

… em qualidade e quantidade à população é, no conjunto dos três mandatos, a maior conquista de António Santos que, apesar de impossibilitado de avançar com recandidatura, assegura que também não estaria disponível para uma nova corrida eleitoral pelo PSD.

Correio da Beira Serra – Exerce o terceiro mandato à frente da Junta de Freguesia de Travanca de Lagos mas não goza de maioria no executivo. Como avalia o relacionamento entre as três forças?
António Santos –
Temos conseguido levar a água ao moinho. Mesmo sendo composto por um elemento dos independentes (tesoureiro) e outro do PS (secretário), o executivo tem-se entendido muito bem. Em relação à Assembleia de Freguesia as coisas já não têm funcionado da mesma forma. Há uns problemas, mas têm-se conseguido ultrapassar.

CBS – No seu entender, o que é que marca este último mandato autárquico?
AS –
Este é o terceiro mandato e termina aqui a minha missão na atividade política. Porém, saio com uma certa mágoa, por ter sido no meu mandato que encerrou o Lar de Idosos Sarah Beirão. Mas também saio de consciência tranquila por tudo ter feito na tentativa de evitar aquele desfecho. Aquele lar era da responsabilidade da Câmara Municipal e foi o primeiro, salvo erro, que existiu no concelho. Chegou a ter cerca de 40 utentes. Encerrou por imposição da Segurança Social, alegando falta de condições para o seu funcionamento. Na ocasião, o atual presidente da Câmara lançou-me o desafio de mobilizar pessoas para criar uma IPSS destinada a assumir os destinos daquela casa. Transmiti a ideia a um certo números de pessoas que encararam bem o desafio e reunimos cerca de 30 pessoas para o efeito. Fizemos escritura da associação que até foi reconhecida com estatuto de IPSS. Depois disso, realizámos estudos acerca dos custos da obra de adaptação da casa às novas exigências e chegámos à conclusão que importava em um milhão e meio de euros, um valor considerado incomportável. Para já, não havia banco nenhum que nos financiasse e as receitas possíveis, no máximo, ficariam a 50 por cento dos encargos. Devo salientar a total disponibilidade do presidente da Câmara que sempre nos acompanhou em todas as reuniões com a Segurança Social na tentativa de encontramos forma de financiamento. Agora, algumas pessoas com responsabilidade na vida política da freguesia têm levantado a voz e têm-nos acusado de conduzir mal o projeto. Em jeito de esclarecimento à opinião pública, porque quem ouve falar essas pessoas pensa que são uns heróis, quero dizer que aquilo não é pertença de ninguém, é público, e uma associação pode mudar de direção. Que façam uma lista, assumam a direção e venham mostrar aquilo que valem. Não é só estarem do lado de fora a criticar. Se forem para lá e se conseguirem levar a água ao moinho eu aplaudo e até colaboro. Mas estar do lado de fora, numa política de deita a baixo, é uma injustiça.

“Com este presidente de Câmara não há distinção”

CBS – E no que respeita ao trabalho feito nos últimos três anos?
AS –
Sendo eu eleito por uma força (PSD) que não a da Câmara Municipal (PS), devo registar a boa abertura por parte do executivo do professor José Carlos Alexandrino. Com este presidente de Câmara não há distinção. Temos uma boa relação. As coisas têm funcionado muito bem e a descentralização de verbas às juntas facilita o nosso trabalho, porque nos permite elaborar um plano no início do ano. Já deveria ter sido assim há mais tempo. Fizemos uma obra que há muito tempo se desejava em Negrelos que foi a Casa Mortuária que a Câmara comparticipou em 25 mil Euros. A população também colaborou com 20 mil Euros. A obra importou em 60 mil Euros, e embora se trate de uma obra da Junta, nós gastámos cerca de 17 mil euros. Também temos apostado na beneficiação das ruas com repavimentação em granito, em calçada antiga. Neste momento, a freguesia de Travanca de Lagos tem por recuperar 150 metros de rua e contamos fazer isso até ao final do mandato. Em Andorinha, fizemos balneários no recinto das festas. Temos feito melhorias quer na sede, quer nas anexas. Preparamo-nos também para fazer uma obra que a freguesia há muito reclama. Trata-se de uma obra que se vinha arrastando e que vai ter início dentro em breve e que é o saneamento básico na avenida principal e rua do Covêlo, num investimento de perto de 300 mil Euros.

CBS – Com essa obra fica resolvido o problema do saneamento?
AS –
Ainda ficam por resolver as Quintas do Vale de André, no início da povoação. Ficará para outra altura. Em Negrelos e Andorinha também já não há problemas a este nível. Temos é ainda uma fossa por ligar à ETAR de Travanca e que às vezes satura. É preciso uma elevatória para depois se ligar à ETAR, mas afeta uma parte muito reduzida da população.

CBS – E em matéria de abastecimento de água?
AS –
Este ano, em Negrelos, contamos levar a água à Quinta da Lagoa que é servida pela captação num poço. Na altura em que cheguei à Junta de Freguesia, nos meses de verão, todos os dias faltava a água. Havia captação no Rio Cobral e vinha alguma água de Oliveira do Hospital, mas não era de qualidade, nem em quantidade. Nos meses de verão, para que não faltasse a água à população, todos os dias à meia noite ia fechar a água do depósito e voltava a abrir às sete da manhã, para que não se estivesse a consumir de noite, porque às vezes aproveitavam para regar jardins. Na parte baixa da freguesia não costumava faltar, mas na parte alta a água faltava todos os dias. A situação melhorou com a Águas do Zêzere e Côa , depois da construção do reservatório que serve Travanca de Lagos, Andorinha e Lagares da Beira. O problema está ultrapassado.

CBS – Depois da colocação de saneamento na avenida principal, considera que ficam resolvidos os problemas maiores da freguesia de Travanca de Lagos?
AS –
Sim. O problema do saneamento já se vem travando há muito tempo e é uma grande vitória para o povo. É pena que não tenha sido antes, mas as dificuldades têm sido muitas.

CBS – Um projeto em tempos muito falado foi o do Centro de Acolhimento no edifício da antiga escola….
AS –
Falou-se na criação de um centro social de emergência, mas nunca se chegou a conclusão nenhuma. O espaço tem sido usado para alojar pessoas por ocasião da realização de eventos por parte da Câmara municipal. O interior está devidamente equipado com camas, casas de banho e aquecimento. Neste momento, até lá estão alojados técnicos da BLC3.

CBS – A freguesia ainda tem EB1 em funcionamento…
AS – Sim. Neste momento temos lá 25 alunos. O ATL funciona na Casa da Criança, onde no mesmo espaço a Fundação Aurélio Amaro Diniz assegura a resposta de creche.

CBS – Travanca de Lagos continua a ser atrativa ou, pelo contrário, perdeu população?
AS
– Perdeu, mas pouco. Temos cerca de 1500 habitantes. A nossa freguesia ainda é bastante grande. As pessoas gostam de aqui viver. A freguesia está bem localizada e temos bons acessos, quer para Oliveira do Hospital, quer também para o vizinho concelho de Tábua, onde algumas pessoas também trabalham, como nos Aquinos, por exemplo. E temos também uma grande comunidade de estrangeiros, sobretudo Belgas e Holandeses que têm comprado muitas quintas, recuperado habitações, havendo até construções de raiz. Também temos cá o parque naturista frequentado por muitos estrangeiros e acaba por ser um chamariz na freguesia.

“Nunca mais veio médico a Travanca de Lagos”

CBS – Qual a realidade no que respeita aos cuidados de saúde na freguesia?
AS
– Não há cuidados de saúde. O centro de saúde não funciona por falta de médicos já há quase dois anos. Também não foi por falta de empenho da Junta de Freguesia. Enviámos vários ofícios ao Centro de Saúde e nem resposta obtivemos. Antes tínhamos médico duas vezes por semana e ultimamente já era só uma vez. Primeiro colocaram aviso a dizer que o Centro estava fechado por motivos de férias, depois por falta de médico e a verdade é que nunca mais veio médico a Travanca de Lagos. E nem enfermeira cá temos. Estamos completamente desprotegidos. A população tem que se deslocar a Oliveira, mas nem temos autocarros. As pessoas, muitas delas idosas, têm que ir em viatura própria, táxi ou recorrer a vizinhos e pessoas amigas.

CBS – Qual o impacto do desemprego na freguesia?
AS –
Infelizmente é uma situação que afeta todo o país e Travanca de Lagos não é exceção. Temos alguns casos mais graves, de pobreza até, que estão sinalizados pela Junta e são acompanhados pelo Gabinete de Ação Social.

CBS – A freguesia é empregadora?
AS –
As que dão mais empregos são as empresas de construção civil que até se vão mantendo estáveis. Temos também o comércio de base familiar.

O que de alguma forma tem dado muita vida à freguesia são as coletividades. A Liga de Melhoramentos de Travanca de Lagos está a desenvolver um trabalho muito interessante. Dinamiza várias atividades e até vai remodelar a sede. Também tem um grupo do Aikido que está a funcionar muito bem. Em Negrelos, a Liga de Melhoramentos está sem direção. Em Andorinha, existe o Rancho Folclórico Estrelas da Manhã com cerca de 50 elementos, que está bastante ativo. Realiza o festival anual e participa em outros festivais e eventos na freguesia e no concelho.

CBS – Na freguesia também se vêem algumas casas degradadas…
AS –
Sim. E é uma pena. Temos tentado fazer com que algumas sejam recuperadas ou até que passem para as mãos da Junta de Freguesia, mas não temos obtido grandes resultados. A casa que serve de sede à Junta de Freguesia também era uma dessas casas degradadas, que nem tinha telhado. Esta casa foi recuperada no mandato do senhor Falcão de Brito.

CBS – Chegou a recear pela extinção da freguesia?
AS –
Quando a lei apareceu todas as freguesias estavam em risco. Mas sempre estive ao lado da não extinção das freguesias. Todas as outras freguesias sabiam a minha posição. Sempre participei em manifestações, inclusivamente fui ao congresso da ANAFRE, no Algarve. Sempre achei que a nossa freguesia não seria extinta, mas estive sempre ao lado dos meus colegas.

CBS – Caso lhe fosse permitido equacionaria uma recandidatura à Junta de Freguesia?
AS –
Se calhar não. É altura de dar lugar a outros. O povo é cada vez mais exigente e as dificuldades são cada vez mais. É altura de renovar e de gente nova aparecer com novas ideias e projetos.

CBS – Identifica-se com a atual comissão política do PSD de Oliveira do Hospital?
AS –
Tenho que lhe dizer: parte da atual comissão política, ontem, combateu-me porque alguns elementos eram independentes nas últimas autárquicas. Mesmo que pudesse, não veria com muito bons olhos uma recandidatura pelo PSD. Não estão a começar a trabalhar da melhor maneira.

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