Numa entrevista concedida ao Notícias da Covilhã antes de se ter demitido do PCP, António Lopes promete honrar o compromisso que um dia deixou ...

“Se o actual presidente for candidato, eu estarei lá”

… em assembleia municipal: se Mário Alves avançar, também ele entra em “combate”.

Nasceu em Unhais da Serra e começou a trabalhar aos dez anos. A fazer o quê?
Com o encerramento das Minas da Panasqueira, em 1944, o meu pai foi trabalhar para a barragem do padre Alfredo e acabei por nascer em Unhais, por acidente, fruto dessa migração. Os meus irmãos mais velhos nasceram todos em Sobral de São Miguel. O trabalho acabou ali e fomos então para Oliveira do Hospital, onde fiz a instrução primária.

É nessa altura que começa a trabalhar?
Como pastor, aos dez anos. Fiz exame da 4ª classe a 7 Julho de 1961 e comecei a trabalhar no dia 8, a ganhar 50 escudos. No fim do ano já ganhava 120 e tinha mudado de patrão três vezes.

Quando é que entra nas minas?
Ainda tive uma passagem por Coimbra como marçano. Entregava mercearia e fazia encomendas. Com 16 anos apareço nas Minas da Panasqueira. O primeiro dia de trabalho foi na véspera de Natal de 66.

Como recorda esses tempos nas minas?
Não são bons nem maus. A mina tinha duas contingências: a segurança e a insalubridade, por causa da silicose. Eu tinha a ânsia de ganhar mais. Fui logo para ajudante de marteleiro, que era das profissões mais bem pagas. Quando fui para a tropa já era marteleiro de primeira. Estava no topo da carreira quer em termos de remuneração quer de qualificação. Dali entrei na Marinha, onde estive cinco anos e meio.

Muito tempo…
O serviço militar obrigatório era 4 anos, mas tive lá umas doenças e acabei por ficar esse tempo, até 31 de Dezembro de 1976. Regressei em Janeiro de 1977. Pouco depois comecei a andar à volta do sindicato, passei a delegado sindical, dirigente sindical e andámos lá naquelas confusões. Liderou as grandes greves dos anos 70. Liderar é um bocado pretensioso. Nós reuníamos uma série de sindicatos. Quantos funcionários eram na altura? Cheguei a contar 1763 empregados. Cerca de 1300 do meu sindicato. Quando entrei havia cerca de 220 a pagar quota e quando saí das minas pagavam quase todos. Era um indivíduo bastante activo. Dormia 3/4 horas. Não me envergonho do trabalho que fiz enquanto sindicalista. Não era de fazer descontos. Logo de início definimos as regras do jogo: nós queremos isto e os dias que perdermos vão ter de os pagar. E pagaram.

O que reivindicavam?
Era um tempo em que a inflação era muito grande, pedíamos aumentos de 25, 30 por cento ao ano. Com o dinheiro era mais fácil mobilizar as pessoas. Ainda assim é. Mas reclamávamos a nível da refeição lá dentro, das condições de trabalho. Tínhamos uma comissão intersindical de 20 e tal pessoas. Sabíamos fundamentar o que pedíamos e conseguimos avanços significativos. Quando entrei em 1977 ganhava 7 contos e 500 como marteleiro. Quando fui embora, quatro anos depois, ganhava quatro vezes mais.

Onde foi ver dessa veia? À época já tinha ligações ao Partido Comunista?
Estas coisas nascem connosco. Venho ali do Sobral, que é terra de gente reivindicativa. Inscrevi-me no PC pouco antes e parte daquele sucesso deveu-se ao Partido Comunista, que nos aconselhava com opiniões moderadas. Começávamos a negociar no início de Janeiro e a empresa dizia que não podia. Nós demonstrávamos que sim. Na última estivemos 93 dias em greve, tivemos de pedir crédito para as pessoas em tudo o que era mercearia.

Negociavam com base em que argumentos?
Vou dizer em primeira mão porque já o posso fazer. Muito do sucesso que tivemos deveu-se a um homem que era responsável pela informática. Era próximo do PC e tinha um irmão funcionário. Foi essa a ponte. O engenheiro Álvaro Leal, que ainda hoje vive no Paul. Conseguíamos saber números da produção, acidentes, tudo. Eles ficavam boquiabertos. Outras vezes vínhamos à Segurança Social saber dados que depois nos davam muita força na luta reivindicativa.

“Não há patrões bons”
Como é que um sindicalista se torna um empresário de sucesso?

Os empresários são de sucesso enquanto as políticas do País forem de sucesso. Claro que há gente mais acutilante e há as oportunidades. Acabei por vingar num sector onde não havia experiência. Comecei na Madeira. Não sabia grande coisa, mas mesmo assim era o que sabia mais.

Porque saiu das minas?
Saí porque tive doenças graves na tropa. Tive tuberculose, depois para a curar apanhei uma hepatite por intoxicação dos medicamentos e para curar as duas acabei por apanhar uma úlcera duodenal. Fiquei vacinado para o resto da vida, nunca mais adoeci. Com 27 anos andei um tempo fora da mina em convalescença, depois voltei lá para dentro e tinha a consciência que a continuar ali, com este historial, o futuro não era muito longo. Gostava de lá estar, foi o período da minha vida que me deu mais gozo e me senti mais útil. Saí por motivos de saúde.

O que foi fazer na Madeira?
O meu irmão estava a arrancar com uma empresa de construção. Fui como encarregado. Começámos a fazer uns túneis e as coisas correram bem, embora não houvesse muita experiência. O equipamento era muito caro, tivemos de ir devagarinho. A certa altura tínhamos uma grande dimensão porque éramos a única empresa com uma equipa preparada e estávamos a fazer bem. Pudemos então começar a expandir a outros ramos. Vivi lá 21 anos.

Foi um sindicalista reivindicativo. Considera-se um bom patrão?
Não há patrões bons. Isso não existe.

De que forma é que os seus valores se reflectem na gestão das empresas?
Faz confusão a algumas pessoas eu ser comunista. Vivemos numa sociedade capitalista e o mercado tem regras. Eu sou empresário, estou metido nessa máquina. Mas enquanto outras empresas não deixam entrar o sindicato, eu sou o primeiro a telefonar-lhes. Enquanto andam cinco ou seis anos para pagar aos trabalhadores em casos de insolvência, eu 15 dias depois da adjudicação da Fiper tinha-lhes pago. Há 3 anos e ainda não tenho o trânsito em julgado. A fábrica ainda estaria fechada, os trabalhadores estariam parados. Onde é que se vê a diferença? Tenho vergonha do ordenado que pago aos trabalhadores. Ainda assim, tenho de pôr dinheiro do meu bolso todos os meses para receberem o ordenado. Diziam-me que antigamente não passavam desta porta, agora entra aqui quem quer e todos os trabalhadores estão autorizados a saber as contas da empresa.

Gostava de pagar mais mas as condições não o permitem. É isso?
Eu gostava de cumprir as minhas responsabilidades mas ter também os meus direitos. Enquanto patrão tenho de explorar. Se me avariar uma máquina, que custa 20 ou 30 mil contos, se não explorar ninguém para a repor, não a reponho. São contingências do negócio. Ando num carro melhor que o deles. Posso dizer porquê: se não andar a sociedade já não me respeita.

É verdade que paga todos os meses o ordenado de um funcionário do PC?
Não somos conhecidos por andarmos a falar dessas coisas. Mas sou porventura dos militantes do partido que mais contribui, fiel ao princípio que paga quem pode. “Sou uma pessoa desprendida do dinheiro” Considera-se um homem rico? Tenho um património imóvel considerável, também devo um bocado. Sou uma pessoa desprendida do dinheiro. O meu conceito de rico é ter dado formação superior à minha filha, que eu não tenho. É viver numa casa confortável, é andar num dos melhores carros da cidade, não por ostentação mas por ser seguro, rápido, cómodo. De resto, quando meto a mão ao bolso e preciso de 20 euros para pagar um café quase sempre tenho. O meu conceito de rico anda à volta disso, porque um dia destes entrego a alma ao criador e quando mais cá temos mais pena tenho de ir.

Pedem-lhe muita ajuda?
Nem lhe passa pela cabeça o número de pessoas que entra aqui a pedir. Desde ranchos, escolas, clubes de futebol, bombeiros, eu sei lá. Gasto um bocado de dinheiro nisso. Se calhar por ano à volta de cem mil contos [500 mil euros]. Há nove viaturas de bombeiros a circular que eu comprei.

A certa altura ficou conhecido como o empresário do Rolls Royce…
Ainda o tenho, mais um Bentley e dois Buicks.

São os seus luxos?
Comprei-os convencido que era um bom negócio. Afinal não comprei assim tão bem mas afeiçoei-me, comprei-os relativamente baratos e fui ficando com eles. Agora servem praticamente para o casamento de sobrinhos e amigos.

Mas é uma pessoa de luxos?
Nem tenho grandes luxos nem me preocupo em frequentar aquilo a que se chamam a nata da sociedade. As pessoas olham para mim e vêem que sou uma pessoa do povo. Sei que sou criticado pela minha forma de estar. Há quem ache que devia frequentar outros ambientes. Eu quando me convidam vou, mas o meu mundo é este onde sempre andei.

“Neste mandato está afastada [candidatura à Câmara da Covilhã]

Tem dado na região apoios significativos a instituições e clubes…
Pois tenho. Se calhar dei demais. Não sou de extravagâncias. Sou uma pessoa solidária e quis dar um apoio à zona que me viu nascer, dar o meu contributo. Mas há uma cultura complicada. Quando se faz alguma coisa perguntam logo o que é que eu quero. Uns dizem que quero ser presidente da câmara, outros que quero ser deputado. Eu só quero mesmo o meu País a andar para a frente e em especial a minha região.

Deixou recentemente o lugar de deputado municipal em Oliveira do Hospital por indicação do partido. A política continua nos seus horizontes?
Eu gosto da política, embora já tenha idade para ter juízo. Ainda ontem almocei com um e jantei com outro líder partidário. Tenho um contencioso com o presidente da câmara de lá, que está incompatibilizado com toda a gente. Neste momento é quase uma obrigação dar uma volta naquela situação. Estou comprometido com esse projecto.

Foi convidado para ser candidato à câmara de lá?
Neste momento tenho convites praticamente de todos. Há namoros. Eu vou dizendo que sendo militante comunista dificilmente estarei numa solução que não seja do acordo do partido.

Na Covilhã já foi abordado nesse sentido? Fala-se de um convite do PS.
Andaram a dizer que sim, eu acho que tem de haver algum decoro e recato. Se alguém é sondado e entende que não deve aceitar acho que não se deve andar por aí a dizer. Isso dificulta depois as soluções. É uma honra para alguém ser convidado por uma força que tenha possibilidades de governação. A única coisa que digo é que a ter existido o convite seria um motivo de honra para mim, a não ter aceitado, não me devo pronunciar sobre o assunto.

E no futuro?
Estou a entrar nos 60 anos, estou farto de guerras, são poucos os dias em que janto ou almoço com a família, são poucas as semanas em que durmo três dias em casa. Ando numa correria louca e isto chega a uma altura em que o corpo já dói.

Está afastada a hipótese de ser candidato à Câmara da Covilhã?
Neste mandato está afastada. Nos próximos já começo a ser velho…

Mas está disponível para Oliveira do Hospital…
Estou porque assumi um compromisso na Assembleia Municipal durante uma discussão mais acesa e considero-me uma pessoa de palavra. Se o actual presidente for candidato, eu estarei lá. Tenho duas possibilidades para encabeçar listas. Não quero ir por nenhuma e levanta-se a hipótese de fazer uma lista de independentes

“Não temos hoje a força anímica que tivemos noutra altura” Tem no concelho a imobiliária, a truticultura, os lanifícios. E os restantes projectos para cá?
O que era verdade há três anos hoje não é. A banca não apoia, porque são projectos de grande envergadura, a margem de risco é grande. Têm uma componente imobiliária forte e todos sabemos como está o mercado imobiliário.
Por outro lado, fizemos uma aposta forte no Rio de Janeiro num empreendimento hoteleiro de 90 milhões de euros, em sociedade com o presidente do Sporting e mais duas empresas nacionais. Depois da situação conjuntural que vivemos, não tem sido fácil aportar capitais. Isso associado a perdas significativas que tivemos no mercado de capitais, não temos hoje a força anímica que tivemos noutra altura.

A Garagem de São João é para avançar?
Esteve parado algum tempo porque a tivemos vendida a um grupo que andou aí a comprar metade da Covilhã e depois não concretizou negócio nenhum. Isso atrasou-nos um ano e tal. O projecto de arquitectura está aprovado. Estamos a fazer um estudo de sustentabilidade porque o prédio vai levar acrescentos. Apesar da retracção da banca, o projecto até já está aprovado. Só que vemos o mercado muito retraído e manda a prudência que se aguarde algum tempo.

Isso significa que o golf da Quinta do Ourondinho também vai ter de esperar?
Também está em desenvolvimento. Em Portugal, para se aprovar um projecto desses são precisos cinco, seis anos. Mas não escondo que não estamos com o mesmo gás de antes.

E o hotel das Águas Radium?
Os estudiosos dizem que os campos de golf têm pouca camada de terra. Teria que ser carregada para lá muita e a manutenção do golf no Verão seria muito complicada. O projecto está feito, mas o risco económico é grande. Tenho aqui na zona da Covilhã onde gastar uns milhões largos e a rentabilidade é dúbia, os campos de golf não têm apoios comunitários. É complicado. Fruto deste dinheiro todo que está parado e não devia estar em condições normais, neste momento temos problemas de liquidez para concretizar isto como estava previsto.

N.R.: Em face do interesse jornalístico que a entrevista possui, o Correio da Beira Serra – devidamente autorizado pelo jornal “Notícias da Covilhã” –, reproduz aqui esta conversa entre António Lopes e a jornalista Ana Ribeiro Rodrigues, numa altura em que Lopes ainda não se tinha demitido do PCP.

Perfil

Sétimo de oito filhos de um casal de Sobral de São Miguel, António Lopes acabou por nascer em Unhais da Serra “por acidente”, há 58 anos. No dia seguinte a ter terminado a quarta classe, foi trabalhar como pastor, já em Vila Franca da Beira, Oliveira do Hospital. Diz ter sido sempre um “inconformado”, constantemente em busca de onde pagassem mais.

Ainda foi marçano e depois mineiro. Aproveitou os mais de cinco anos na Marinha para tirar o quinto ano, numa altura em que enfrentou várias doenças. Nos anos 70, regressado da tropa, destacou-se como sindicalista nas Minas da Panasqueira. Motivos de saúde fizeram-no abandonar o subsolo. Foi então para a Madeira. Começou a construir túneis com a experiência adquirida na mina e conhecimentos entretanto adquiridos. Os negócios floresceram e expandiu-se para outros ramos. Ficou na ilha das flores 21 anos, onde continua a ter investimentos.

Casado, com uma filha que trabalha consigo, passa grande parte do tempo em viagens e tem dificuldade em dizer onde reside. “Até a polícia quando me quer prender tem dificuldade”, graceja. A morada oficial continua na Madeira, por vezes fica na casa da Expo, em Lisboa, outras em Oliveira do Hospital, mas a maior parte do tempo é passada na Quinta das Rosas, na Covilhã. No entanto vai duas a três vezes por semana a Lisboa. “O carro tem três anos e 150 mil quilómetros”, nota.

Com uma memória prodigiosa, que se revela por exemplo nas datas exactas de todos os acontecimentos, tem como principal passatempo o estudo da História. “É quase uma doença”. A Internet veio facilitar as pesquisas das suas curiosidades.

Comunista, diz-se uma pessoa solidária e desprendida do dinheiro. No concelho tem ajudado várias instituições, como os bombeiros, o Sporting da Covilhã, o Estrela de Unhais ou o Teixosense. Anualmente doa cerca de 500 mil euros. Olhado como um homem rico, António Lopes garante não ser pessoa de grandes luxos.

Ana Ribeiro Rodrigues
Notícias da Covilhã

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