Artur Fontes

Sibéria foi nome de Dor. Autor: Artur Fontes

«Não sei o que pensar. Não consigo acreditar que ninguém se preocupe com a verdade»

Alexei Feodossievitch, Julho de 1934.

Este prisioneiro político, desabafava em carta à sua mulher, o seu desencanto e desilusão, para além de incompreensão e perplexidade, perante a falta de respostas às suas cartas enviadas a dirigentes do poder soviético, Estaline e a Kalinin, por se encontrar há sete meses preso e desterrado para as Ilhas Solovki, no Mar Branco, sem saber da razão e sem obter respostas.

No impressionante livro “O Meteorologista”, Olivier Rolin, descreve-nos o sofrimento dos que se viram atirados para aqueles campos de concentração soviéticos, onde a morte os esperariam, após dezenas de anos de cativeiro, afastados das suas famílias, dos seus empregos, esquecidos em paragens aprisionadas a milhares de km de distância dos seus locais de habitação. Seres humanos, vítimas dos mais horrorosos métodos de aniquilamento psíquico e físico, vivendo sob temperaturas negativas e às mãos de “uma gigantesca máquina de aviltar e matar” (Olivier Rolin, in “Sibéria”, 2016:10), são provas do que uma brutal máquina repressiva poderá concretizar através de uma metodologia bárbara e sanguinária ao assassinarem seres humanos numa “terra ensopada de sangue, semeada de mortos: mortos dos vários campos que ali foram construídos, fuzilados do «Grande Terror» dos anos 1937-1938”(“O Meteorologista”, 2015:61).

Emanadas ordens operacionais, estas medidas de coacção e medo eram executadas através de um aparelho ideológico dominante que cumpria escrupulosamente. A ordem operacional nº 00486 do NKVD, (Comissariado do Povo para os Assuntos Internos),por exemplo, fez com que “40.000 “esposas e concubinas ”fossem presas e deportadas durante os anos 1937 -1938 (estava especificado que se devia poupar aquelas que tinham denunciado o marido) e os seus filhos colocados em orfanatos do Estado” (idem, 2015: 119).

A loucura desenfreada destes carrascos, não poupava ninguém. “ Durante meses, de dia como de noite, (…), foram lidas inúmeras condenações à morte. Com um frio de cinquenta graus negativos, os prisioneiros músicos, (…) tocavam uma marcha antes e depois da leitura da cada ordem.” (in “Sibéria”, 2016:103). Exemplo da mais baixa condição animalesca existente nalguns seres. Sibéria traz-nos à memória os gulags. Traz-nos à memória o nome do escritor russo, Alexandre Soljenistsyne, também ele deportado para essas longínquas prisões existentes na Sibéria. “Foi ele que alertou o mundo, no principio dos anos setenta do século XX, para o famoso arquipélago de Goulag”(in “Sibéria”, p.10), que daria nome ao seu conhecido livro, publicado primeiro em França.

Acusações de tudo quanto possível, serviam para aterrorizar, prender, deportar e fuzilar. Na Ucrânia, (assim como no sul da Rússia), para justificar a falência da política agrícola, com a colectivização forçada e a requisição de cereais, a qual a “arrasta (…) para uma fome atroz. Milhões de pessoas, provavelmente três milhões, morreram durante os anos 1932-1933” , eliminaram-se os camponeses ricos ou supostamente ricos, chegava-se ao ponto de serem considerados como tal, quem possuísse apenas uma vaca e, por conseguinte, serem deportados e fuzilados, (“O Meteorologista”, p. 27), culpando-os da fome, que era, apenas e resultante da má política agrícola de Estaline.

Não se trata, como diz Olivier Rolin, in “Sibéria”, “de «comparar» campos nazis e soviéticos, o próprio termo «comparação» é deplorável (…), A morte em massa não é mercadoria, uma coisa susceptível de ser pesada.” (p.107). Trata-se de avivar a memória sobre o esquecimento dos horrores cometidos no Século XX. Trata-se de evitar que a barbárie retome os gabinetes do poder para o poder exercer sem limites e sem respeitar os mais elementares direitos humanos.

O desejo de esquecer, de apagar, é imenso. (…) Já não sabemos, cansámo-nos desta história terrível, sobreviver já é suficientemente terrível difícil. É verdade que há um monumento aos deportados, (…), mas foi erigido no cimo de uma colina onde não passa ninguém.” (“Sibéria”).

O pesadelo que pairou sobre todos os opositores, muitíssimos sem o serem, geograficamente localizado numa região de “desertos gelados atravessados pelo Rio Kolimá: dois milhões de quilómetros quadrados (…) para os quais foram deportados, de 1933 a 1957, entre um a três milhões de homens” (idem, 2015:96), torna-se num aviso constante às mentes da liberdade europeia. Este terror praticado por pessoas sobre outras, não aparece de um momento para outro! São fenómenos que surgem em nome de religiões, de políticas, de direitos de uns sobre outros. E são cometidos… por seres humanos!

Artur FontesAutor: Artur Fontes

LEIA TAMBÉM

Maldito IC6. Autor: Tozé Cardoso.

O cantor, compositor, multi-instrumentista norte-americano e vocalista convidado dos AC/DC  e fundador dos Guns N’ …

Menos Teatro. Mais Oliveira. Autor: Virgílio Salvador.

José Carlos Alexandrino afirmou que o PS e o governo tinham até 30 de março …

  • Portuguesito

    Descreva, por favor – não estou a defender essa “Sibéria”! – um único período da História da Humanidade – e não falemos dos actuais “migrantes” que , nos tempos que correm, quais, como migrantes, animais – em que não tenha havido “exílios”.
    Comece pela Bíblia. – calhando, fica-lhe bem! – e fale, também, das Cruzadas,dos Judeus, da Santa Inquisição…e da fogueira…e das “bancarrotas do Vaticano”…
    Depois, consulte o Oriente…o Egipto… a Grécia antiga , Roma e o império romano…e, até, do curto império português…
    E, se tempo tiver, com a devida “bússola”, regresse a África….e retome esse caminho que “nos” trouxe aos tempos contemporâneos…
    Depois, opine.
    Crimes na Rússia? – foram milhões…
    Agora, confundir “a árvore com a floresta”…obriga a uma consulta ao “oftalmologista”…
    Neste caso, à ciência: à História.
    Actualmente, são milhares de milhões – mais de 7 – os seus coabitantes na “aldeia global”…
    Fonte:
    http://www.worldometers.info/pt/
    População mundial: – 7.430.162.600
    Pessoas desnutridas no mundo: – 768.457.300
    Pessoas que morrem de fome hoje, por dia: – 27.476
    Mortes de crianças c/- de 5 anos este ano: – 3.515.995 (e ainda não acabou)
    Pessoas sem acesso a água potável : – 648.737.680…
    De facto, a Sibéria, os “Arquipélagos de Goulag” e a ex URRS constituíram, na História, um exemplo, naquilo que teve de pior, para toda a Humanidade, a não repetir – Portugal tinha, ao mesmo tempo, o Tarrafal…enfim..e outras “Sibérias” que tais…
    Recordar, também, e esforço da ex-URRS no combate, quer na 1ª, quer na 2ª grande Guerra, para vencer o nazi-fachismo…
    Sibéria?
    Acaso, independentemente do fuso horário, ou ponto geográfico, não andaremos, todos, nessa outra, agora sua, “Sibéria”?
    Alguns de nós, felizmente, tivemos acesso a todas estas manifestações de cultura…ao longo de milhares de anos…até hoje.
    Acaso será possível aceitar, bem vistas as coisas, que hoje, em Portugal, com 10 000 000 de habitantes, cerca de 2/3 vivam numa verdadeira “Sibéria” mediterrânica?
    Claro que não: não convém!