“Sinto-me afortunado…ainda não caí muito bem na realidade”

Apaixonado pela arqueologia desde os seis anos, altura em que sob a orientação da professora Teresa Serra efectuou uma visita de estudo a Conimbriga, Rui Silva iniciou este ano a sua realização profissional. Licenciado em Arqueologia e a frequentar o segundo ano do Mestrado Arqueologia e Território, Rui Silva é o responsável pelo recém-criado Gabinete Arquitectónico e Histórico-Arqueológico, instalado no Centro Interpretativo das Ruínas Romanas da Bobadela sob domínio do pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital.

Para trás ficou um percurso de cinco anos e meio em que o conhecido Arqueólogo exerceu as funções de jardineiro no Parque do Mandanelho, localizado em pleno centro da cidade de Oliveira do Hospital. Sem desprestígio pela actividade desenvolvida, Rui Silva – também exerce a função de massagista na Associação Desportiva Nogueirense – nunca se cansou de tentar melhor sorte junto do anterior executivo, a quem chegou a apresentar projectos concretos na área da preservação do património concelhio, sem que, no entanto, tenha conseguido qualquer resposta positiva.

“O anterior executivo não foi sensível”, observa o jovem arqueólogo que, não deixa de louvar a intervenção que foi feita no núcleo cultural da Bobadela. “Mas não basta”, referiu ao Correio da Beira Serra, sublinhando a urgência de se promover e preservar o património concelhio “dentro e fora de portas”.

Apesar da distância que insistia em o separar da concretização do seu sonho, Rui Silva nunca cruzou os braços e, pelo menos uma vez por ano, participava em trabalhos de investigação arqueológica. Não deixa, também de agradecer a flexibilidade horária que lhe foi conferida pelo anterior executivo para poder participar no trabalho de recuperação dos dólmenes concelhios, levada a cabo pela empresa Arqueohoje.

Com a alteração da equipa que comanda o município, Rui Silva não tardou em ver o seu mérito reconhecido. “Alguém confiou em mim”, afirmou o jovem arqueólogo de 39 anos, considerando que “da parte do novo executivo houve a percepção de que teria que haver um novo dinamismo perante o património”.

A este jornal, o arqueólogo fala de um encontro de ideais que apelida de “convénio”. “Tinha na minha gaveta mental alguns projectos e afinámos as violas culturais pelo mesmo diapasão”, contou Rui Silva, confessando-se “afortunado”. “Ainda não caí muito bem na realidade”, continuou, assegurando estar disposto a “tudo fazer para não defraudar” quem nele apostou.

“Queremos colocar o concelho nas rotas turísticas e culturais nacionais”

Envolvido no projecto desde a sua génese – o gabinete iniciou a sua actividade há dois meses e meio – Rui Silva tem noção da sua “magnitude” e aponta a promoção do património como um dos principais objectivos. Logo a seguir, o arqueólogo destaca todo o trabalho de investigação que está inerente ao novo gabinete e que pretende um cada vez maior envolvimento com a comunidade, em especial os estudantes.

Comparando o projecto a um triângulo que tem o património, a cultura e o lazer em cada um dos seus vértices, Rui Silva considera estar perante algo que “sem dúvida, era uma necessidade no concelho”. “Há que tentar dar a volta e tentar catapultar o concelho”, entende, considerando que “agora, há sensibilidade e espaço mental para isso”. Neste domínio enquadra a própria Junta de Freguesia da Bobadela e a população local.

A realização das férias arqueológicas na Bobadela nos dias 29, 30 e 31 de Março e 1 de Abril surge como uma das primeiras grandes acções do gabinete dirigido por Rui Silva e que, também já, iniciou um trabalho de sensibilização dos mais novos junto da comunidade escolar. Entre os planos do novo projecto consta ainda a definição de uma rota pré-histórica que envolva todo o concelho, porque “existe riqueza ao virar de cada esquina”.

Na dinamização das várias acções enquadradas na vasta iniciativa “Bobadela Romana cidade e território”, o novo gabinete contempla etapas de investigação que se dividem em prospecção arqueológica de superfície, prospecção geofísica e escavações arqueológicas. Em paralelo e sob orientação de Rui Silva, o gabinete vai elaborar a Carta Arqueológica do município, cujo grau de importância é comparável ao Plano Director Municipal.

Contando com a participação directa de vários jovens investigadores na área da arqueologia, o gabinete pretende dirigir as suas acções às escolas e instituições estatais e privadas. “Queremos colocar o concelho nas rotas turísticas e culturais nacionais”, assegura Rui Silva, dando conta da importância de a comunidade local estar informada do valor do património concelhio.

Localizado no centro interpretativo das ruínas romanas da Bobadela, o gabinete prima por estar rodeado de todo um manancial histórico já descoberto e outro tanto por descobrir. Por desvendar continua, porém, o futuro que vai ser dado àquele edifício, que com excepção do espaço usado por Rui Silva, continua inactivo e a apresentar sinais de avançada degradação.

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