Sócrates: o sofista…

À medida que o papel desce, as paredes desse poço vão sendo iluminadas, o que nos permite vislumbrar, de forma efémera, somente alguns dos seus ângulos. O papel a arder simboliza a nossa frágil memória, através da qual iluminamos fragmentos do passado; o poço condensa a História de tudo o que existe.

À medida que o papel vai caindo, caindo, vamos recuando no passado, cada vez mais, cada vez mais… até que deixamos de ver o papel. Sabemos, no entanto, que ele continua a cair na direcção de um tempo muito remoto, quando os Homens e o mundo eram diferentes.

Há pouco tempo, revisitei a comédia grega Nuvens de Aristófanes (c. 447-385 a.C.), através de uma edição feita pela Editorial Inquérito em 1984. A obra faz uma sarcástica e poderosa crítica aos sofistas, que Aristófanes confunde com o próprio filósofo grego Sócrates (c. 469-399 a.C.). Embora divergisse, em muitos aspectos, dos sofistas, Sócrates era, no entender de Aristófanes, o “amigo da sabedoria” mais “conhecido e que mais dava nas vistas no seu tempo”.

Em traços muito gerais, a comédia desenrola-se assim: Estrepsíades, antigo agricultor obrigado pela guerra do Peloponeso a abandonar a pólis de Atenas, via-se na ruína, a braços com grandes dívidas, motivadas por um casamento com uma mulher que lhe consumia os rendimentos em “luxo” e “pratos requintados”, bem como pela educação moderna de um filho, Fidípides, obcecado por cavalos e carros.

Desesperado com as dívidas e na iminência da chegada do momento em que teria de pagar os juros dos empréstimos contraídos, Estrepsíades encontra, finalmente, uma solução para todos os seus males: enviar Fidípides para a escola de Sócrates, o qual, segundo se dizia, tinha artes de formar as pessoas nas subtilezas da oratória, de tal modo que, por muito delicadas que fossem as posições jurídicas, era sempre possível fazer prevalecer a “tese mais fraca”.

Estrepsíades apressa-se, pois, a falar com o filho, para convencê-lo a entrar no frontistério (sítio onde se ensinavam os homens a discorrer, “o pensadouro dos espíritos sábios”).

Vale a pena acompanhar, durante alguns momentos, esse diálogo. Refere o pai: “– Eles têm lá, segundo se diz, as duas teses ou raciocínios: o mais forte, ou lá o que é, e o mais fraco. Ora, um destes dois raciocínios, precisamente o mais fraco, garantem que tem cá uma lábia, que é capaz de vencer as causas mais injustas. Portanto, se tu me aprenderes esse tal raciocínio injusto, todas as dívidas que contraí por tua causa… truca: não pagarei nada a ninguém, nem a ponta dum corno”.

O problema é que Fidípides não esteve para os ajustes e recusou o convite do pai, decisão que obrigou o desesperado Estrepsíades a inscrever-se ele próprio na escola de Sócrates, que, nesta comédia, emerge como a “personagem tipo” do “velho catedrático (leia-se, hoje, licenciado, doutor, engenheiro…), fardado a preceito, senhor da verdade” (prefácio de Custódio Magueijo na obra citada).

O velho agricultor vai então bater (e com que violência!) à porta da escola socrática, sendo imediatamente recebido por um discípulo do Mestre, que o elucida das façanhas de Sócrates:

Discípulo: “– Ora bem: perguntava-lhe certa vez Querefonte de Esfeto qual era a sua opinião [leia-se, a de Sócrates] sobre o seguinte: se os mosquitos zumbiam pela tromba ou pelo traseiro”.

Estrepsíades: “– Isch!! E que é que ele respondeu?” Discípulo: “– Afirmava Sócrates que o intestino dos mosquitos é estreito.

Então, por via da estreiteza, a corrente de ar passa forçada, direito ao traseiro. Depois, é claro, e também por via da estreiteza, gera-se o vazio, e vai daí o ânus, pum: ribomba derivado à violência do sopro”.

Estrepsíades: “– Quer então dizer que o traseiro dos mosquitos é uma trombeta… Oh! Bendito seja um tal in…testigador [jogo de palavras, associando investigador a intestino…]”.

O velho agricultor é então levado à presença do Mestre e a certa altura, quando interrogado (célebre método da maiêutica) não deixará de desabafar:

“Não sei… mas dá-me a impressão que estás a falar bem…”. E, logo a seguir, procurará que fiquem bem claros os seus objectivos: “O que pretendo é virar a justiça do avesso em meu proveito, conseguir safar-me dos meus credores. […] A partir de agora, façam de mim o que bem entenderem, este meu corpo lhes entrego: batam-lhe, façam-no passar fome, passar sede, deixem-no imundo, enregelado, esfolem-no e façam dele um odre, contanto que me safe das dívidas e que entre os homens ganhe fama de manhoso, bem falante, destemido, assomadiço, desavergonhado, coleccionador de endróminas, verborrento, rato de tribunais […]”.

O problema estava, no entanto, para chegar. Sócrates continua o interrogatório e descobre que Estrepsíades, sem dar à luz qualquer ideia digna de registo, é, na verdade, um “ignorante” e, por isso, expulsa-o da escola. Desiludido, mas não convencido, Estrepsíades regressa ao lar e persuade o filho, Fidípides, a ingressar no frontistério.

O que aconteceu depois é que não estava nos planos do pai: Fidípides absorve tão bem as “manhas da argumentação”, que, depois de numa primeira fase, aparentemente, libertar o progenitor das dívidas, passa em seguida a bater-lhe, sustentando “legitimamente” os seus actos: afinal, se “os velhos são meninos duas vezes”, também devem apanhar duas vezes.

E, como se já não bastasse, decide que o melhor será espancar também a mãe, argumentando que “o sofrimento gosta de companhia”… Compreendendo que a emenda tinha sido pior do que o soneto, Estrepsíades tenta levar o filho a abandonar a escola socrática e, como não consegue, pede ajuda ao escravo e juntos deitam fogo ao frontistério.

Cerca de 2400 anos depois de ter sido escrita, esta comédia, documento fulcral para compreender a querela entre os antigos e os modernos, por exemplo ao nível da educação (v.g. filosofia vs novas pedagogias), continua perfeitamente actual.

No momento em que o Ministério da Educação se prepara para decretar “democraticamente” outra reforma curricular inspirada em mais pedagogices pós-modernas fabricadas pelos novos sofistas do eduquês, talvez fosse interessante reflectirmos, por alguns instantes, na intemporalidade da mensagem contida nesta obra de Aristófanes.

A tendência para acabar com o espaço da sala de aula tradicional, fazendo, por exemplo, rodar os alunos por salas onde se encontram alguns orientadores (professores?!) versados na arte da descoberta do conhecimento; a propensão para continuar a transformar a escola num parque de diversões e para converter definitivamente o docente num animador sociocultural; o risível e intolerável desejo de juntar, no 3.º ciclo do Ensino Básico, numa só disciplina, dois domínios do conhecimento tão específicos como a História e a Geografia (?!).

Todas estas tendências ou modernices das (propaladas) novas pedagogias apenas contribuirão para a promoção de um ensino onde imperam as folclóricas e mitológicas “competências” e escasseia aquilo que deveria ser, em bom rigor, o cerne da escola: a educação cívica e a instrução de conteúdos específicos das diversas ciências.

Tantos anos depois, parece que já subimos tanto no poço e, no entanto, a vitória da aparência sobre a essência, do vazio da forma sobre a densidade do conteúdo continuam ainda a ser uma marca incontornável dos nossos tempos. Mais importante do que ser, é parecer. Ontem, como hoje, a filosofia continua a ser derrotada pelos sofismas, as ideias são relativizadas em função dos interesses de quem as instrumentaliza e os melhores são frequentemente ultrapassados pelos arrivistas que construíram esta sociedade do espectáculo em que vivemos.

Basta olhar para a educação, a justiça ou para o nosso próprio quotidiano para atestar estes factos. Do ponto de vista civilizacional, quase que apetece dizer que, ao longo destes milénios, o corpo do texto manteve-se quase intacto, apenas acrescentámos algumas notas de rodapé. Aristófanes, há cerca de 2400 anos e pelos motivos já invocados anteriormente, condensou essa vã superficialidade da retórica num nome: Sócrates.

Em relação ao filósofo Sócrates, existem muitos aspectos que, em meu entender, o afastam dos sofistas: bastará, para o efeito, recordar que, segundo Platão, o Mestre não recebia dinheiro pelas suas aulas. Já em relação ao seu homónimo, imagine-se o que não escreveria Aristófanes se cá voltasse…

Renato Nunes

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