Ter na alma um farol: Manuel Cid Teles

…dentro de mim, como o ar que me inunda para me purificar e, logo de seguida, abandonar.

Com quase um século de existência, continuo a conhecer cada um dos rituais da vossa aproximação e sempre que desejo apaziguar-me fecho os olhos e rezo, sussurrando repetidamente os nomes gravados nos vossos cascos: “Barracuda”, “Valha-me Deus”, “Pescador”, “Rei dos Mares”, “Atlântida”, “Hipocrene”, “Peregrino”, “Bravo”, “Praiense”, “Adamastor”… Hoje, já na maré baixa da vida, é a imaginar-vos que continuo a procurar-me e sempre que me sinto vazio e só acabo por regressar a este imperturbável cais.

À medida que fui envelhecendo, a minha vinda a este local mítico converteu-se numa espécie de cerimonial de iniciação, cujas etapas exigem ser cumpridas num absoluto rigor metódico. Por isso, sempre que regresso a este éden, trago comigo o corroído bloco de notas apertado contra o peito e, durante intermináveis horas, percorro num vaivém insaciável esse trilho de ninguém que marca o exacto local onde o mar e a terra se confundem.

Enquanto caminho, olho muitas vezes para os vestígios que a minha passagem vai deixando suspensos na areia. Duas, três ondas que chegam e quase tudo se desvanece… um pouco à imagem e semelhança da nossa existência.

Com o solitário bloco de notas apertado contra o peito, continuo ansiosamente a caminhar. Ao longo destes anos, nunca tive coragem para ser marinheiro e entrar em mar alto, para aprender a orar. Confidenciava-me muitas vezes o meu pai – e o meu pai era a pessoa mais culta que alguma vez conheci – que “quem não pode voar ou velejar, limita-se a caminhar”. Há muitos anos que caminhar à beira deste cais se tornou a minha única forma de me procurar…

Enquanto caminho e me deixo levar pelo teu chamamento, ó mar, afasto-me da terra e aproximo-me da possível eternidade humana. Quando menos espero, a solidão, a ansiedade, a apatia e a depressão vão desaparecendo para dar lugar a um sorriso misterioso que anuncia uma outra travessia.

Ritualmente, sempre que pressinto estar mais próximo do momento ansiado, aumento o ritmo da marcha. Ecoa, então, dentro de mim, o som dos meus pés a invadir as conturbadas águas; um estrondo que apenas rivaliza com a melodia estonteante dos “Queimados”. E lá ao longe, bem lá no alto, apenas os fachos imaginados ainda me anunciam a asfixiante presença da prisão…

Quando dou por mim, o silêncio da escuridão já me engoliu completamente. Desesperado, fecho os olhos, que já não me servem de muito, e apuro o mais que consigo os outros sentidos. O gemido do silêncio atravessa-me de uma forma tão avassaladora que quase me sinto cair – à noite todas as cicatrizes se tornam ainda mais vulneráveis, sobretudo as que trazemos escondidas na alma. Começou a chover.

Estou parado no meu cais, na ilha que me viu nascer. Há quase cem anos que calquei este chão pela primeira vez, há quase um século que contemplo este azul vivo do mar. Tantas léguas dobradas e, ainda hoje, sempre que o meu olhar atravessa o infinito, não posso deixar de sentir que estas águas representam a essência de toda a existência: no início toda a vida se concentrava aqui e talvez no fim tudo volte a escorrer para aqui, para se purificar e reintegrar… Talvez…

É noite e eu continuo parado no meu cais, mas a verdade é que esta já não é a minha maré. Há já muitos anos que me arrasto penosamente para aqui à procura do momento da vossa chegada e nunca mais vos encontrei; todos vós me abandonastes! O meu cais está praticamente vazio. Apenas o que resta do esqueleto do incompreendido “Adamastor” ainda me reacende na memória as recordações dessoutros tempos passados.

O cais está desabitado, tal como a minha alma. Com a vossa partida, definitiva, foi o próprio espírito desta ilha que ficou para sempre encarcerado, pois não há açoriano que não tenha nas suas entranhas a presença de um barco a anunciar-lhe, bem lá do fundo do horizonte, a existência de uma outra ponte; é que há embarcações que se constroem, dolorosamente, por dentro só para tentar preencher a nossa insular solidão…

P.S. Este texto foi alinhavado no dia 25 de Abril de 2009, na ilha Terceira, Açores, pouco depois de tomar conhecimento da partida de Manuel Cid Teles. Hoje, quando penso neste “poeta, músico e pintor”, continua a vir-me à memória a imagem de um barco que, ao sulcar as agitadas e cada vez mais putrefactas águas da existência nacional, nos ajuda a fazer ligações interiores. Num tempo em que impera a escuridão, em todos os níveis, fazem-nos falta verdadeiros faróis, que funcionem como pontos de referência.

Manuel Cid Teles: Sempre acreditei que as grandes homenagens são aquelas que fazemos dentro de nós, sem necessidade de ouvir sequer a nossa voz. Por isso, perdoe-me estas palavras, por certo escusadas, inevitavelmente escassas para lhe dizer tudo o que a sua partida representou. Mas precisava de dizer-lhe que, mesmo passando a maior parte do ano a centenas de quilómetros das raízes nativas, continuo a guiar-me pelo silêncio das suas palavras, agora que deixei de poder orientar-me pela força da sua voz.

Nas horas de maior tempestade, continuo a repetir, em surdina, os seus versos, como se de uma oração se tratasse: “Das saudades a saudade / A mais cruel e atroz / É a saudade que a gente / Um dia sente de nós!…”. São estas e outras palavras que me ajudam a recordar o Homem que tardiamente conheci, quando já estava na Fundação Aurélio Amaro Diniz e que, contrariando todos os inegáveis sinais de fragilidade física, me declamava, com uma força que parecia brotar do interior da Terra, os mais belos poemas de Florbela Espanca. Assim, sentidos e vividos espontaneamente, sem necessitar de qualquer livro à frente… que a poesia, como dizia, não era para ser lida, tinha de ser sentida, tinha de nos acompanhar para todos os lugares da nossa casa, até fazer parte de nós, tal como se fosse uma veia.

Cid Teles permanecerá. É que, invocando a frase colocada em tom de epígrafe no livro póstumo de sua irmã, Inácia Cid Teles: “O melhor túmulo dos mortos é o coração dos vivos!”.

Renato Nunes

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