UA descobre perturbação de rede neural que pode potenciar insónias

Vira para um lado. Vira para o outro. Por mais voltas que se dê na cama, o cérebro parece não querer parar. São assim as noites de quem sofre de insónias, uma perturbação do sono que afecta cerca de dez por cento da população mundial. Mas que zonas do cérebro estão activas durante a noite em quem sofre de insónias? O trabalho de doutoramento de Daniel Marques da Universidade de Aveiro (UA) sugere que perturbação pode estar na Default-Mode Network, uma das principais redes neuronais do cérebro humano e a responsável pela recuperação de memórias autobiográficas e pela projecção no futuro. A descoberta pode potenciar o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas assim como ajudar no aperfeiçoamento dos modelos explicativos da insónia.

Durante a investigação de doutoramento em psicologia de Daniel Ruivo Marques, bolseiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, investigador do Sleep & ChronoLab (UA) e do IBILI (Universidade de Coimbra), doentes e ‘bons dormidores’ foram submetidos a exames de ressonância magnética funcional, uma técnica que permite observar actividade do cérebro. Já dentro da máquina realizaram várias tarefas, entre a visualização de palavras que remetiam quer para preocupações referentes ao seu passado/presente e futuro quer palavras neutras (sem qualquer valência afectiva).

O estudo, inserido numa linha de investigação que tem motivado, entre outros, o interesse de autores norte-americanos internacionalmente reconhecidos na área da medicina do sono, como por exemplo, da Universidade de Missouri, contou com a orientação científica de Ana Allen Gomes (UA), de Miguel Castelo-Branco e Gina Caetano, da Universidade de Coimbra (UC), e supervisão clínica de José Moutinho dos Santos e Vanda Clemente do Centro de Medicina do Sono do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC).

De uma forma geral, aponta Daniel Marques, “verificou-se que os doentes com insónia apresentaram mais ativação cerebral comparativamente aos bons ‘dormidores’”. Um dos dados “mais interessantes” observados pela equipa foi que “nos doentes com insónia uma das principais redes cerebrais, a Default-mode Network, permanece activa mesmo quando deveria estar mais silenciosa”. Um dado “interessante”, justifica o investigador em Psicologia do Sono, “dado que essa é a rede neuronal que por norma é activada quando os indivíduos recuperam memórias do seu passado, se projectam no futuro [memória projectiva] e se colocam no lugar dos outros [teoria da mente]”. Por outras palavras, é a rede que está mais associada ao processamento autor-referencial e à memória autobiográfica, no qual o próprio indivíduo é sempre o actor principal.

Para além disso, os padrões neuronais disfuncionais observados nos doentes com insónia “foram objectivamente melhorados, segundo os dados da ressonância magnética funcional, após terapia cognitivo-comportamental, uma forma de intervenção não-farmacológica que constitui a estratégia clínica de primeira linha no combate à insónia crónica”. No entanto, aponta Daniel Marques, “estes estudos constituem apenas dados preliminares dadas algumas das limitações inerentes como a reduzida dimensão amostral”.

Este trabalho, apontam os investigadores, “vem reforçar a ideia de que existe uma relação estreita entre a actividade cognitiva disfuncional destes doentes e a activação neuronal que se pode avaliar com recurso, por exemplo, a técnicas de neuroimagem”. Por isso, a aposta no estudo da neurobiologia da insónia, do qual esta investigação é um exemplo, “pode ajudar também, por exemplo, no aperfeiçoamento e desenvolvimento de novas terapêuticas farmacológicas”.

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