Um futuro para Lourosa. Autora: Maria José Borges

Terminaram há cerca de dois meses as sondagens arqueológicas que, por imperativos legais, deveriam ocorrer antes das projectadas obras de requalificação no centro histórico de Lourosa e na envolvente da sua igreja.

Por motivos pessoais que me levaram a deslocar a Lourosa no mês de Novembro pude acompanhar de bastante perto essas sondagens e sua evolução ao longo dos dias estabelecidos para esse efeito. Como vizinha da igreja, lá estava eu todos os dias, e em vários momentos do dia, a olhar a lenta, mas profícua evolução das escavações, conversando com os arqueólogos da empresa responsável pelos trabalhos arqueológicos, empresa Arqueohoje [1]. Como historiadora foi fascinante poder participar daquele desenterrar de História, embora lamente que tão cedo tenham terminado aquelas prospeções, quando tanto haveria, segundo tudo indicava, para conhecer…

Com efeito, vários constrangimentos poderão impedir uma maior riqueza dos resultados que, eventualmente, venham a ser apurados. Por um lado, foram apenas realizadas três sondagens, o que me parece manifestamente insuficiente face ao vasto espaço que rodeia a igreja; além do mais, para melhor se compreender e precisar os seus contextos, deveriam ter-se realizado, idealmente, mais umas tantas sondagens um pouco por toda a área da igreja para aumentar a probabilidade de se encontrarem substratos preservados, visto que as zonas prospectadas já foram locais de muito revolvimento de solos. Como é sabido, num passado relativamente recente, em 1930, não apenas se assistiu à deslocação do campanário da dianteira para as traseiras da igreja, como foram feitas as últimas importantes obras de requalificação deste monumento.

Obras em 1930 na envolvente da igreja na fachada lateral, actual R. de Baixo (Foto de Marques Abreu, in Boletim nº 55 da DGEMN, 1949)

Obras em 1930 na envolvente da igreja na fachada lateral, actual R. de Baixo (Foto de Marques Abreu, in Boletim nº 55 da DGEMN, 1949)

Obras em 1930 na envolvente da igreja, fachada principal, nártex (Foto de Marques Abreu, in Boletim nº 55 da DGEMN, 1949)

Obras em 1930 na envolvente da igreja, fachada principal, nártex (Foto de Marques Abreu, in Boletim nº 55 da DGEMN, 1949)

Nessa altura estes locais foram, inevitavelmente, muito remexidos, eliminando-se, à partida, as probabilidades de se encontrarem, ao nível da profundidade em que pararam as escavações, substratos preservados. Uma hipótese de continuidade destas escavações em redor da igreja, em paralelo com o decorrer das obras pela aldeia, teria sido excelente, e não iria colidir sequer com o timming dessas obras, pois seriam duas zonas independentes de intervenção…

Aguardando-se, embora, pelos relatórios finais destas intervenções, creio que ficou no contexto geral, a ideia de que, com tantos séculos de História desta nossa igreja (não esqueçamos, 1104 anos…) e da nossa própria aldeia (que remonta pelo menos ao tempo dos romanos, e possivelmente até a épocas anteriores), infelizmente, apenas se identificaram estratos arqueológicos de ocupações cronológicas contemporâneas e modernas. …

Lamenta-se, por isso, a prevista pavimentação deste espaço com pesadas lajes que, nivelando e arrasando o restante afloramento rochoso, saneará, para todo o sempre, os estudos de gerações vindouras. Com efeito, têm-se aí identificado ao longo dos tempos sepulturas antropomórficas, manifestamente incompletas e inseridas num conjunto mais alargado – necrópole – e, inclusive, poder-se-ão encontrar vestígios civilizacionais ainda mais remotos. Não seria possível, em vez dessas espessas e dispendiosas lajes regularizar apenas, superficialmente, o terreno do adro à volta da igreja com algum tipo de material mais facilmente removível? (de tipo macadame, ou outro). Tal tomada de posição, permitiria reduzir/canalizar parte do financiamento global da obra para a criação de infraestruturas de teor cultural, comercial e turístico tão necessárias à povoação.

Aspecto de uma das prospecções de Novembro de 2016, observando-se parte de uma sepultura antropomórfica (à esquerda)

Em 2010, num artigo de minha autoria para outro jornal local, já eu abordara essa questão, alertando para a ausência dessas estruturas de apoio, até mesmo comercial, o que, em vésperas de celebração de um Jubileu (dos 1100 anos da igreja) era bastante inconveniente[2].

Em 7 anos, para além das celebrações do referido Jubileu (em que tive a honra e privilégio de participar) e das actividades daí decorrentes (entre elas, as quatro edições da Feira Moçárabe, que foi pioneira no país), nada de novo surgiu, infelizmente, em termos dessas referidas infraestruturas de apoio cultural, turístico e comercial em Lourosa. O único café que existe (no Campo de S. Pedro) é muito distante, não servindo os referidos propósitos.

Agora, com as escavações, terão surgido materiais arqueológicos, e na prossecução das obras, outros certamente surgirão. E que bem mereceria este acervo um espaço condigno de musealização… Esse espaço museológico poderia, até, ser situado na Casa Paroquial, muito subaproveitada, onde caberia no piso térreo um pequeno posto de turismo e café, e no piso superior um pequeno Museu…. Nela já existe um considerável acervo de objectos e alfaias litúrgicas de relativa antiguidade, e mosaicos do século XVI que há alguns anos começámos, eu e meu marido, Rui Valentim, a fotografar e a inventariar. Com uma adequada gestão de espaços, o museu ajustar-se-ia perfeitamente ao espaço que proponho. E já agora, uma chamada de atenção para as pedras soltas remanescentes da requalificação dos anos “30”, espalhadas pelo adro, que deveriam, também, no contexto da requalificação, ser criteriosamente catalogadas e arrumadas com alguma disposição museológica que, infelizmente, nunca se chegou a fazer.

Referindo-me agora, concretamente, à futura requalificação preocupam-me, ainda, dois tipos de remoção que estão previstas, e de que já dei conta em carta oficial aos representantes da autarquia que prometeram analisar essas situações. A primeira trata-se da remoção do muro de pedra que dá para a Rua de Baixo, que no projecto aparece substituído por um corrimão em ferro. Com efeito, não apenas esse muro em pedra se reveste de uma estética mais consentânea com uma envolvente rural e campestre, com o seu quê de bucólico, como é rematado no seu topo por um “cipo” romano, identificado e classificado já por especialistas. Além do mais, a sua substituição pelo corrimão em ferro não parece tão adequada em termos de segurança, por exemplo, para crianças que poderão passar entre os espaços por baixo do corrimão e cair, inclusive, na Rua de Baixo. Bastaria, no caso, arranjá-lo dando mais estabilidade às pedras que o compõem, o que também seria, creio, mais económico…

A outra remoção a que me refiro é a das árvores do referido adro. É necessária, de facto, a remoção das árvores que se encontram junto à necrópole visigótica, cujas raízes estão a destruir as sepulturas, assim como do plátano que se encontra nas traseiras da igreja, problemático em termos alérgicos quando da sua floração. Em relação às que invadem a necrópole, deve-se chamar a atenção para o facto de que deverá ser assegurado por especialistas o preenchimento das raízes moribundas, que, explorando a clivagem da rocha, poderão provocar a derrocada das mesmas ao serem retiradas. Mas as restantes árvores, já adultas e com sombras frondosas e convidativas, sendo 3 delas de espécie rara na região (Catalpa bignonioides), e uma amoreira secular junto ao muro, não se justifica serem removidas e substituídas por novas árvores que ainda terão de crescer… Ao invés, seria bastante enriquecedor (e pedagógico) passarem a estar identificadas com os seus respectivos nomes científicos, para desfrute dos amantes de botânica que nos visitam.

Vista interna  do referido muro com as frondosas árvores e arbustos

Vista externa do mesmo muro adornado com os arbustos.

O términus do muro que promove o protagonismo da igreja deixando-a a descoberto [3].

Parte interna do mesmo muro, rematado no topo superior com o referido cipo

A nova configuração proposta para o mesmo espaço (cf. Informação Municipal on line, Julho, 2016)

Lourosa é já, nos dias de hoje, um relevante destino de turismo cultural, sendo visitada regularmente ao longo do ano por turistas nacionais e estrangeiros[4]. Possui um excelente potencial de interesse histórico, sobretudo Alto-medieval, mas também de outras épocas, tendo ainda muito para oferecer, para além da sua igreja. Acresce, ainda, que está a decorrer, desde Dezembro passado até 7 de março próximo, um concurso apoiado pela Secretaria de Estado do Turismo e pelo Turismo de Portugal que pretende escolher as 7 Maravilhas das Aldeias de Portugal. Um dos títulos a concurso é, precisamente, o de Aldeias com História, em que Lourosa teria muitas condições para se candidatar, e com hipóteses até de sair vencedora…[5].

Para além deste turismo cultural de grande interesse e diversidade, Lourosa tem riquezas paisagísticas e naturais que também devem ser respeitadas e valorizadas. Em vários dos seus recantos e no seu Largo principal, onde se situa a igreja, possui uma singela envolvente rústica e campestre que atrai os veraneantes (com raízes na localidade e muitos outros), e outros, nacionais e estrangeiros que aqui se vão radicando, que procuram ambientes diversos daqueles em que passam habitualmente o ano. Esse cenário foi mesmo amplamente elogiado pelo reverendo Bispo de Coimbra D. Virgílio Antunes, nas Comemorações do Jubileu celebrado em 2012. Se essa configuração for semelhante aos ambientes urbanos convencionais, a aldeia de Lourosa, pese embora a sua importante igreja, eliminando essa rusticidade, perderá essa mais-valia e será mais uma entre muitas…

Sabendo do interesse manifestado pela Câmara Municipal em desenvolver o turismo cultural no Concelho, na linha do que vem sido promovido, aliás, pelo Turismo Centro Portugal[6], acredito que investir em Lourosa, respeitar a sua identidade cultural, patrimonial, natural e outras, juntando numa parceria comunidades científicas de vários ramos do Saber (História, Arqueologia, Antropologia, Geologia, Botânica, etc.), com o próprio Município seria, tenho a certeza, uma aposta ganha para um futuro melhor.

Notas: [1]  Os interessados poderão visitar a página no Facebook da Arqueohoje e ver as fotos relativas a essas sondagens; [2] Em defesa do património arquitectónico histórico de Lourosa (e outras coisas mais (Jornal de Oliveira, 09/09/2010, nº 281); [3] Como foi, aliás, a intenção dos responsáveis pela requalificação de 1930 de acordo com documentos consultados; [4] Mesmo agora, em pleno inverno, pude assistir quase todos os dias a visitas de forasteiros, alguns em visita repetida à igreja, e outros alertados pela placa identificativa de Monumento Nacional à entrada da aldeia, que se avista da EN17; [5] Num futuro artigo a autora destas linhas gostaria de abordar outros espaços históricos em Lourosa a merecerem também atenção e eventual classificação (medievais, renascentistas, setecentistas, oitocentistas, etc….).

Maria José BorgesAutora: Maria José Borges. (Consciente e deliberadamente a autora não adere ao Novo Acordo Ortográfico)

 

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  • Moçarabe

    Esta dótôra é uma pseudo-intelectual que já percebemos só vem à aldeia para dar nas vistas e parecer ser alguém.
    Já fez alguma coisa pela terra?

    • António Lopes

      Pelo menos tem uma virtude.Dá a cara.Já os que a criticam, muito ao gosto de certa gente,criticam, mas, só sob anonimato.É de bom tom quando se critica pessoalmente, dar a oportunidade do contraditório e saber-se a quem.Mas isso, é muito complicado…

  • Abel Bernardo Oliveira

    Felizmente ( ou infelizmente) há toda uma geração que por motivos óbvios se teve de deslocar da aldeias para as cidades procurando o seu “modus vivendo”. São estes que hoje se mais interessam pelas aldeias que os viram nascer. Teima em não perder a sua identidade e assumem compromissos, mesmo estando distantes. O não fazer mais e melhor é condicionado pela azáfama citadina a que cada um está sujeito. Por parte dos residentes merece-se todo o reconhecimento por quem difunde o nosso património e emprega os hiatos do seu tempo livre na valorização das nossas terras. Com toda a certeza que a Dr.ª Maria José faz o seu melhor no tempo que lhe sobeja. No entanto, presumo haver uma falta de motivação de muitos residentes, talvez por desconhecimento da importância das “coisas” mas também por falta de uma maior aproximação do “calor humano”. Nesta “contenda” tudo e todos são importantes para um desenlace mais próspero da nossa freguesia e de todas as suas capelas. Parabéns à Dr. Maria José.