Uma família à luz de vela…

Sem empregos, nem pensões, Gracinda e José Sousa mantêm os hábitos de há 36 anos atrás, mas por falta de condições económicas não têm intenções de mudar de vida, nem sequer de solicitar a ligação da electricidade.

Há até quem nunca tenha dado pela sua presença, mas o casal Sousa e o filho de 29 anos habitam uma casa, sem o mínimo de condições, na Quinta do Chão Costa, na Catraia de S. Paio. “Não conheço para aí ninguém”, referiu um morador das redondezas, contando que seguindo aquele caminho, o Correio da Beira Serra apenas iria encontrar a moradia de um advogado oliveirense.

De facto, ao fundo do caminho em terra batida vislumbrava-se a casa do jurista, mas muito antes, o CBS deparou-se com a habitação do casal que procurava. O alerta foi dado por conhecidos de José e Gracinda Sousa que não se conformam com a forma como continua a viver o casal e o filho de 29 anos. “Aquilo é uma miséria. Já ninguém vive assim”, alertou um conhecido, começando por contar que a casa onde habitam não tem água, nem luz, nem casa de banho.

A curta descrição foi comprovada pelo CBS numa visita à habitação que o casal arrendou há já 36 anos, por ocasião do casamento e onde criou os seis filhos. Volvidas mais de três décadas, a casa continua sem luz – por ali nem sequer se avistam os postes de iluminação pública – água canalizada, casa-de-banho e até sem vidros nas janelas. À semelhança do que acontecia há longas décadas atrás, a solução continua a passar pela iluminação através da candeia, pelo recurso à água da mina e por usar o balde e a bacia para as necessidades fisiológicas e banhos. Alguns alimentos continuam a ser conservados através do sal e as janelas são tapadas com taipas de madeira, cujas frestas são convidativas à entrada do frio e do vento que também já têm porta garantida pela estrutura que suporta o telhado à vista em qualquer uma das divisões da casa.

“A gente vê que no povo as pessoas vivem melhor”

Enganem-se, contudo, os que pensam que José e Gracinda se lamentam da vida. Garantem que não pedem nada a ninguém e que não faz parte dos seus planos largarem a casa onde vivem, nem tão pouco mudar de vida. “Estou aqui muito bem”, contou ao CBS Gracinda Sousa que, em nenhum momento, deu sinais de tristeza ou desespero. Conformada e habituada à vida que lhe é permitido gozar, a mulher de 55 anos natural de Gramaços recorda que os “últimos dias em que trabalhou fora” foi antes do nascimento dos seis filhos. “Tive os filhos e nunca mais trabalhei”, referiu, contando que devido a problemas de coluna apenas vai cultivando o necessário para casa e criando umas galinhas. “Para nós vai dando e quando não chega vou comprar à Alexandrina”, acrescentou, contando que o dinheiro que entra em casa é o marido que o ganha quando faz uns dias fora na agricultura. Por mês, Gracinda tem garantidos 20 Euros que José Sousa e o filho – trabalha na construção civil – lhe dão para preparar as roupas, mas “mal dão para o sabão”. Os condutos à mesa vão aparecendo, mas o mais habitual são os ovos, o peixe frito e carne salgada. O leite não entra na casa de Gracinda porque não tem como o conservar depois de aberto, mas a sopa é que tem sempre presença garantida na hora da refeição. As árvores do quintal asseguram a fruta e a roupa do corpo vai-se comprando e, por vezes, é oferecida por gente conhecida.

Apesar de isolada da população, Gracinda Sousa tem noção de como os tempos evoluíram. “A gente vê que no povo eles vivem melhor, mas a renda de um apartamento é muito cara”, disse, assegurando que vão convivendo com algumas pessoas porque pelas traseiras da casa está “a 10 minutos dos caldeireiros”. Recorre a uma vizinha para carregar a bateria do telemóvel, mas garante que não lhe fica a dever, porque leva sempre algo que produz na terra. Quando vai às compras e alguma pessoa amiga lhe oferece um café aceita, mas recusa de imediato se lhe oferecerem comida. “Não aceito comer do lume a ninguém, porque até era uma vergonha para mim”, frisou. Já o marido – sem emprego fixo desde que se demitiu da então designada Agloma há mais de 20 anos – não deixa de ir ao café diariamente para conviver com amigos, ler o jornal e ver televisão. Para além disso, como contou, é onde tem a possibilidade de usar uma casa-de-banho.

Falta dinheiro para uma vida melhor

Questionado pelo CBS sobre o motivo pelo qual nunca tentou mudar o rumo da vida que iniciou há 36 anos, o casal Sousa refugia-se na tese de que a casa é de renda e que o valor a pagar subiria demasiado se solicitassem melhorias aos senhorios. “Não tínhamos possibilidades de pagar”, confessou Gracinda, lembrando que só tinha dinheiro certo na altura em que criou os filhos e porque era apoiada pela Segurança Social. Depois dos filhos criados, o casal ficou desprovido economicamente e também nunca sequer pensou em comprar a própria casa, nem tão pouco lutar por melhores condições de vida. José Sousa contou ao CBS que nunca contactou a Junta de Freguesia, nem a Câmara Municipal para que pudesse vir a ter acesso à electricidade. E justificou a atitude com os custos que daí poderiam advir. Foi com o mesmo argumento que explicou também o motivo pelo qual não usa o gerador que possui. É que “um litro de gasolina é muito caro e só dá para uma hora”.

Afastado da vida em sociedade, o casal Sousa não esconde o afecto pelos animais e confessa que são uma óptima companhia. Em casa, as notícias do exterior chegam através do rádio a pilhas e pela voz de José Sousa que depois de ler o jornal no café, conta a Gracinda as novidades do momento. Sobre a possibilidade de mudança de casa, o casal revelou-se satisfeito com a vida que leva, mas também não descartou a possibilidade de mudança para outra habitação, desde que continue a pagar os 10 Euros por mês, situação que considera impossível.

Liliana Lopes

LEIA TAMBÉM

IMT vai recorrer de decisão que declarou ilegal fecho de centro de inspecção automóvel de Seia

O Instituto de Mobilidade e Transportes (IMT) anunciou que vai recorrer das decisões judiciais que …

Dez detidos em Seia por tráfico de droga

A GNR de Gouveia deteve, entre os dias 1 e 3 de Setembro, oito homens …