Notas dispersas a propósito do livro “Breve História do futuro” Jacques Attali, Dom Quixote, 2007, 289 págs Cassandra era uma formosa profetisa da mitologia grega, filha dos reis de Tróia.

 

Uma viagem do caos à redenção

Mas, porque se negou retribuir o amor de Apolo, caiu em desgraça e foi condenada por este deus ao descrédito das suas profecias. Por isso, quando augurou a conquista e o fim dramático de Tróia através da astuciosa estratégia do cavalo de madeira, foi escarnecida pelos seus incrédulos conterrâneos. Após a tomada e saque da cidade pelos gregos, foi estuprada pelo herói heleno Ajax. Tornou-se cativa de Agamemnon. E acabou assassinada por Clitmnestra, mulher deste rei micénico.

Esta história trágica, somente aqui aflorada, encerra múltiplos adágios. Enunciamos apenas aquele que para o caso nos interessa: melhor será não possuir um dos poderes mais omnipotentes e fascinantes dos deuses – a previsão do futuro.

E, no entanto, ao longo da História, este tem sido uma das supremas ambições dos homens. Oráculos, feiticeiros, sacerdotes, quiromantes, cartomantes, astrólogos, romancistas, filósofos e cientistas têm construído múltiplas representações do porvir da humanidade – das pitonisas de Delfos ao lendário Merlin e a Nostradamus; de Cristo, Campanella e Thomas Moore a Júlio Verne e H. G. Wells; de Santo Agostinho, Condorcet e Hegel a Augusto Comte e K. Marx; de Aldous Huxley a George Orwell; de Alvin Toffler a Francis Fukuyama. Porque se aventuram eles por tão celestiais tribulações? Os charlatães fazem-no para obter uma vida pública e privada menos frugal e mais eloquente. Os milenaristas perderam a fé no seu mundo. Os utópicos sonham com o paraíso terreno. Os humanistas denunciam as quimeras totalitárias que aspiram construir um “homem novo”. Os filósofos ambicionam descodificar racionalmente o sentido do devir histórico para teorizarem a sua transformação. Os ideólogos pragmáticos (quais sofistas) justificam o seu estranho modelo de mundo perfeito. E os cientistas, talvez como os filósofos, recorrem ao rigor cru da ciência e a uma imaginação racional para projectarem no futuro as tendências políticas, culturais, económicas e sociais do passado e do presente da vida dos homens. Foi, justamente, este último exercício que o economista francês (e conselheiro de Estado do antigo presidente socialista François Mitterrand) Jacques Attali fez no seu livro Breve História do Futuro, publicado entre nós pela editora Dom Quixote, em 2007.

Para este consagrado intelectual europeu, a História obedece a leis que permitem prevê-la e conduzi-la. Portanto, segue um “caminho único, obstinado e muito particular”. A partir deste axioma ele augura o cosmos (ou o caos?!) do amanhã. Nos próximos 60 anos assistiremos ao declínio do império americano e depois veremos surgir, uma após outra, as três vagas do futuro: “hiperimpério”, um mundo sem senhor, um mercado desumanizado, sem democracia e sem serviços públicos, onde os Estados e as nações tenderão a ser substituídos por empresas e cidades que lideram num império aberto, sem solo e sem centro; “hiperconflito”, que será o culminar de uma miríade de guerras mortíferas protagonizadas por Estados, gangs e movimentos terroristas; por volta de 2060, perante o fracasso do “hiperimpério”, que impôs a violência do dinheiro, e do “hiperconflito”, que impôs a violência das armas, se a humanidade entretanto não se extinguir, novas forças altruístas e universalistas assumirão o poder à escala mundial, movidas por uma necessidade ecológica, ética, económica, cultural e política, e irão instituir a “hiperdemocracia”, que corresponderá a um novo equilíbrio planetário.

Terá a humanidade que descer ao Inferno para depois ambicionar alcançar o Céu? Serão os homens capazes de mudar radicalmente de atitude para conter a primeira vaga do futuro e destruir a segunda? Eis a magna questão. A resposta de Attali é óbvia: o seu ensaio é um grito de alerta, um acto de intervenção cívica para que o futuro não seja aquele que ele receia. Dito de outra forma, após augurar que a humanidade terá já entrado numa fase de sombra premonitória de um estado de “hiperviolência”, o autor acredita que os homens terão ainda a oportunidade para se redimirem do que aparenta ser o seu inevitável destino.

Valia talvez a pena resgatar o seu conselho e não cair no erro dos troianos quando, endrominados por Apolo, enjeitaram (e glosaram) a “verdade inconveniente” desvendada por Cassandra.

Enfim, Breve História do Futuro revela-se um livro perturbador e didáctico para quem deseje decifrar melhor o passado, o presente e o futuro do mundo global em que vivemos. Um mundo que, ao contrário do que sustentou o jornalista Thomas Friedman no seu best-seller laudatório da “Globalização” (O Mundo é plano, 2005), permanece demasiado perverso e hierarquizado – ou seja, tarda em tornar-se menos cínico e (de facto) mais livre, igualitário e fraterno.

Luís Filipe Torgal
Professor de História

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