Vereador ‘parte a loiça’ em processo que envolve filha e sobrinha

O prémio, no valor pecuniário de 500 euros, visa premiar anualmente os alunos que se distinguem na escola, e foi entregue, na cerimónia do dia 7 de outubro, a Carolina Mendes – filha do diretor do departamento de administração geral e finanças da câmara municipal, João Mendes. Mas, agora, o vereador independente, José Carlos Mendes, argumenta que a melhor aluna do 12º ano foi a sua filha, Ana Rita Mendes.

A situação, que tem estado a muito mau estar no seio do executivo camarário, é delicada em virtude de ter a particularidade de as alunas em causa serem filhas dos dois irmãos.

O assunto foi anteontem levado a reunião de câmara por José Carlos Mendes, que disse não compreender a razão daquela decisão, uma vez que – conforme explicou – “a documentação enviada aos vereadores e que serviu de base ao 1º ponto da ordem de trabalhos”, de uma reunião extraordinária do executivo no dia 4 de outubro, tinha uma listagem onde a filha, Rita Mendes, aparecia “como a melhor aluna do 12º ano com a média de 19 valores”.

“O que é que aconteceu nos bastidores e na referida reunião para que tenham mudado de opinião?”, perguntou aquele vereador, dando conta de que não participou na reunião, onde o nome da sobrinha foi substituído por o da filha, em consequência de estar em discussão um assunto a que tem ligação familiar. Porém, Mendes afirmou ontem a este diário digital que, segundo a interpretação que obteve junto de um advogado especialista em direito administrativo, não estava obrigado a sair da reunião, mas sim impedido de votar aquele polémico ponto.

Com uma intervenção muito polémica, Mendes confessou-se “revoltado”, alegando que “a revolta é ainda maior porque, além de envolver a filha, envolve também a sobrinha e afilhada” que, frisou, “não mereciam passar por esta situação”.

Argumentando que “o cálculo da média dos alunos do ensino secundário não deve ser outro que não aquele que foi utilizado durante os 6 anos de vigência do regulamento,  Mendes, que se disponibilizou para fazer as contas das médias das alunas com este diário digital, disse estar certo de que a sua filha, que este ano ingressou em medicina na Universidade de Coimbra, é a aluna com a melhor média do 12º ano, incluindo a nota da pauta e os resultados dos exames.

Esse não foi no entanto o entendimento do executivo camarário que – contrariamente ao que estava previsto na reunião extraordinária que antecedeu a cerimónia do dia 7 de outubro – acabou por atribuir a distinção à filha de João Mendes, que este ano entrou em Direito na Universidade de Coimbra. Em síntese: a câmara municipal, baseando-se em informações prestadas pela Escola Secundária de Oliveira do Hospital, entendeu que Carolina Mendes – face aos resultados obtidos em pauta e nos exames do 12º ano – era, de facto, a melhor aluna.

Esse não é no entanto o entendimento do antigo presidente da concelhia do PSD, que diz que apesar de ter havido uma alteração aos critérios dos anos anteriores – o resultado em pauta é que fazia fé –, o que é claro é que a sobrinha “é, de facto, a melhor aluna do secundário”, mas a filha tem “a melhor média do 12º ano”.

 

Vereador insinua que Mário Alves está por detrás de “cabala política”

Visivelmente irritado, Mendes julga que quem esteve por detrás desta “cabala política” foi o vereador do PSD, Mário Alves, e até poupa o presidente da câmara, por considerar que terá sido vítima de alguma “ingenuidade”.

“Como foi possível o senhor (Mário Alves) que sempre fez da legalidade uma bandeira sua, defender acerrimamente na reunião de 4 de outubro que a média dos alunos do 12º ano para a atribuição do prémio deveria ser calculada com as disciplinas do ano e os exames nacionais, quando ao longo de seis anos aplicou e deu cobertura a uma situação diferente – a média das disciplinas do 12º ano sem exames nacionais?”, pergunta o vereador dos independentes, pedindo que não o faça “concluir que é por a Ana Rita ser filha do vereador José Carlos Mendes”.

 

“Há coisas que não têm resposta…”

“Há coisas que não têm resposta… há coisas em que nós devemos deixar algumas pessoas a falar sozinho”, retorquiu entretanto Mário Alves, que questionou a “legalidade” de o seu colega de vereação estar a abordar, em reunião de câmara, um assunto em que é parte interessada.

“Não admito ao senhor vereador essas insinuações nem admito que ele ponha na boca dos outros o que faz e andou a fazer durante estes anos todos”, afirmou ainda o antigo presidente da câmara já com os ânimos exaltados.

 

“Quem me conhece sabe que eu não entro em cabalas políticas…

” Para o presidente da câmara, a situação é lamentável porque mexe com duas excelentes alunas”, mas – frisou – “a questão é da Escola” Secundária de Oliveira do Hospital, cujo diretor, Albano Dinis, depois de instado por este diário digital a esclarecer o processo, optou por não querer prestar declarações.

“Da parte deste executivo e da senhora vereadora que lidou com a situação não houve nenhuma cabala política… quem me conhece sabe que eu não entro em cabalas políticas”, afiançou José Carlos Alexandrino.

A vereadora da Educação, Graça Silva, acabou no entanto por fazer “mea culpa” relativamente a este processo, mas também garantiu não ter havido “qualquer intenção” de prejudicar a aluna ou sequer “criar qualquer cabala política”. Certo é que José Carlos Mendes promete não se calar e já avisou que tomará “as medidas necessárias para repor a verdade”.

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