Ultimamente cruzamo-nos quase todos os sábados, e na cidade do conhecimento falamos por breves instantes.

Vidas

Quando apressadamente chego à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), lá está o Rui a apanhar os primeiros raios de sol da manhã, porque a sua pontualidade é mais afinada que a do relógio da Torre da Universidade.

Sempre que o encontro, com o seu tímido e humilde sorriso nos olhos, sou forçado a pensar no mundo e nas suas estúpidas contradições. É, aliás, por estas e por outras que, muito cedo, decidi que Deus sou eu e quem mais o queira ser, porque Deus só há um: nós próprios.

Nos dias úteis – ou inúteis – , é mais frequente encontrarmo-nos no parque do Mandanelho, em Oliveira do Hospital. E aí o Rui – arqueólogo de profissão –, varre com invulgar empenho os vestígios outonais que as árvores de folha caduca vão largando no solo.

Sempre tive uma grande admiração por este tipo de pessoas, que apesar de terem um “canudo” – num país de tantos falsos doutores –, são tão hábeis a limpar uma retrete como a elaborar um sábio trabalho académico. Ainda bem, “porque todo o trabalho que merece ser feito, também merece ser bem feito”.

Nesta sociedade de bajuladores, tão agarrada ao vil metal, o Rui insiste em permanecer oliveirense. Só que, nem em terra de “alta costura”, alguém conseguiu fazer-lhe um fato mais à sua medida.

Os senhores que governam o concelho que o viu nascer – tão expeditos em inventar empregos “por medida” –, podiam incentivar este jovem, dando-lhe uma oportunidade de trabalho na sua área profissional.

Num município com tantos vestígios arqueológicos – o Rui anda agora a tirar um mestrado em Coimbra! – e com tanto património para preservar, é assim que esta sociedade premeia os seus filhos que passam anos e anos nos bancos da Escola. Como não fazem parte das “bases de dados” das ditas clientelas partidárias e porque o Sol quando nasce não é para todos, o poder autárquico arranjou-lhe um lugar à sombra: no parque do Mandanelho.

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