“Vilafranquense que o seja deve ter vergonha e não aceitar ser candidato pelo PSD e CDS-PP”

Porém, a meio ano das eleições autárquicas, João Dinis avisa que os vilafranquenses saberão dar resposta aos que derem a cara pelo PSD e CDS-PP, que nem merecem “pôr as patas” em Vila Franca da Beira.

Correio da Beira Serra – Sempre se opôs à extinção de freguesias, mas a lei acabou por ser aprovada ditando a agregação de Vila Franca da Beira com a vizinha de Ervedal da Beira. A meio ano das eleições como encara o facto de esta freguesia ter os dias contados?
João Dinis
– Naturalmente que não poderia estar com outra posição, desde o famigerado livro verde, que não fosse contra a possibilidade de extinção desta minha freguesia que, em maio, vai completar 25 anos e cujo aniversário vamos continuar a comemorar, independentemente, do que acontecer administrativamente com a criação de uma nova freguesia que é a União das Freguesias de Ervedal da Beira e Vila Franca da Beira. Em termos práticos, a freguesia é agregada e vai haver uma só Junta de Freguesia e uma só Assembleia de Freguesia, pelo que voltamos ao que acontecia há 25 anos atrás, em que Vila Franca pertencia à freguesia de Ervedal da Beira. Somos contra e não podemos deixar de o ser. Porque é um atentado aos direitos das populações e complica a resolução dos problemas que vínhamos a resolver. E há mais ainda por resolver. Todos reconhecemos que se Vila Franca da Beira não tivesse sido elevada a freguesia, em 25 anos não teríamos feito a obra que já fizemos, as iniciativas que autonomamente decidimos fazer, para além dos direitos que conseguimos.

CBS – Adivinha prejuízos para Vila Franca da Beira?
JD
– Até ao lavar dos cestos é vindima. Estamos na luta para que o governo seja demitido e já deveria ter sido. Esta maioria tem que ser corrida da Assembleia da República, para depois irmos a tempo de evitar a consumação deste abate da freguesia de Vila Franca da Beira e dos direitos dos vilafranquenses. No dia 20 de abril lá estaremos no encontro da ANAFRE promovido em Coimbra a reclamar a demissão deste governo e revogação das leis que consumam a agregação das freguesias de Vila Franca e Ervedal.

CBS – Não previa este desfecho tendo em conta a jovialidade de Vila Franca da Beira?
JD
– Desde o primeiro momento tivemos noção de que Vila Franca da Beira era possível candidata a agregação. Não só por ser jovem, mas por estar com menos de 500 habitantes. Sempre tivemos noção, o que não quer dizer que aceitássemos. Das mais variadas formas, quer os autarcas quer populares, têm rejeitado essa possibilidade através da participação nas manifestações em Coimbra e em Lisboa, abaixo assinados, tomadas de posição … todos os vilafranquenses que o sentem ser sabem que quem fez estas leis foram os dois partidos do governo. PSD e CDS-PP são os únicos responsáveis com a cumplicidade do presidente da República. Os que nas próximas eleições vierem aqui dar a cara pelo PSD e CDS-PP serão diretamente confrontados porque foram aqueles partidos que causaram a agregação. Os vilafranquenses dar-lhes-ão a resposta nas urnas porque eles nem merecem cá pôr as patas dentro de Vila Franca.

CBS– Quem vier fazer campanha política corre mesmo o risco de “ser corrido à pedrada”?
JD –
Não. O debate é intenso, mas democrático. Isso não levaria a lado nenhum. Mas serão confrontados por virem aqui dar a cara pelos partidos que levaram à extinção da freguesia. Ser-lhes- à dito que não merecem pôr aqui as patas. Os do PSD e CDS de Oliveira do Hospital, em particular os do PSD nem sequer souberam respeitar a memória dos seus companheiros que já morreram e que estiveram na linha da frente da constituição desta freguesia. Foi o PSD que, há 25 anos, teve a iniciativa política de propôr Vila franca da Beira a freguesia na Assembleia da República. Não respeitaram a memória do Dr. António Marques Frade e de Manuel Augusto da Silva Adão, destacados membros do PSD que, em Vila Franca da Beira, estiveram na linha da frente. Espero que nenhum vilafranquense vá aceitar ser candidato pelo PSD e CDS-PP. Vilafranquense que o seja deve ter vergonha e não aceitar.

CBS – Há 25 anos a criação da freguesia ficou marcada por algum conflito entre as populações. Decidida que está a agregação, teme pelo relacionamento entre Vila Franca e Ervedal da Beira?
JD –
É claro que esta situação vai contribuir para reavivar velhas rivalidades entre as povoações. Também agradecemos aos ervedalenses que, há 25 anos, possibilitaram a criação da freguesia de Vila Franca da Beira. O então presidente da Câmara Municipal, António Simões Saraiva, ervedalense, e a então presidente da Junta de Freguesia de Ervedal da Beira, Esmeralda Pombo, se não tivessem estado de acordo, Vila Franca não teria sido freguesia. Agora, também nos apraz registar a posição que o presidente da Junta de Freguesia de Ervedal da Beira, Carlos Maia, tem tido neste processo, estando inequivocamente contra o abate de Vila Franca. Embora se possam reacender rivalidades, este processo também uniu os vilafranquenses e ervedalenses contra esta lei e esta iniciativa do PSD e CDS, com cumplicidade do Presidente da República.

CBS – Com a extinção a acontecer no seu mandato, sente-se o “coveiro” da sua freguesia?
JD
– Pelo contrário. Aqui em Vila Franca tudo fizemos e continuamos a fazer para que essa situação não se venha a consumar. É preciso correr com o governo e se isso acontecer a curto prazo, ainda há tempo e muita água vai correr debaixo das pontes. De qualquer forma trata-se de uma união de freguesias e a CDU entende, desde já, que seja qual for a maioria que tenha mais votos para a união deve respeitar a vontade expressa na mesa de voto de Vila Franca da Beira em termos da composição do futuro executivo. Quem tiver mais votos só elege o presidente da Junta e depois elege proporcionalmente os nove elementos da Assembleia de Freguesia que, depois, vai eleger o tesoureiro e secretário da Junta.

“Onde houve maior investimento per capita foi na Cordinha… não tanto em Vila Franca da Beira”

CBS – Prestes a terminar o terceiro mandato, continua sem ver resolvidos os problemas maiores da freguesia: abastecimento de água e saneamento. Que indicação tem a propósito desta matéria?
JD –
Com a atual Câmara Municipal temos sempre conversado com a maior abertura, clareza e frontalidade, mas achamos que já passou tempo de mais. Há duas fossas séticas a drenar a céu aberto e ramais por fazer. A última indicação que tive do presidente foi que o projeto ia entrar em fase de concurso para ser executado. Mas já tarda. A própria ETAR tem problemas de funcionamento. Também temos problemas de intervenção urbanística. A terra está-se a desertificar. Não há trabalho, os jovens vão saindo, vamos perdendo população e abundam casas abandonadas e em ruínas. São casas privadas e não podemos intervir diretamente. Por vezes nem conseguimos contactar os donos e não tem sido fácil. Mas, neste mandato vamos recuperar as casotas em ruínas frente à capelinha mortuária e uma ou outra intervenção no cimo do povo. Tem sido um trabalho de grande paciência de contactar proprietários

CBS – Vila Franca da Beira deixou ser uma freguesia atrativa?
JD –
Quem aqui vem até acha a povoação bonita. O problema é que atividade produtiva aqui podem ter os jovens, quais os seus rendimentos, como é que os jovens casais aqui se podem fixar e criar os seus filhos nesta situação desgraçada em que o país se encontra, em resulta das políticas destrutivas das tróikas e dos sucessivos governos. As pessoas dormem com preocupação. A partir de abril, até os agricultores que queiram vender um ramo de salsa no mercado têm que emitir fatura. Precisamos de outras políticas. Um dos sinais mais negros desta tremenda realidade é que se morre muito mais do que aquilo que se nasce.

CBS – Falar de Vila Franca é também falar da Cordinha. Como olha para a atenção que a Câmara Municipal tem dado a esta zona?
JD –
Estou convencido de que no total do concelho, incluindo a cidade, onde houve mais investimento per capita foi aqui na Cordinha. E foi nas freguesias de Ervedal da Beira e Seixo da Beira. Não tem sido tanto na freguesia de Vila Franca da Beira. Havia um projeto que tínhamos proposto que era renovação do abastecimento de água e saneamento e que rondaria um milhão de Euros. A Câmara fez o projeto, apresentou candidatura a fundos nacionais e comunitários e não foi aprovada. A Câmara disse não ter disponibilidade para investir um milhão de Euros em Vila Franca da Beira. Isto foi no ano passado. Mas seguramente que a Câmara investiu mais de um milhão de Euros em Seixo da Beira. Em Ervedal também não andará muito longe. Também o poderia ter feito em Vila Franca da Beira. Vamos pedir à Câmara para que mantenha o projeto no plano de atividades do próximo mandato. Seja lá quem vier para a Câmara tem que assegurar que a renovação do abastecimento de água e do saneamento seja realidade. É que isto provocou aqui um vazio, porque tínhamos a expectativa de que o projeto avançasse. Vila Franca da Beira, de alguma forma, tem que ser ressarcida devido a ser gorada essa expectativa.

CBS – Vila Franca depara-se hoje com menos respostas para a sua população. O encerramento do posto médico é disso exemplo…
JD –
O encerramento do posto médico foi decisão do governo PS. Agora a Câmara Municipal e a Fundação Aurélio Amaro Diniz têm a Unidade Móvel de Saúde e estamos a tentar que venha à freguesia prestar cuidados. Também fizemos um abaixo assinado para reclamar ao Centro de Saúde e ao Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) para que mandem um enfermeiro uma vez por semana a Vila Franca. A população tem acorrido à extensão de Ervedal da Beira, mas aquilo não tem condições nenhumas, as pessoas vão para lá tossir umas em cima das outras. Os médicos também faltam mais vezes do que as que comparecem. Tentámos que houvesse dia certo, em Ervedal da Beira, para as consultas dos utentes de Vila Franca da Beira, para podermos disponibilizar transporte às pessoas, mas só um médico acedeu a isso. Continuamos a reivindicar um enfermeiro uma vez por semana. Porque é que vamos estar a deslocar uma dúzia de idosos, quando um enfermeiro se pode deslocar até Vila Franca da Beira? Mas nem resposta temos tido da parte do Centro de Saúde e do ACES. É revoltante a falta de resposta. Demonstra profundo desprezo pelos problemas reais das pessoas em medidas tão simples que podiam aliviar os problemas dos mais idosos. Nem dizem sim, nem não, nem talvez. É de uma arrogância inconcebível.

CBS- Que indicação tem a propósito da Escola do 1º Ciclo? Teme pelo seu encerramento?
JD –
Continuo a recear que queiram encerrar a escola. Esta ano funciona com 11 alunos. Resta saber o que vai na cabeça dos encarregados de educação, porque se eles quiserem não é fácil encerrar a escola. Agora se tiverem outras ideias não será fácil. Receio pela escola. Entretanto também foi centrado em Vila Franca um Núcleo de Escuteiros que está utilizar as instalações da Escola. Agora também há a questão da agregação dos agrupamentos. Lá estão os motivos economicistas a dar cabo do sistema de ensino público. Nunca ninguém me conseguiu explicar porque é que o Agrupamento da Cordinha, com mais de 300 alunos, não pode continuar como agrupamento autónomo. Expliquem-me. Se algo não funciona, melhora-se. Agora assim não. Vamos assistir à constante mobilidade de professores, ao despedimento de auxiliares de ação educativa e à degradação do ensino.

CBS – Qual o impacto do desemprego na freguesia?
JD
– Temos por cá uma dúzia de desempregados. Os mais idosos acomodaram-se e os mais novos tentam-se safar. E não há mais por muitos saíram para emigração e para as cidades. Há por aí casos sociais complicados de idosos e não só. Às vezes as pessoas sucumbem perante as dificuldades. Na povoação ainda temos oito rebanhos. Ainda se mantêm tradições de pastorícia e produção de queijo, temos duas queijarias certificadas e duas semi artesanais. Também temos serração de madeiras, um café um café-restaurante. A construção civil é que está a passar uma fase mais complicada.

CBS – Como avalia o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelo presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital?
JD
– Apesar de se ter esforçado muitíssimo não resolveu os problemas do desemprego. Termina o mandato com maior desemprego do que o que encontrou. Já era previsível dada a situação do país. Tem tentado minimizar os efeitos dramáticos do desemprego. Era tarefa quase impossível porque a Câmara não pode constituir empresas. No relacionamento com as freguesias foi difernete. Fez a descentralização a um nível razoável porque não atingiu o volume proposto de um milhão de Euros, ficando-se nos 600 mil Euros. Permite alguma capacidade de iniciativa autónoma. Falamos de 19 mil Euros por ano que pode dar 1500 metros quadrados de calçada. Mas é de facto uma grande diferença em relação a outros mandatos. Esteve mais ativo na busca de coisas para o município comparativamente com o anterior presidente da Câmara que se encastelou nos Paços do Concelho, de onde não saia rodeado por todo o lado de inimigos políticos. Este gira e vai a todo o lado. É voluntarioso. Alguns projetos não avançaram. O que mais falha são as instalações para o pessoal operacional da Câmara, o estaleiro. Embora tenha características pessoais, José Carlos Alexandrino tem pecado muito em não mobilizar populações na defesa de matérias como a ESTGOH e o IC6, por exemplo. Paradoxalmente quem ainda fez alguma coisa pelo IC6 foi o PSD que iniciou a marcha lenta. Temos questão do mega agrupamento e o que está a ser feito? Reporta-mo-nos a lutas de elite, em que as pessoas não são chamadas a intervir. Na luta das freguesias estivemos com as pessoas. Alguns autarcas incentivaram e o presidente da Câmara Municipal esteve na primeira linha.

CBS – Admite uma candidatura à União de Freguesias?
JD
– Numa altura destas não posso deixar de ser candidato, resta saber é onde. A malta tem que ir à luta. Tenho que admitir uma candidatura à união. Ainda não há nada decidido, até porque temos tido um contra tempo que muito nos preocupa que é o estado de saúde crítico do tesoureiro que há mais de um mês se encontra em coma induzido. Isto perturba-nos. Continuamos à espera que reaja e se veja livre da situação porque nós, a família e a terra precisamos dele.

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