Viva Cervantes – D. Quixote – Sancho Pança – Dulcineia – Rocinante – e todos os outros! Autor: João Dinis, Jano

Faz 400 anos que faleceu Miguel de Cervantes Saavedra, um talentoso castelhano que em boa hora nasceu. Porquê?

Porque…é um prazer enorme “curtir” D. Quixote sem desprezar Sancho Pança.

Enfim, poderíamos começar por fazer uma análise sobre os estereótipos classistas desta Obra maior em toda a literatura mundial de todos os tempos. São estereótipos bem plasmados nos personagens D. Quixote e Sancho Pança e também na sociedade retratada no romance. Porém, se fizermos isso, tiramos o puro prazer da leitura que este LIVRO nos dá. Não cometamos pois tamanho desperdício!

Acho que todos gostamos de algo que D. Quixote tem. Há algo nele com que nos identificamos. Ele é aquilo que todos nós gostaríamos de ter sido ou de vir a ser, embora em pequena dose, cada um, de cada vez.

D. Quixote de la Mancha é nobre de carácter e por estirpe e, ainda assim, enfrenta os seus moinhos de vento não cuidando da sua imagem que sai ridicularizada mas sempre orgulhosamente “ele”. Vencido mas nunca rendido! Pronto para outra. E D. Quixote pode simplesmente sê-lo, tal como ele é mas pensando ser outra “coisa”, sem reservas, porque ele é louco (excêntrico). Este louco magnífico é a nossa razão-emoção também por já não sermos meninos mas ainda sonharmos voltar a sê-lo.

O humor cristalino, quase supra-humano, genialmente passado a escrita por Cervantes, das sucessivas e desastrosas aventuras “quixotescas”, a mim, esse humor faz-me sorrir mais por dentro do que por fora. Dá-me uma alegria de um tipo raro, mistura de ternura com emoção, mistura de sorriso e choro, muito calmos. De alguma forma se passa o mesmo comigo quando (re)vejo certos filmes de Charlie Chaplin, “Charlot”.

E ao cavalgarmos, à imaginação solta, por entre as aventuras sempre destemidas de D. Quixote, é bem verdade que quase todos nós também gostaríamos de, alguma vez na vida, termos sido cavaleiros andantes, peito feito, mundo afora, pelejando em protecção dos mais fracos e de donzelas oprimidas. Este D. Quixote, o “Cavaleiro da Triste Figura”, é mesmo um dos meus heróis mais perenes!

E, por fim, D. Quixote aquieta-se e aquieta-nos depois de tanto nos ter desinquietado. Ele “consegue” morrer santo, tranquilo, conciliado consigo próprio e com o mundo-cão. (Vá lá, deixemo-nos de rotular este final como “moralista”…).

D. Quixote é, talvez, mais conhecido que o próprio Cristo- (sem ofensa). …Se a Bíblia é o Livro mais traduzido, isso não significa que seja o livro mais lido… É que D. Quixote está traduzido para línguas que lhe dão acesso por parte de muitos milhões de seres humanos (de outras culturas-religiões) que nunca ouviram falar de Cristo.

E Sancho Pança também nos conquista. Acho que este personagem é o retrato fino de um boçal (Mestre Aquilino – tradutor credenciado de D. Quixote – chamar-lhe-ia de “lapuz”…). É mais esperto, mas menos afoito, que o próprio D. Quixote.

Sancho Pança é tão singularmente esperto, oportunista embora submisso, tão basicamente sábio, que todos nós o devemos admirar. Enorme, aquela cena em que Sancho Pança leva umas chicotadas pela mão de D. Quixote enquanto tenta convencer (sem conseguir) o fidalgo, seu amo, de que talvez não seja assim tão necessário continuar com esse castigo…

Eu também gosto muito do Rocinante. O som-pronunciado deste nome – Rocinante – é logo uma coisa mais do que musical. É quase uma onomatopeia erudita se nos lembrarmos do relinchar de um cavalo. Rocinante é tão nobre e escalavrado quanto o é D. Quixote. Também obedece, chocalhando os seus ossos, à tresloucada imaginação do seu dono. Tal como D. Quixote é um herói anti-herói entre os homens, este Rocinante emerge como um herói anti-herói do mundo dos equídeos, porquanto o burro (sem nome) de Sancho Pança é muito mais discreto (também não apanha os dissabores que apanha Rocinante).

Dulcineia (ou Dulcinea) é uma extraordinária invenção da imaginação de Cervantes, digo, de D. Quixote. Ela é, passe a contradição hormonal, a testosterona do romance. É ela quem “potencia” toda a acção de D. Quixote. Não poderá haver, nunca, um D. Quixote sem a sua Dulcineia. Assim como um Romeu sem a sua Julieta, embora neste outro romance maior, a Julieta exista “fisicamente” como personagem carnal.

Especialmente gosto daquela portentosa cena em que D. Quixote baila, de facto arrastado por “donzelas”, até ficar tonto, numa festa que lhe montaram…e acaba prostrado no chão do baile, escudando-se – para dessa forma não ter que assumir a sua ridícula fraqueza física, a sua “triste figura” – na evocação-consagração, genialmente descritas, da sua Dulcineia del Toboso, para ele incomparável e sempre inatingível.

Obrigado, Cervantes – D. Quixote – por cada frase, por cada sublime aventura-loucura, que nos destes, nesta OBRA!

janoAutor: João Dinis, Jano

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  • óculo

    Óculo

    Hum… Então este rapazão também é crítico…literário ?! Focalizem. Eu já tinha dado conta que ele chegava a criticar as suas próprias críticas… E que era crítico desta horta, desta ordenha, desta pocilga, que é o nosso sistema de poder politico e partidário – corrupto – que nos domina. Pertence a essa espécie de críticos de que se diz que criticam por criticar. Focalizem. Olhem bem e verão que não é assim. Fazem críticas muito justas e até apresentam alternativas. O problema é que não lhes basta terem razão. Têm que mudar o Povo… Ou talvez não seja preciso tanto. Afinal, mostraram a António Costa o caminho…ou para a redenção ou para a perdição. De qualquer forma, este António Costa já se tinha perdido se não tivesse visto, quando e como viu, esse caminho. Um caminho que os militantes e os chefes-meliantes do PPD- PSD ainda não conseguiram vislumbrar. Que ceguetas !
    Focalizem outra vez. Olhem que o rapazão até que escreveu umas cenas curiosas sobre o grande D. Quixote de la Mancha “and friends”. Focalizem. Já agora, leiam o livro. Mas de joelhos, tipo penitencia. se ousarem não gostar, infelizes…

    Óculo.

    • João Albuquerque

      Quatro dias para arranjar o nome de Rocinante para o cavalo, oito para o Dom Quixote de la Mancha, nem um minuto para o Sancho que ficou com o nome e a alcunha que tinha, já o burro nem nisso pensaram. Animal manso, pacato, obediente, frugal, discreto e acima de tudo anónimo, tal como o povo.
      Assim era e assim continua.
      A verdade é que para além de “carriça” para algumas burras e mulas, o burro não passa de burro, e a maior parte das vezes, burro de carga.

      João Albuquerque

  • João Albuquerque

    Só espero que não deixe de ler documentos oficiais por andar a ler Cervantes.
    Muito bem, continue.

    João Albuquerque