VIV´Á REPÚBLICA ! Autor: João Dinis

Viv´ó 5 de Outubro, Dia da República !  Viv´ó Feriado do 5 de Outubro que um (des)governo embrutecido nos chegou a roubar !

Sim, a nossa República foi oficialmente proclamada a 5 de Outubro de 1910, em Lisboa, por um grupo de Republicanos mais ou menos amotinados. Olhando para eles nas fotos que há quando foram para  a varanda do edifício dos Paços do Concelho de Lisboa (hoje  abreviadamente Câmara Municipal), neles se destacam as fatiotas, as cartolas e as barbas que exibiam. Obviamente, não se vê aquilo que lhes ia na cabeça e pelo coração, naqueles momentos. Mas podemos presumir que a alegria, a emoção, o entusiasmo, seriam dominantes. Pudera ! Em baixo, juntava-se a População e os chapéus e cartolas abanavam e voavam pelo ar, em euforia !  Estavam ali já a comemorar o nascimento da República Portuguesa e a  arrumar com a Monarquia (que já era cadáver).

– Alegria! Alegria ! Viv´á República !  Viva !

Sim, para muitos deles a instauração da República era a causa das suas vidas. E vários deles puderam depois vir a constatar que manter a República em boas condições e fiel aos princípios que proclamara, se revelou muito mais difícil que instaurá-la…

E se nós – mesmo sabendo aquilo que se passou na República Portuguesa daí para cá – se nós, por uma qualquer obra prodigiosa, pudéssemos regressar a esses momentos e participar na “festa”, ali, na Câmara Municipal de Lisboa, pelas nove horas da manhã de 5 de Outubro de 1910, também nós gritaríamos de contentamento:-  Viv´ á  República ! Viva!

– Regicídio –

Entretanto, sempre que se fala em instauração da República e no 5 de Outubro, eu sempre me lembro de outras datas e de outros acontecimentos que por ali bem perto ocorreram…

Primeiro, chega a ideia do atentado – o “regicídio” – pelas 17 horas e pouco de 1 de Fevereiro de 1908 e que vitimou o rei D. Carlos de Bragança mais o príncipe herdeiro D. Luís Filipe. E passo pela memória os nomes, e os “feitos”, do Manuel Buíça (comprovadamente um atirador “de elite”…) e do Alfredo Costa, estes os dois conjurados que dispararam mais certeiramente sobre a real família e atingiram de morte o rei e o herdeiro, ali ao lado, no Terreiro do Paço ou Praça do Comércio, e que lá também foram logo abatidos pelas (fracas) forças policiais presentes. Daí, ligo este acontecimento do “regicídio”, que foi mais um conjunto de acontecimentos, à organização “Carbonária”, esta um segmento mais ou menos dissidente da “Maçonaria” da época. E, embora de raspão, ainda chego a outros conjurados que estando destacados para o “regicídio” pela organização secreta do mesmo, lá não se chegaram a envolver ou não foram abatidos durante o tiroteio bravo que se generalizou durante alguns minutos. E nesta “confusão”, sempre acabo por apreciar o muito provável envolvimento “orgânico” no “regicídio”, de um dos maiores escritores portugueses e seguramente dos meus (mais) preferidos, o Mestre Aquilino Ribeiro (a este propósito, leiam a sua obra “Um escritor confessa-se”)…

– 25 de Abril de 1974 –

E lembro-me do dia 25 de Abril de 1974, desde a madrugada e também ali ao lado, no Terreiro do Paço e na Rua do Arsenal e na Rua da Ribeira das Naus. Sim, a decisão militar do 25 de Abril de 1974 aconteceu ali, através de várias peripécias com a tropa comandada pelo capitão Salgueiro Maia a conquistar o Terreiro do Paço ao regime fascista, a juntar o Povo à sua volta e ao longo do trajecto posterior até ao Largo do Carmo, onde se veio a processar a decisão política do dia com a rendição de Marcelo Caetano aos militares revoltosos.

Para quem viveu esses momentos (eu estive lá!), mantém-se a memória “sensitiva” da tensão, do medo, da alegria, dos alívios entre as maiores “complicações” que foram várias e sobretudo reconhecemos ainda hoje aquela alegria imensa – diferente de todas as outras alegrias porque profunda, vibrante,  abrangente e colectiva.  Viv´ó 25 de Abril! Sempre!

– 1 de Dezembro de 1640 –

Mas, já agora, porque não convocar para esta ronda “in memoriae” os revoltosos do 1 de Dezembro de 1640 que por ali muito perto – no Terreiro do Paço – se catapultaram para a História ao iniciarem, às claras, a revolta nacional contra a jugo – que já levava 60 anos – de Espanha e dos Filipes?… Sim, os 40 Conjurados foram “Portugueses de Lei” !

– 6 de Dezembro de 1383 –

E sim, também não muito longe daí, a 6 de Dezembro de 1383, os conjurados desse dia capitaneados pelo Mestre de Avis – depois D. João I – também eles, no Paço da época, se foram aos opressores, mandaram para o “inferno” o Conde de Andeiro e assim deram início “armado” à revolução de 1383–85, a qual afirmou categoricamente a independência nacional ao tempo perante a potência ibérica, Castela.

– 1 de Novembro de 1755 –

Termino estas evocações desses locais “sagrados” para a nossa História, com as piores das memórias e que são o terramoto e o “tsunami” de 1 de Novembro de 1755 que mataram aos milhares e arrasaram tudo o que por ali havia sido construído pelos homens e pela natureza.

Então, aí chegado, uma outra face da nossa memória é “invadida” pelo nome do personagem porventura o mais controverso de toda a nossa História como Povo, Nação e País, o incontornável Sebastião José de Carvalho e Melo – o mais do que célebre Marquês de Pombal – que foi capaz “de tudo”, para o melhor e para o pior… Por exemplo, sabiam que, no seu declínio político e social, o Marquês de Pombal foi julgado e condenado, em tribunal, não por crimes de sangue, ele que esteve envolvido em vários, mas, sim, por “vigarices” pois havia posto em seu nome e em nome de correligionários — como propriedades suas – alguns dos novos bairros da Baixa Pombalina que acabavam de ser reconstruídos após o cataclismo do terramoto?!

E ao que me disseram muito recentemente (terei ainda que confirmar), a Baixa Pombalina, o Cais das Colunas, o actual Terreiro do Paço, têm toda a sua arquitectura “Pombalina” conjugada para que seja o maior “templo maçon” já concebido? Pois ao que também julgo saber, de facto, o Marquês, quando veio de França e de Áustria por onde andou, veio “maçon” para Portugal e, assim, cá exerceu a sua tremenda actividade como político de topo…e como coordenador da equipa de arquitectos de topo (e de “lojas”…) que mandou vir de fora do País para redesenharem e reconstruírem Lisboa após a tragédia do terramoto e do “tsunami”!…

 – Aquela Baixa Lisboeta à volta do Terreiro do Paço –

 Aquela Baixa Lisboeta está bonita! E eu não conheço nem nunca ouvi falar em qualquer outro “bairro” ou zona restrita de cidade, no Mundo inteiro, onde, ao longo de tantos séculos de História, tenham acontecido tantos episódios, tantos acontecimentos, tão importantes para um País e um Povo!

Autor: João Dinis, Jano

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  • António Lopes

    Caro Camarada: As voltas que a história dá. Os derrotados de 5 deOuturo de 1910, s Monárquicos, foram os heróis do 1º de Dezembro de 1640.Sim aqui, assumidamente, foram os 40 fidalgos que assumiram “as despesas”.Em 1385 tamém .Mas no teu dizer já seriam uns fidalgotes.No caso do Mestre de Avis, sendo filho do Rei também o era da 4ª mulher, chamemos-lhe assim. Aqui, foi ais a arraia miúda.O Povo.Não percebi foi o teu esquecimento pelo 5 de Outubro, para mim maior, de 1143, quando oficialmente foi reconhecido o nascimento deste País,pese a “homologação” da decisão, só ter sido feita em 23 de Maio de 1179.Curiosamente, o dia da finada independência, da freguesia de Vila Franca da Beira..!

  • João Dinis, Jano

    Pois bem, caríssimo António Lopes um sempre atento historiador que cá por mim eu prefiro contar outras “estórias” acerca da nossa História mais oficial quase sempre mal contada…

    Por ironia do destino, o Luís Vaz de Camões acabou por dar no mais influente “historiador” através de “Os Lusíadas”, onde em rima, com muito engenho e arte, “romanceou” a nossa História e dessa forma – genial enquanto arte – afinal a sobre-enalteceu, e reescreveu, até ao seu alegado desabafo:- “morro quando morre a minha Pátria” às portas de 1580 e da submissão aos Filipes e a Castela.

    Bem, no meu “opinião” supra, eu “apenas” me quis cingir a acontecimentos históricos que tiveram lugar no “bairro” Lisboeta ali por próximo ao Terreiro do Paço.
    Como é óbvio, o 5 de Outubro de 1143 foi em Zamora, e aí acabou num “simples” tratado de tréguas entre o nosso Afonso I (D. Afonso Henriques) e o Afonso VII de Leão e Castela (ou “das Espanhas” como ele se definia a si próprio). O nosso Afonso I também já se intitulava de “rei” (rex) mas não era assim completamente reconhecido nem pelo Afonso VII (manteve Afonso Henriques amarrado ao senhorio de Astorga de que o “imperador” Afonso VII se manteve como soberano…) nem reconhecido era pelo Vaticano a quem, aliás, mais competia pôr esse tipo de chancelas régias.
    Para mim, a parte mais “excitante” deste encontro ocorrido em Zamora, é a mais do que provável “compra” do cardeal Guido de Vico – o representante do Papa vindo do Vaticano – pela parte portuguesa (D. João Peculiar) ou seja, deve ter havido subornos por ali…coisa que naqueles tempos era tão usual como hoje continua a ser… Sim, sabe-se que houve negociações prévias e secretas entre o Cardeal romano Guido de Vico e o então Arcebispo de Braga, D. João Peculiar, este grande amigo e conselheiro político de Afonso Henriques e, seguramente também, um excelente “negociador”…
    Afonso VII é surpreendido pela bula papal que se seguiu ao encontro – Conferência de Paz – de Zamora em que o Papa da altura reconhece D. Afonso Henriques como “rex” e Afonso Henriques se lhe declara “súbdito” enquanto “Cavaleiro de S. Pedro” … Em consequência, devia haver lugar ao pagamento da famosa tença (anual) das onças em ouro por Afonso Henriques a esse Papa mas este morre logo a seguir, é substituído por outro que, por sua vez pressionado (ou comprado…) por Afonso VII “rói a corda” – Afonso VII deve ter cobrido, e por alto, o valor da tença de Afonso Henriques… – e a nossa independência volta atrás e anda enrolada no Vaticano até 23 de Maio de 1179, data da bula do Papa Alexandre III – “Manifestis Probatum” em que, esse sim, reconhece a independência do reino de Portugal e do seu rei legítimo e agora “ad jure” D. Afonso I – embora já estivesse o seu filho D. Sancho a reinar de facto. Um grande complicação em que foi necessária muita, muita paciência e muita mestria diplomática e algum ouro “por baixo da mesa”…
    Creio que uma ou outra vez por aqui já escrevi, mas eu acho, perante tanto “zig-zag” diplomático, que a independência de Portugal e do seu Rei perante o “imperador das Espanhas”, D. Afonso VII – foi tanto obra da espada nua e crua como da diplomacia e das “negociações” mais habilidosas da parte Portuguesa… Por assim dizer, esses “salteadores profissionais” – a maioria das tropas de Afonso Henriques – tinham uma rectaguarda ou mesmo uma vanguarda “diplomática” do mais fino e eficiente de que há memória, talvez só comparável – até aos dias de hoje – à formidável “organização”, secreta e não-secreta, de D. João II que “conquistou” o Tratado de Tordesilhas a Espanha dos reis católicos e fez de Portugal uma potência mundial.
    “Brutos”, eles ? Não ! “Brutos” temos sido nós…que estamos sem soberania…sem moeda.. quase dependentes da “mafia” europeia !
    João Dinis, Jano

  • João Dinis, Jano

    OK, Luís Vaz de Camões – que sempre que pronuncio teu nome me ponho “em sentido” – desculpa ter-te evocado como o fiz atrás que até pareceu que te fiz uma crítica “histórica” , passe a imodéstia minha.
    Tivesses tu até reescrito a história do universo todo e, ainda assim, “Os Lusíadas” contêm parcelas e constelações da maior das belezas estéticas e conceptuais que a genialidade humana já concebeu e em qualquer forma de arte. O “resto” que se diga é isso mesmo, é “resto”.
    Aquilo que aconteceu foi que a cultura fascista e ainda hoje a fascizante – que campeou e ainda campeia – utilizaram “Os Lusíadas” para (tentar) adornar – com arte ímpar – a vergonha que essa cultura (fascista e fascizante) era e é. Mais propriamente anti-cultura ou anti-história.
    Quem lê e atinge (ainda que por baixo) o extraordinário valor conceptual e artístico de tanta estrofe de “Os Lusíadas”, desculpa-te tudo, Luís Vaz. Sim, às vezes até exageraste que não era preciso tanto…empenho em exaltar, só isso, mas estavas em epopeia !
    -“Mais vale ler-te que pensar-te…mas pense-te quem não pode ler-te”… grande Luís Vaz !
    João Dinis, Jano