Voluntários da Ordem de Malta visitam vítimas dos incêndios em Oliveira do Hospital e ouvem críticas à actuação das autoridades e autarquia

Logo à entrada da Quinta da Porfía, Seixo da Beira, Oliveira do Hospital, os sinais da devastação dos incêndios de 15 de Outubro permanecem. Uns metros depois de se entrar naquele espaço destacam-se as ruínas de uma casa consumida pelas chamas. Sem sinais de qualquer início de reconstrução. António Fernandes, 28 anos, pai de gémeos, teve de se recolher na casa da mãe, juntamente com a esposa. Foi a única habitação da quinta que se salvou das chamas. Ontem foram surpreendidos pela visita do corpo de voluntários da Ordem de Malta de Vila Cova à Coelheira (Vila Nova de Paiva), que esteve no concelho, distribuindo simbolicamente bolos-reis pelos mais carenciados. António recebeu os forasteiros com as mãos cobertas de cimento, porque todo o tempo livre é ocupado a recuperar os estragos. Entre lamentos sobre aquilo que perdeu, este empregado da indústria da panificação não se conteve, de forma emocionada, em críticas às autoridades, incluindo a autarquia oliveirense que diz não ter “ajudado em nada”.

“Nem umas chapas para construir um abrigo para as ovelhas me arranjaram”, explica António Fernandes a Jorge Pinto Oliveira que liderou a comitiva de voluntários. Quando os visitantes lhe perguntam o que ele necessita de mais urgente, a resposta foi rápida: “materiais de construção”. Questionaram-no se não precisava de electrodomésticos, como frigorifico ou máquina de lavar… A resposta foi mais uma vez célere. “Não, o que preciso mesmo é de materiais de construção. Essas coisas nem tinha onde as guardar”. Surpreendidos com a humildade e honestidade de António, os forasteiros tomaram nota daquilo que será possível enviar-lhe para ajudar a restaurar o que o fogo levou. “Esteja descansado que esses materiais vão-lhe ser entregues”, asseguram.

Rodeado pelos filhos esposa, a mãe e de quem o anda a ajudar nos trabalhos de recuperação, António lamenta ainda não ter forma de transportar os materiais de construção que estão disponíveis no estaleiro da autarquia e que esta também não se mostre capaz de auxiliar. “A ajuda não é nenhuma, ficaram com o meu contacto para me arranjarem as chapas para a cobertura do abrigo das ovelhas, porque me disseram que na altura não tinham e até hoje nunca mais disseram nada”, resume. “As ajudas, se calhar, é só para alguns”, atira a esposa de António, um jovem que está a sentir ainda dificuldades em receber apoios pela destruição da casa onde morava, porque o imóvel encontra-se no seu nome, no da mãe e no da irmã. “É herança, mas toda a gente sabe que era ali que eu morava, mas dizem que para ter os apoios tinha de estar apenas em meu nome”, lamenta-se quase resignado António que ocupa todos os tempos livres nos trabalhos de recuperação.

O vereador João Paulo Albuquerque, que acompanhou o périplo da comitiva, ouviu e prometeu alertar para este problema na próxima reunião do executivo camarário. “Isto não pode acontecer, até porque só um amigo meu doou 575 sacos de cimento e há material para distribuir e ajudar a recuperar os estragos da catástrofe. Não compreendo como é que a autarquia não coloca aqui esses meios”, frisou.

Antes, o grupo tinha visitado outro dos elementos que ficou “apenas com a roupa que trazia no corpo”. Pedro Dias, na freguesia da Bobadela, também mostra o estado em que ficou a sua habitação. Completamente destruída. Recebe o bolo-rei e, algo emocionado, quando lhe perguntam o que mais necessita lá vai dizendo que uma máquina de lavar e uma arca congeladora é algo que lhe faz muita falta. “Sem compromisso, vamos ver o que é possível arranjar”, respondem os voluntários da Ordem de Malta.

A visita do núcleo de Vila Cova à Coelheira do corpo de voluntários da Ordem de Malta ao concelho procuraram, com a oferta de um bolo-rei, mostrar solidariedade para com as vítimas de Oliveira do Hospital da catástrofe de 15 de Outubro. “Este foi apenas um acto simbólico. Desde o dia da catástrofe que temos estado em contacto com João Paulo Albuquerque e, depois desta visita e mediante os dados que recolhemos, vamos procurar ajudar no que for possível”, explica Jorge Pinto Oliveira, destacando também as ligações históricas entre Oliveira do Hospital e Vila Cova à Coelheira, no passado comendas irmãs da Ordem de Malta. “Ambos pertencemos durante séculos à Ordem dos Hospitalários, hoje conhecida como Ordem de Malta. Oliveira do Hospital também já foi Comenda da Ordem de Malta e o objectivo é reactivar aqui um corpo de voluntários. Já falámos com o padre António Loureiro no sentido de reactivar a cooperação histórica, religiosa e cultural”, contou ao CBS Jorge Pinto Oliveira. “Temos esperança que os contactos se intensifiquem”, rematou.

A Ordem de Malta, antigamente conhecida como Ordem dos Cavaleiros Hospitalários, é uma organização internacional católica que começou como uma ordem beneditina fundada no século XI na Palestina, durante as Cruzadas, mas que rapidamente se tornaria numa ordem militar cristã, numa congregação de regra própria, encarregada de assistir e proteger os peregrinos àquela terra e de exercer a Caridade. Actualmente, a Ordem de Malta é uma organização humanitária soberana internacional, reconhecida como entidade de direito internacional. O seu objectivo é auxiliar idosos, deficientes, refugiados, crianças, sem-tecto e aqueles com doença terminal e hanseníase (esta a par com a Ordem de São Lázaro), actuando em cinco continentes do mundo, sem distinção de raça ou religião. A ordem dirige hospitais e centros de reabilitação. Possui 12.500 membros, 80 mil voluntários permanentes e 20 mil profissionais da saúde associados, incluindo médicos, enfermeiros, auxiliares e paramédicos.

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