Na madrugada do 25 de abril, bem no começo do dia, falava assim, Salgueiro Maia, na parada da Escola Prática de Cavalaria: “Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados socialistas, os estados capitalistas e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos!”.

Ainda em vida, o saudoso capitão, porque pertencia ao reduzido grupo dos que vivem para servir, não para se servir, pode conhecer a forma ignóbil com que a mediocridade afronta os que, pelo seu carácter e nobreza, não se vergam à bajulação, ao pequeno interesse, ao seu interesse pessoal. Mal imaginaria ele, naquela madrugada, o quanto seria ostracisado no regime que iria começar a construir, de que não temos dúvida, pretendia bem diferente.

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Porque não se vergou a interesses comezinhos, porque se recusou a servir outros senhores, não muito diferentes dos que contribuiu, decisivamente, para derrubar, acabou guardando presos “jogado atrás de uma secretária.”.! Ele que, tão galhardamente, deu provas impares, da sua capacidade de comando operacional.

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Da sociedade sem classes, do controlo operário, do rumo ao socialismo que o regime que despertava se comprometeu, e chegou a plasmar na lei mãe, a Constituição da Republica, cedo houve quem, “cumprida a encomenda”, se apressasse a meter o socialismo na gaveta e o rasgasse na constituição, logo que conseguiram travar o impeto da Revolução, caminhando-se lenta e progressivamente, para um regime que de diferente já só resta o falar sem grandes receios. Mas, já, com bastantes consequências.
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Estamos, de novo, nas eleições autárquicas. O poder autárquico é, porventura, a maior dádiva do 25 de Abril. Com ele, e por causa dele, são as populações que têm em mãos, a capacidade de definir e gerir grande parte dos seus destinos, resolver os seus problemas mais prementes, sejam eles o abastecimento de água, a iluminação dos acessos, o tapar do buraço da rua. Cada vez mais, valores maiores e com outros responsáveis, vão passando para as mãos das autarquias.Estas, são cada vez mais, chamadas a resolver os problemas da educação e da saúde, funções atribuidas ao governo da Nação. Por ser assim, as autarquias e as eleições autárquicas, são assunto da maior importância e responsabilidade.
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O poder autárquico não pode ser vilipendiado. Não pode ficar ao sabor de aritméticas partidárias nem ser a solução milagrosa do emprego e outras prebendas, daqueles que aproveitam este bem maior para a resolução dos seus problemas profissionais que com engenho e arte, ou a falta deles, não os conseguem resolver como o comum dos cidadãos.
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Por ser assim urge refletir. Começou mais um ciclo eleitoral autárquico. Começou, também a caça ao voto. Vale tudo..! Como de costume, começaram as lutas intestinas, internas. Começaram as promessas vãs, jamais cumpridas. O bacalhau a pataco, que nunca chega. Como não chegam os computadores às escolas. Como não chegam as vacinas aos cidadãos. E, as que chegam, não raro, vão para os mesmos do costume. Para onde também vai o emprego privilegiado e preferencial, seja porque se integrou a lista vencedora ou transportou e acenou com a  bandeira. Estes são passaporte garantido para o emprego do  filho, genro, esposo ou esposa do eleito ou do filiado, no partido que governa. E vão as vacinas, como vão, todos os anos, dez por cento do orçamento de Estado, para a corrupção, qual maquia de moleiro, que nem de moinho, burro e grão necessitam.
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Somos todos iguais em direitos e obrigações. Mas somos muito mais iguais quando se trata de pagar impostos. Já quanto ao usufruir dos direitos e regalias que esses impostos deviam proporcionar a coisa fica mais complicada.
Se no plano pessoal somos vítimas das discriminações políticas, de grupos/partidos, se não somos dos “nossos”, já no plano colectivo, arrasta-mo-nos, marginalizados, no interior profundo. São os médicos que vão vir.São os “Projetos Revolucionários da Saúde ” que nunca chegam. São as prioridades rodoviárias do nosso desenvolvimento, que “connosco, há doze anos são uma prioridade” e, desde 1995 são uma miragem. Nem a ameaça, como o demais não cumprida, de “abandono do barco” comoveu os centralistas de Lisboa que da região se lembram e apreciam, apenas, o queijo da serra, quase sempre oferecido!
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Agora, como quem promete uma prenda aos miúdos se se portarem bem e passarem o ano, voltam a acenar-nos com os desejos profundos de uma estrada, que para uns será mais um meio de se afastarem rapidamente, para melhores paragens. Para a maioria, o desejo há muito acalentado, numa região com igualdade de oportunidades, de desenvolvimento, de qualidade de vida. Mas uns e outros tem de votar – BEM..! NELES…
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Foto icónica de Salgueiro Maia da autoria de: Alfredo Cunha
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António Lopes
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Autor: António Lopes