Home - Região - Oliveira do Hospital - A governação do “Nada”. Autor: António Lopes
António Lopes

A governação do “Nada”. Autor: António Lopes

Na última Assembleia Municipal, no meio do desespero cada vez mais visível, assisti, pateticamente, ao elogio do “Nada”. Um episódio que me fez recordar o Padre António Vieira.

Nos idos anos de 1670, semi-exilado em Roma, o padre António Vieira, perseguido e ostracizado quer pelos seus compatriotas quer pelos esbirros do Rei de Espanha, cumpriu um desterro de sete anos em Coimbra e permaneceu cerca de seis anos sob protecção dos Papas Clemente IX e Clemente X em Roma. Deste último Papa conseguiu mesmo um “breve” que lhe permitia circular, livremente, por todo o Mundo Católico sem qualquer restrição a não ser do próprio Papa.

Ao tempo, era costume na Semana Santa, na cúria Romana, haver um discurso dos principais oradores da cristandade. Aos mesmos era dado um tema que, depositado no púlpito, o orador tinha que desenvolver, sem qualquer conhecimento prévio. A António Vieira, e com o objectivo de o apoucar, deixaram-lhe um folha em branco!

Chegado ao púlpito o Padre António Vieira, deparou-se com a insólita situação. Senhor de uma cultura e imaginação reconhecidas por todos, Vieira, expondo e mostrando, aos presentes a alva folha, virando-a e revirando, para que dúvidas não restassem, pousou a mesma na tribuna e exclamou: ” O Nada”: “Do nada criou Deus o Céu e a Terra. Do nada criou o sol e as estrelas. Do nada criou as serras e os rios. Do nada criou as árvores as aves “… E por aí a fora. Teve “nadas” para o tempo todo. Em boa verdade, não lhe poderia ter sido atribuído melhor tema:”Nada”.

Na última Assembleia, dizia eu, ocorreu-me esta histórica passagem. O partido que nos (des)governa, apresentou a situação financeira da Câmara como não tendo dívidas a empreiteiros e 2990,30 euros a fornecedores..! Estou capaz de garantir que qualquer café, quiosque ou mercearia, terá um saldo devedor maior. E mal irá se o não tiver. Sinal que não faz negócio. E foi isso que nós próprios contrapusemos. Uma Câmara que tendo um prazo legal de 44 dias úteis para pagar as suas dívidas, não tem, neste espaço temporal qualquer dívida, só pode estar parada!

Acto contínuo vem um outro eleito enaltecer a Câmara porque houve quatro empresas excelência PME no nosso Concelho. Perguntei: mas eu tenho cá algumas e todas estão menos bem. A culpa é do Senhor Presidente da Câmara? Parece-me que não! Vem um outro eleito enaltecer o trabalho da Câmara porque tivemos quinze mil dormidas em 2015. Feitas rapidamente as contas concluí-mos que, isso dá uma média de 43 dormidas dia. Depois de enumerados tantos sucessos com tantos hotéis abertos e a abrir, que o dito orador citou, tivemos que lhe dizer que, se as dormidas foram só aquelas (pensamos que foram bem mais) então, os hoteleiros deviam estar a “coçar” a cabeça.

Sobre o “crime” que está a acontecer na Fundação Cabral Metello, não quis o Senhor Presidente da Câmara pronunciar-se. Quando voltámos ao tema, lá foi dizendo que não queria manchar o bom nome do presidente da instituição, presidente esse que, a meu ver, afastou todas as pessoas válidas da administração e tem feito tudo menos administrar tão valioso património, seja do ponto de vista monetário, seja do ponto de vista cultural.

Sobre as recomendações da CADA, aos atropelos à democracia, neste Concelho, nem sequer a mesa deu conta, nem queria falar. Do que se tratou nesta Assembleia Municipal, foi do elogio do “Nada”. Nada de dívidas. Nada de obras. Nada de defesa do património. Nada de defesa da cultura. Nada de defesa da democracia.

É a governação do “Nada”

 

António LopesAutor: António Lopes

LEIA TAMBÉM

“Consummatum est ! (está consumado !) “. Autor: João Dinis

Decorreu (2 de Junho) a votação favorável à “fusão por incorporação” da Caixa de Crédito …

«Quem tem telhas de vidro que não atire pedras ao telhado do vizinho…» Autor: Carlos Martelo

Eu cá apreciei o quadro que ilustra a crítica apelidada de «Xuxa Gate» feita pela …