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A ignorância. Autor: Fernando Roldão

Há pessoas que passam a vida inteira a colocarem-se de cócoras, a porem a cabeça debaixo da areia, ignorando o que se passa à sua volta, como se vivessem num outro planeta.

O resultado desse afundanço está à vista, pois ninguém sabe nada, ninguém viu nada e quase todos fazem parte da decoração, figurantes de um grande filme de terror.

Eu relembro, com alguma saudade, do tempo em que se criavam galinhas no quintal, aproveitando os ovos e a carne dessas saborosas aves, se bem que ainda hoje há quem as tenha para uso próprio.

Um fenómeno que me deixava intrigado, acontecia, quando uma galinha queria fugir de algo. Ela corria na direcção da rede e enfiava a cabeça num buraco da malha, tentando escapar ao perseguidor ou perseguidores.

A ignorância da galinha saltava de imediato para o mundo real, pois aquela pequena e pobre cabecinha, pensava que se conseguisse passar a cabeça, o corpo logo iria a seguir.

Infelizmente para ela e felizmente para o perseguidor, ficava retida na armadilha que ela própria imaginou que seria a escapatória.

Analisando o comportamento dos humanos, chego à triste conclusão de que estes são muito similares aos das galinhas.

Enfiam a cabeça na areia, tentando não tomar consciência da realidade e depois tentam fugir pelo buraco da rede, não pensando que o mesmo, não permite a passagem do corpo.

Se adicionarmos à ignorância da galinha, o medo ou pavor que ela sente pelas penas acima ou abaixo, ao se sentir acossada, desconhecendo o autor daquela perseguição, acabando por lhe tolher o pensamento ou o movimento.

Há cerca de quarenta e oito anos que os portugueses andam com a cabeça entalada, com os olhos cheios de areia, ouvindo, unicamente, aquilo que os donos da capoeira lhes dizem, não conseguindo comprovar se esse discurso corresponde à verdade.

Lembro-me da história que se contava sobre os famigerados “pica miolos”, que, por razões óbvias, não vou contar aqui. Claro que todos gozavam e riam com a ignorância do sujeito, alvo da chacota de todos os “inteligentes”, esquecendo, que eles próprios eram intervenientes.

A ignorância faz parte do nosso quotidiano em quantidades verdadeiramente impressionantes.

A sabedoria popular ensina que ignorante não é aquele que não sabe, mas o que pensa que sabe e afinal de contas nada sabe.

Temos muitos espécimes deste calibre e há, até, pessoas que os baptizam de “chicos espertos”, ou seja, sabem tudo, afirmam a pés juntos que a terra é triangular e por isso gostam muito de se sentar a um dos cantos, mirando os “analfabetos” que por aí circulam em contra mão, não percebendo que são, eles próprios, os bobos da festa.

A somar ao seu chico espertismo, conseguem acumular uma sabedoria, decorada ou lida, em “sites”, “facebook”,” instagram”, “telegram” e por ai fora, onde pululam uma grande quantidade de doutorados em redes sociais, onde cada noticia, para eles, é uma realidade bastante real, independentemente de onde ela vier.

Obviamente que presunção e água benta, cada um toma a que quer.

Eu recordo-me que no tempo em que os animais falavam, todos tínhamos um ditado debaixo da língua quando surgia uma notícia e que era “sou como são Tomé, ver para crer” e aí tirávamos as dúvidas, se eram falsas ou verdadeiras, acrescentadas, em tamanho normal ou uma simples fumaça, pois sempre que havia fumo, é porque o fogo já por lá passou.

Nunca tanta informação nos entrou pela casa dentro e nunca tantos crédulos as assimilam com sofreguidão, dispostos a defender a sua dama, mesmo que ela seja virtual.

As redes sociais tomaram conta da nossa vida, tornando obsessivo o seu manuseamento e dia em que não entram, ficam doentes, nervosos ou deprimidos.

Assimilam tudo, sem questionarem a veracidade das publicações, venham elas de onde vierem, pois há especialistas em transformar mentiras em verdades.

Apesar de um baixo nível académico que infelizmente ainda existe em Portugal, a sabedoria que se pode observar nas redes sociais é verdadeiramente assombrosa.

Todos sabem, todos opinam e até citam as fontes aonde foram beber tanto conhecimento, esquecendo-se de dizer que a fonte estava seca, ou não entenderam nada do que lá estava.

Muitos estão cheios de vontade de participar e mostrar interesse pelas coisas do nosso tempo, mas falta-lhes o diálogo, a interacção com quem mais sabe, para assim, poderem tirar a limpo todo o manancial informativo que circula por aí.

Escutam as televisões e acreditam cegamente no discurso da maioria dos comentadores, nas notícias que lhes servem em catadupas durante grande parte do dia.

Se estivessem atentos, poderiam verificar que os textos das noticias, são, na esmagadora maioria, iguais, passados a papel químico e lidas em todos os canais.

Ora aí estão duas palavras que quase não se pronunciam hoje em dia, mas adiante.

As pessoas andam a puxar a carroça da vida, por caminhos esburacados, estreitos e sem sinalização minimamente esclarecedora quanto à direcção que devem tomar, devido à sua santa ignorância ou que os santinhos lhes doutrinaram.

Não tenho nada contra os ignorantes e até acho que tenho o dever de os ensinar, assim eles queiram aprender.

Costumo dizer que não se deve ajudar quem não o quer ser, mas neste caso concreto, eu vou insistindo até â exaustão, pois não gosto de ver gente ignorante e sabem porquê?

Andam muitos espertos a abusar da ignorância que eles próprios geraram, aproveitando-se desse facto para encherem os bolsos e rechearem as suas contas bancárias.

Um povo ignorante, segue por um caminho que não conhece, ainda por cima de noite, correndo o risco de ter um acidente e provocar a sua própria derrocada, sem se dar conta que é incentivado a sê-lo, ao lhe proporcionam meios e conteúdos que os irão atirar fora do caminho.

Não me quero repetir sobre o manancial de mentira, de falta de escrúpulos, de moral, de justiça que semeiam por todo o lado, transformando mentiras em verdades, proibindo o acesso das pessoas ao conhecimento e à verdade.

O mundo está carregado de carrascos, violadores de consciências, usurpadores de cultura, da liberdade e fomentadores da ignorância.

Os pobres dos ignorantes, que não sabem que o são, ouvem toda esta panóplia de gafanhotos, que voando em enormes bandos, destroem as culturas e a dignidade a quem só quer viver.

Infelizmente a ementa diária é a mentira, que usada como verdade, alimenta a ignorância.

Há quem não se importe de ser ignorante, não quer ser incomodado na sua vegetativa caminhada pela vida, pois nunca conheceram ou conhecerão os lados bons da vida.

Isolam-se e lamentam-se, lutando contra si próprios, sem esperança de vencerem essa luta.

Eu falo com eles, tento passar uma mensagem mais bonita, mais carregada de esperança e de boas intenções, mas muitos deles não me querem ouvir, não porque não tenham orelhas, mas porque lhes falta fé neles próprios.

Vou citar Mark Twain  “podemos andar com uma pistola carregada ou descarregada no bolso, mas nunca termos na nossa posse uma arma sem sabermos se ela está carregada ou não”. Essa ignorância pode levar-nos à morte.

Ter conhecimentos não significa que não somos ignorantes, porque não saber usar a sabedoria é que nos torna ignorantes, daí a necessidade de sermos ignorantes com a consciência de que o somos, mas nunca aceitarmos esse facto para nos deixarmos ir na onda ou sentirmo-nos inferiores a alguns “cultos” que se licenciaram, mas que no fundo são falsos sábios.

A grande sabedoria deles vem da matilha, que os prepara para serem os incendiários dos que, por algum motivo, não aprenderam a defender-se desta gentalha.

Uma palavra final para aqueles que, por razões alheias à sua vontade, fazem parte do clube dos ignorantes natos; não se deixem influenciar e juntem-se aos menos ignorantes para que possam, um dia, desmascarar as hostes dos mentirosos que assombram a humanidade, transformando-a mais justa e saudável.

 

 

 

 

Fernando Roldão

Texto escrito pelo antigo acordo ortográfico

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