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“A Liga 3 veio esbater diferenças, aumentou a competitividade e quem ficou a ganhar foi o futebol português”

O treinador do FC Oliveira do Hospital quer continuar a surpreender na Taça de Portugal e assegura que o grande objectivo do clube é a manutenção…

Natural da freguesia de Travanca de Lagos, Nuno Pedro deu os primeiros passos no futebol ao serviço do principal emblema do seu concelho: o FC Oliveira do Hospital. Terminou cedo a carreira de futebolista e, este ano, Nuno Pedro, 40 anos assumiu o comando técnico da equipa principal oliveirense. Licenciado em psicologia, o novo técnico surpreendeu ao afastar da Taça de Portugal duas equipas dos campeonatos profissionais: Estrela da Amadora (II Liga) e Rio Ave (I Liga) e pretende continuar em frente quando defrontar, na quarta eliminatória, o Länk Vilaverdense, uma equipa da Liga 3, propriedade de um grupo canadiano, com ambições de subir às provas profissionais. Nuno Pedro, em entrevista ao CBS, explica que o grande objectivo do clube é a manutenção na Liga 3, depois de um início de época atribulado. Considera que o futebol português está mais competitivo graças à forma como se trabalha a formação, a superior preparação dos treinadores e a influência da Liga 3. Esta prova, explica, veio possibilitar melhores condições de trabalho e oferecer uma maior visibilidade aos jogadores, até porque há transmissões directas e resumos dos jogos no canal 11. “Hoje um jogador da Liga 3 está em condições de entrar sem grandes dificuldades nos métodos de trabalho das equipas dos campeonatos superiores. Não há grandes diferenças”, conta. “Com o aumento da competitividade quem ganha é o futebol português”, atira.

CBS – O Länk Vilaverdense era o tipo de adversário que queria nesta fase da Taça de Portugal?

Nuno Pedro – Não foi certamente o sorteio ideal. Não por temer em demasia o adversário, mas porque gostava de continuar a jogar em casa e não queria uma deslocação longa a meio da semana. Além disso, nesta fase da prova, o FC Oliveira do Hospital, como a maioria dos clubes, gostaria de defrontar um dos grandes. Quer pela receita, quer pelo espectáculo que poderia oferecer aos adeptos. Mas o sorteio calhou assim e vamos procurar seguir em frente, conscientes que vamos defrontar uma equipa com muita qualidade e que aposta na subida à II Liga. Tem um orçamento fortíssimo, utiliza as últimas tecnologias de treino e já afastou da Taça de Portugal uma equipa da Liga principal (Portimonense, por 2-0). Estará certamente muito motivada. Mas é um jogo de Taça e tudo pode acontecer.

Depois de afastar o Estrela da Amadora e Rio Ave, o FC Oliveira do Hospital perdeu um pouco da vantagem surpresa?

Os adversários agora estão mais alerta. O Länk, por exemplo, sabe que no aspecto teórico, até porque joga em casa, é favorito, mas também percebe que se não estiver no seu melhor poderá ser surpreendido. E nós vamos jogar com objectivo de passar a eliminatória. Temos de nos superar e, como em qualquer jogo, há um factor implícito de sorte. Tudo pode acontecer.

Com estas surpresas da Taça de Portugal significa que o futebol português está mais competitivo?

Há, de facto, uma competitividade maior. Uma grande indefinição nos resultados. Este esbatimento de diferenças tem-se vindo a verificar nos últimos dois anos. Já é quase com alguma naturalidade que equipas da II e I Ligas caiem perante formações da Liga 3. Acredito que esta nova realidade é muito importante para o futebol português.

“Procuro que as minhas equipas pratiquem um futebol atractivo, que é o que está a acontecer aqui…”

Mas são os emblemas dos campeonatos profissionais que estão a perder capacidade ou são as equipas dos escalões inferiores que estão a trabalhar melhor?

Esta competitividade tem a ver, em minha opinião, claramente com o trabalho desenvolvido nos clubes dos escalões inferiores.  As equipas da I e II Liga continuam a ter todos os meios à sua disposição. Esta alteração prende-se com a forma mais profissional como se trabalha na Liga 3. Com a aposta destes clubes na formação e com a preparação dos treinadores. Os jogadores também têm outra capacidade anímica, em parte pela maior exposição mediática, e vão para os jogos para vencer. São aspectos que mudam tudo e que vai continuar a consolidar-se. Cada vez mais existirá uma aproximação entre a I, II e Liga 3 e mesmo o campeonato de Portugal. É algo que ajuda esta indústria e mesmo as selecções nacionais.

Qual foi o papel da Liga 3 neste fenómeno?

Muito importante. Conseguiu realizar uma triagem num Campeonato de Portugal que tinha 70 a 80 equipas. Eram demasiadas. A Liga 3 contou com uma promoção da Federação Portuguesa de Futebol que se revelou decisiva para este sucesso. O Canal 11 também veio ajudar muito, incluindo com as transmissões televisivas que passaram a mostrar um futebol que se pratica nesta prova e que pouco fica a dever aos escalões profissionais. Mesmo na forma como estes clubes trabalham. Hoje um jogador da Liga 3 entra sem grandes dificuldades nos métodos de trabalho dos grupos dos campeonatos superiores.

Que tipo de futebol procura incutir nas suas equipas?

Não tenho um futebol tipo muito marcado. Procuro que as minhas equipas pratiquem um futebol atractivo, que é o que está a acontecer aqui. Temos uma qualidade de jogo muito interessante, ainda para mais para uma equipa que tem um plantel totalmente renovado. Mais de 90 por cento de jogadores novos. Da época passada só ficaram três futebolistas. Temos um jogo apoiado, mas também podemos optar por um futebol mais directo. Temos equilíbrio, diversidade. Procuramos potenciar as nossas capacidades e explorar as debilidades dos adversários.

Está surpreendido com os resultados da equipa, até pelas circunstâncias que rodearam o início da época, com a indefinição directiva, a constituição do plantel, com muitos futebolistas a chegarem já com a época em andamento?

Não estou muito surpreendido com os resultados no campeonato. Estamos num ponto razoável a bom para a realidade do que aconteceu. Estou surpreendido, isso sim, com a qualidade de jogo. Com o entrosamento. Temos apresentado um futebol de qualidade, bastante prático e objectivo. Nesses aspectos estamos acima daquilo que esperava para esta fase da época. Não é fácil, principalmente quando muitos elementos chegam a conta-gotas e nem realizam a pré-época. Ainda hoje, há quatro ou cinco jogadores que ainda estão longe dos índices físicos dos colegas. Com o tempo, o entrosamento e a capacidade física dos jogadores vão aumentar.

O treinador de um clube do interior do país sente mais dificuldades para construir o plantel?

É muito complicado. É muito difícil recrutar jogadores locais e para atrair atletas de fora para Oliveira do Hospital é necessária toda uma logística que não é simples. Ainda por cima, quando temos um orçamento muito limitado para a realidade da Liga 3. Estamos certamente entre os dois mais baixos. A nosso favor contou o facto de os jogadores terem conhecimento que estão a tratar com pessoas sérias. Gente que não promete o que não pode cumprir. Depois existe também a vontade dos jogadores de competirem nesta prova. Sabem que é uma Liga que lhes pode dar uma visibilidade que não terão num escalão inferior.

O clube ao jogar em Tábua não acaba também por ser prejudicada?

No nosso estádio, com os nossos adeptos ali bem próximos, e com mais gente, acredito que seria mais fácil. Ainda assim, os adeptos têm correspondido e o futebol da equipa tem ajudado a puxar por eles. Não nos sentimos a jogar fora. Estou, contudo, convencido que competir em Oliveira do Hospital seria mais favorável para nós.

“Gosto de desafios e acredito que este será superado [atingir a manutenção]”

Qual é o objectivo do FC Oliveira do Hospital?

Queremos fazer o maior número de pontos possíveis com vista atingirmos a manutenção o mais rápido possível. O ideal seria ficar entre os primeiros quatro classificados. Garantia a manutenção e a entrada na luta pela subida. É algo extremamente difícil. Se cairmos para um cenário de luta pela manutenção [oito das 12 equipas] acreditamos que vamos conseguir, embora esta época seja tudo muito complicado. Por vários factores. Descem quatro clubes, o dobro da época passada, e, além disso, a Liga está mais forte e competitiva. Depois, os nossos adversários têm outros orçamentos. Não é uma desculpa. Quando vim para este clube conhecia as circunstâncias. Hoje viria da mesma forma. Gosto de desafios e acredito que este será superado. Temos na estrutura gente séria que não promete o que não pode cumprir e isso serve para nos dar tranquilidade para trabalhar. É um aspecto muito importante.

Como treinador também tem ambições…

Procuro evoluir e melhorar todos os dias. Trabalhar para estar preparado para uma eventual oportunidade num campeonato profissional. Para já quero atingir os objectivos com FC Oliveira do Hospital. Se surgir uma oportunidade mais ambiciosa muito bem. Se puder continuar no Oliveira do Hospital também será importante. É um clube especial para mim. O que tiver de acontecer acontecerá.

A sua formação académica superior tem sido uma ferramenta útil?

Venho da área da psicologia [licenciado pela Universidade de Coimbra] e tem-se revelado importante. Ajuda-me a perceber algumas coisas, como o social, o indivíduo ou o individual. É importante quando os pequenos pormenores podem fazer a diferença. Espero que ajude o FC Oliveira do Hospital a atingir os seus objectivos….

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