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A mensagem. Autor: Fernando Roldão

Vivemos, mais uma vez a época da felicidade, do amor, da cortesia, do perdão, da boa vontade e tantos outros momentos de louvar a paz e a concórdia.

O mundo, por esta altura, salvo raras excepções, vive coberto por uma áurea angelical, que nos mostra quão hipócrita é a raça humana.

Chego a ter medo de tanta bondade e ter sido injusto com algumas críticas que fiz durante o ano, mas depois, belisco-me, comprovando que, afinal, não errei.

Durante onze meses e meio não quiseram saber se o amigo, familiar ou colega, estavam bem.

As mensagens de feliz natal, próspero ano novo, chegam em quantidades industriais, sem saberem se os receptores das mesmas ainda pertencem ao número dos vivos, se estão com a família ou sozinhos, pois o que importa é mesmo descongelar as mensagens cuidadosamente guardadas para voltar a servir num ciclo balofo.

Já disse muitas vezes, que dispenso este tipo de manifestações estereotipadas, preferindo um simples olá, enviado durante o ano.

Prefiro essa singela mensagem verdadeiramente personalizada, que nos faz sentir ligados à pessoa que a enviou.

Acrescento que estou a falar de redes sociais, que na sua esmagadora maioria, são utilizadas quase diariamente, logo sem desculpas, para, pelo menos uma vez por mês dizer olá.

Aquele que, por força da distância ou desconhecimento de endereço, está fora deste meu escrito e são tantos a precisar desse simples olá.

Quantas e quantas vezes envio mensagens para pessoas dos mais variados relacionamentos, na tentativa de reatar o tempo de ausência ou refazer o castelo de cartas que se desmoronou por acção do tempo, mas a realidade é muito diferente.

Certas pessoas têm telemóveis de última geração, que só lhes falta mesmo é tirar cafés e não os usam para as principais tarefas para a qual foram fabricados; receber e fazer chamadas.

Já cansei de ligar para o éter, de o poluir com vibrações electromagnéticas, para no final não obter resposta nenhuma, ficando a falar sozinho, coisas que não vou escrever aqui.

Esta época do ano é um pouco como aquela tira de papel, impregnada de cola, que serve para atrair as incomodas moscas que nos atormentam o nosso sossego, pois todos se lembram de enviar uma mensagem, descongelada e que depois servirá para a próxima “saison”.

Na maior parte das vezes são mensagens de “copipast” , sem nenhum sentimento pessoal ou ligação afectiva para como destinatário.

Carregam no botão e aí vão elas, carregadas de nada e cheias de conteúdos desfasados da realidade entre o emissor e o receptor.

Sem querer limpar a minha culpa nalgumas situações, dado que não sou perfeito, pois utilizo o princípio da reciprocidade ou seja, sou para os outros aquilo que os outros são para mim.

Longe vão os tempos em que as minhas antenas receptoras registavam centenas de mensagens e o telefone fazia um autêntico concerto com tanta música que dele emanava.

Depois de longas reflexões sobre o meu percurso, um dado é comum a todas elas; status!

Enquanto servi os interesses desses meus “amigos”, as lindas (por fora) mensagens que recebia nesta altura, eram feias por dentro.

Depois que entrei no clube dos reformados, as mensagens, telefonemas e afins foram diminuindo, tão drasticamente, que houve alturas em que pensei que estava sozinho na terra.

Sou como aquele músico, que mesmo tocando menos bem, tinha muitos contratos, pois era jovem, depois que se esmerou e refinou, passou a ter poucos contratos, pois agora é velho.

Os símbolos de classe social, de riqueza, não são unicamente a roupa de marca, o automóvel topo de gama, os telemóveis vistosos, passaram a ser medidos pelo número de amigos que detêm nas redes sociais, logo pelo comboio de mensagens que sai da sua estação.

O afastamento das pessoas deve-se, em grande parte, às novas tecnologias, que são insensíveis a um abraço, a uma conversa frente a frente e são desprovidas de sentimentos.

O poder já percebeu isso há muito tempo e tanto assim é, que nos colocaram em prisão domiciliária durante quase dois anos, sem razão palpável, unicamente para servirem os seus interesses pessoais e dos grupos onde estão inseridos.

Vivemos uma época de verdadeira “guerrilha” sentimental, onde se fala de amor levianamente, confunde-se amizade com interesse, solidariedade com exibicionismo e altruísmo com “show-off”.

Mistura-se a verdade com a mentira, cultiva-se a mediocridade, cantam-se hinos ao capital e defendem-se valores corruptos.

O funeral do humanismo está feito.

 

 

 

Autor: Fernando Roldão

Texto escrito pelo antigo acordo ortográfico

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