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A mentira. Autor: Fernando Roldão

A mentira é algo que me choca, me perturba e me tira do sério, sobretudo quando ela vem de alguém em quem depositámos confiança ou de instituições, que têm por obrigação dar o exemplo e simultaneamente, o dever de nos proteger.

A mentira pode ter consequências graves na nossa vida, enquanto cidadãos, nos destinos de uma nação e até, porque não, do mundo.

É nossa obrigação ensinar as crianças a não mentir, ensinar e prepará-las para o futuro, no sentido de erradicar esse vírus, que ataca e corrói as personalidades dos indivíduos.

Todos já tivemos experiências negativas e sofremos no espírito, os efeitos adversos de uma mentira e que, em alguns casos, teve consequências desastrosas, inclusive físicas.

A mentira pode chegar a estados muitos graves, um dos quais, é o boato, que não é mais do que colocar em circulação “dinheiro falso”, na ausência do verdadeiro.

Não vou escrever sobre o boato, pois entendo que é merecedor de uma crónica sobre este fenómeno, que é tão ou mais corrosivo do que o ácido sulfúrico.

Existe um outro estado que conduzirá, eventualmente à mentira, que é a omissão.

Muitos dirão que omitir, não é mentir, isso pode ser,de facto, mas há que calcular os riscos, lidando com este estado com muita cautela para evitar atingir outro patamar.

No século XX um indivíduo, de seu nome Paul Joseph Goebbels, conseguiu fazer com que a mentira, repetida muitas vezes, se transformasse em verdade.

Uma mente hábil na área da comunicação, chegando ao ponto de produzir um filme, onde um marido tinha posto fim à vida da sua esposa que estava em sofrimento.

Alguns poderão argumentar que se tratava de um acto misericordioso para acabar com o sofrimento da senhora, que chegou aos nossos dias com o nome de eutanásia.

Claro que na sua mente perversa e hábil, ele não pretendia sensibilizar as pessoas para um acto, quase solidário, que pusesse fim a uma vida sem sentido, aliviando o sofrimento, transformando o executor, num piedoso.

Ele queria, e conseguiu, mentalizar a opinião pública para o facto de que seria uma dádiva eliminar pessoas com defeitos ou doenças contagiosas, contribuindo assim para por termo ao sofrimento dos não “normais”, afastando os perigosos, quando estes tentavam conviver com os puros e os eleitos.

As campanhas que levou acabo, apoiadas pelo regime, levaram ao genocídio de milhões de inocentes, entre eles, crianças.

Só uma mente doentia, com graves índices de narcisismo e poder desmedido, poderia utilizar a mentira como arma de guerra, conspurcando uma nação inteira e os países ocupados, onde os colaboracionistas eram o braço “armado” das suas ideias, com a cumplicidade das elites e daqueles que acordavam de manhã, apavorados, pensando que talvez fosse esse o último dia das suas vidas, logo, abertos a colaborarem.

Felizmente que no julgamento de Nuremberg, logo após o final da guerra, os “obedientes”, os “doutrinadores”, os colaboracionistas” e os “seguidores” de ordens, foram igualmente condenados, alguns, inclusivamente executados.

Não há desenvolvimento da mentira, se não houver cadeia de transmissão e por isso, eu aconselho os “engraxadores”, que repensem, em serem seguidores da mentira e pensando, que daí lhes possam advir vantagens.

A mentira, como diz o povo, tem perna curta ou até, que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo e eu acrescento, quem mente por conta de alguém, um dia ficará isolado e arrependido de o ter feito.

Vou contar uma pequena fábula, publicada em 31 de Março de 1668, por um senhor chamado Jean de La Fontaine, onde ele, com a sua perspicácia e inteligência, desnudava os efeitos perversos da mentira e as consequências para quem a usava.

Um jovem pastor levava o seu rebanho de ovelhas a pastar para a serra e às vezes aborrecia-se por estar tanto tempo sozinho.

Um dia pensou numa brincadeira, para conseguir ter companhia, se divertir um pouco e se melhor o pensou, melhor o fez.

Colocou as mãos em forma de cano em frente da sua boca e virando-se para o povoado, gritou; “Lobo! Lobo!”

Os camponeses, com o seu habitual espírito de entre ajuda, reagiram ao seu apelo e foram em seu auxílio. Alguns não gostaram da graça, mas ainda assim, muitos ficaram a fazer-lhe companhia.

O jovem pastor ficou contente e achou que poderia repetir a mentira mais uma vez e assim o fez.

Desta segunda vez, poucos foram os que acorreram ao apelo do pastor, que mais uma vez foi alvo de críticas e avisos.

Alguns dias depois, o lobo saiu da floresta e foi direito às ovelhas para iniciar o seu banquete. O jovem pastor, gritou a plenos pulmões, com quanta energia tinha, a pedir ajuda aos aldeões, a fim de evitar o massacre das suas ovelhas. Infelizmente, para o rebanho, as ajudas não chegaram e só não teve consequências para ele, porque fugiu a sete pés em direcção ao povoado.

Ao chegar à aldeia barafustou com todos e a todos culpou da sua desgraça, esquecendo que o principal culpado, era ele mesmo.

O homem mais velho, presidente do conselho dos anciãos, respondeu-lhe dizendo, “que na boca de um mentiroso, o certo é duvidoso”.

Em Janeiro de 2020 ouvi a directora de saúde dizer que uma doença inesperada, não se propagava aos humanos, visto ter tido origem num animal.

Algum tempo depois, essa mesma senhora, dizia que não ia haver problemas, porque o centro da eclosão da doença, ficava num país muito distante e com poucas probabilidades de chegar até nós.

Passadas algumas semanas e perante o que nas noticias se escutava diariamente, ela afirmou que estávamos preparados e que poderíamos estar seguros, porque havia um plano de contenção.

Em Março, ouvimos, preocupados que tinha acontecido o primeiro óbito provocado pelo vírus, porque este tinha percorrido uma distância enorme e afinal era contagioso para o ser humano.

Surgiram várias questões para os indígenas e uma delas foi o uso de máscara de protecção das vias respiratórias.

A senhora, disse alto e bom som, que não seriam precisas, pois davam uma falsa sensação de segurança, donde se poderia concluir, que seriam ineficazes, não sendo, por isso, recomendável o seu uso.

Os dias foram passando e as noticias, vertiginosamente, foram chegando, assustadoras e o rebanho estava em perigo.

Entretanto as pessoas ficaram impossibilitadas de ir até à serra passear, visitar a família e os amigos, com medo de ficarem doentes. Alguns meses depois, o discurso que a referida senhora fazia ao povo, era de esperança, que os cientistas estavam estudando e preparando um liquido salvador, que iria permitir que as pessoas pudessem ir de novo à vida, sem restrições, sem receio do vírus mau, exterminador de populações.

Um dia a luz surgiu ao fim do túnel, onde um comboio, escoltado por milícias, transportava o tal líquido milagroso, que lhes permitiria regressar à rotina em segurança, podendo assim acalmar o estômago, refazer as suas vidas e prosseguir a sua caminhada natural pelos caminhos da vida.

Os cidadãos, quais ovelhas de um rebanho, fizeram fila, ansiosas e ao mesmo tempo, temerosos, para poderem beber o elixir da vida.

O encanto durou pouco tempo, pois continuaram impedidas de ir á praia, ao restaurante, sair do concelho, correr pelos jardins, praticar desporto saudável e visitar os amigos.,

Em tudo que era sitio, as noticias eram arrasadoras das esperanças, pois os corpos continuavam a tombar e a morrer.

A ansiedade e a incerteza no futuro, instalou-se no rebanho e alguns iluminados, desejosos de explicações, pediam insistentemente respostas à senhora directora e respectiva equipa, obtendo um silêncio comprometedor, sofrendo uma censura e um silêncio de fazer lembrar outros tempos.

As explicações tardavam. O desespero apoderava-se dos cidadãos, que tinham as suas responsabilidades e as suas vidas para viver, em liberdade.

Um dia chegou uma outra notícia, com assumida certeza da parte dos especialistas, de que tinham que beber mais um copo do tal líquido (o segundo) para voltarem à liberdade.

Esperançados, todos foram de novo para as filas, acreditando que dessa é que era de vez e que tudo voltaria à normalidade.

Os camponeses, estavam felizes por poderem voltar a alimentar e exercitar as pernas, mas um dia acordaram sobressaltados com as noticias, fresquinhas, acabadinhas de chegar e que diziam, que afinal, tinham que tomar mais uma dose do soro salvador (terceira).

Ficaram, em pânico e de repente, alguns sábios lembraram-se da história do La Fontaine e começaram a falar com os compatriotas sobre o assunto, instalando-se entre eles um mar de dúvidas, em que as perguntas, pertinentes não obtinham respostas satisfatórias.

 

 

Autor: Fernando Roldão

Texto escrito pelo antigo acordo ortográfico

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