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“A minha luta ainda é de tentar que o sr presidente caia nele e veja que só foi eleito para ser presidente e não para ser dono da Câmara”

António Lopes admite em entrevista ao correiodabeiraserra.com que a solução política que defendeu  “não foi a melhor”. A apresentar um pedido público de desculpas aos oliveirenses, António Lopes avisa os que o aconselham a ir embora que “bem podem esperar sentados”, porque a sua luta ainda é de fazer perceber a José Carlos Alexandrino que “só foi eleito para ser presidente e não para ser dono da Câmara Municipal”.

Correio da Beira Serra– Quase ficou célebre a frase do “entramos juntos e saímos juntos”. Esperava pela destituição de que foi alvo na última reunião da Assembleia Municipal?Ou a polémica em torno do regimento já era a antecipação deste desfecho?
António Lopes – Bem. O senhor Presidente da Câmara só não saiu porque não quis ou não é pessoa de palavra. Eu ainda fiquei na Assembleia Municipal (AM) para lhe dar um tempo para ele se decidir… O regimento é uma consequência, para me tentarem controlar e passou a ser mais um elemento perturbador. É evidente que a partir do momento em que, no dia 28 de dezembro, eu abro a Assembleia Municipal (AM) a dizer que me dissociava do PS, não é preciso ser um expert em política para saber que a rutura era uma questão de tempo. A política tem regras. Pese o facto de ser eleito como independente e de se ter proclamado até à exaustão que era uma candidatura supra partidária, é óbvio que não me iam perdoar. Se eu sou eleito num projeto que teve a expressão eleitoral que teve e, passados três meses, digo que não me identifico com o rumo , uma de duas coisas têm que acontecer: Ou o projeto regressa à matriz original de “tudo pelas pessoas” (todas), e a defesa dos interesses do concelho, ou segue o rumo que está a ter que é o de satisfazer determinados interesses.

CBS – Quer com isso dizer que em dezembro passado já previa este desfecho?
AL – Claro. Como é que alguém minimamente consciente e com alguma experiência política pode pensar que podia fazer um mandato inteiro em oposição à força maioritária, no lugar de presidente?Admiti essa hipótese por respeito da vontade do eleitorado mas, também, por me ter apresentado como independente e se ter proclamado o tal princípio do supra partidarismo que, como se provou , foi uma falácia eleitoral. Sei demais como funcionam os partidos de poder. Tentei “mexer as águas” no sentido de se corrigir e de se ir ao encontro do que se prometeu ao eleitorado, de se introduzirem as boas práticas democráticas e prestigiar a Assembleia. Seguiu-se outro caminho. Naturalmente, comigo não.. Aquilo que eu prometi tentarei cumprir, independentemente do lugar em que estiver. Fica claro que fui impedido de cumprir e fazer cumprir aquilo que são as funções e competências previstas na lei. Está claro que o PS local e o Senhor presidente da Câmara convivem mal com a democracia e a legalidade. Até hoje ainda estou à espera que me digam onde e quando exorbitei as minhas competências. Estou farto de enumerar o contrário.

CBS – Arrepende-se de na célebre conferência ter recuado naquela que foi a tomada de posição assumida na Assembleia Municipal de dezembro?
AL – Eu não me arrependo de nada porque não recuei em nada. E para se perceber, é preciso esclarecer uma situação. O sr. Presidente da Câmara Municipal (CM) partiu do princípio que o grande problema do António Lopes era a desconsideração por não ter sido materializada a sua sugestão de nomeação de uma pessoa, para um cargo de nomeação política, aquando da entrada do vereador Paulo Rocha, a meio do primeiro mandato. É evidente que esse foi o grande motivo que envenenou toda a relação porque houve quem quisesse resolver dentro da Câmara diferendos que deviam ser resolvidos fora. O Sr. Presidente da Câmara assumiu um compromisso comigo, criei-lhe uma maioria que me trouxe algumas inimizades por a ter permitido, teve o lugar vago o mandato todo. Desculpavam-se que não podiam admitir porque a lei não deixava…Eu pensei que tivessem preenchido a vaga antes e não o tivessem dito. Que iam ver de outra solução. Em Janeiro de 2013 admitiram mais uma “bandeirinha”solteira, vinda de Coimbra, na ADI. Aí “saltou-me a tampa”.Pus o lugar à disposição. Acabaram por meter a pessoa na Eptoliva e, agora, vieram acusar-me de interferir na escola e que o diretor tinha posto o lugar à disposição. Dei-lhe os parabéns pela verticalidade. Só que o compromisso comigo era para cargos de nomeação política, porque me recuso e abomino entradas sem concurso transparente para qualquer lugar da administração. Tenho a certeza que não foi por causa do António Lopes que o diretor abandonou as funções que tinha. A pessoa não entrou, porque o presidente da Comissão Política Concelhia da época, tinha incompatibilidade com essa pessoa e entendeu resolvê-la dentro da Câmara Municipal. Pese isso ter-me sido negado, há poucos dias pelo próprio. Neste momento não sei quem falou verdade. Nem um, nem outro, tiveram coragem, nem hombridade de, em tempo útil, me dar uma explicação. Naturalmente este assunto foi criando mal estar, mas, não é, nem foi, a causa principal. O presidente da Câmara achava que o meu problema era publicação do jornal que a Câmara decidiu passar a editar e que eu chamo de Caras. E pensava que eu queria fazer um “ajuste de contas” com o ex diretor deste jornal (Correio da Beira Serra). Eu tenho adversários políticos. Não cultivo inimigos. E não considero a pessoa em questão nem adversária, nem inimiga. Posso é ter questões de ética considerando a postura que ele teve no passado relativamente ao anterior executivo. Um dos primeiros desencontros com o presidente da CM foi essa admissão para a BLC3, logo no início do mandato que do ponto de vista ético e político considerei e considero um erro. Foi -me dito que foram “pressões ao mais alto nível” . As questões eram estas, mas eram também as admissões dos “nossos”, membros do PS e aliados. Mas a questão de fundo era,e é,a interpretação que o senhor presidente faz das competências da Assembleia Municipal. O senhor presidente achou que cumprindo, como cumpriu o acordo quanto à nomeação política eu ficava satisfeito. Quanto ao jornal fiquei convicto que o mesmo ia mudar o formato e o conteúdo, quanto ao pessoal que iria haver regras mínimas. Quanto à Assembleia a intenção era ir gerindo. Foi neste contexto que decidi recuar.

CBS – Mas não foi bem sucedido naquelas intenções…
AL- O sr. Presidente pensou que eu tinha abdicado das minhas responsabilidades, como se isso fosse possível do ponto de vista legal. Cumprir a lei não é um favor é um dever. Nós vemos o que se passa hoje em Portugal. O governo não respeita a constituição, toda agente questiona toda a gente. Estamos num sistema político onde a democracia está muito longe de ser realizada. Como diz o meu amigo João Dinis, temos muitos salazaritos.

O sr. presidente da Câmara achou que tinha comprado o silêncio e a anuência do António Lopes ao ter admitido a tal pessoa que já era um acordo de outubro de 2011 e que era uma situação normalíssima, porque a pessoa faz parte da Comissão Política e já foi candidata à Câmara. Houve quem dissesse que foi por causa de um apartamento, mas não foi por causa de apartamento nenhum, porque a escritura foi feita em 28/9/2010 quando ainda não se falava do assunto e recebi um cheque bancário da CG Depósitos nessa data que está à disposição de quem o quiser ver.

Pensava eu que, com o abanão que tinha dado em 28 de dezembro as coisas se iriam encaminhar no sentido da transparência, de olharmos de igual modo para todos os oliveirenses e de haver critérios mínimos de seleção das pessoas. Porque eu não sou contra ninguém, contra POCs ou estágios, lamento é que as pessoas tenham que mendigar um emprego por um ordenado de 500 Euros, independentemente das habilitações que tenham. Acho que o município deve tentar encontrar colocações onde as pessoas se sintam realizadas e possam continuar a sua formação.

Não mudou nada. O jornal voltou a sair com a mesma configuração. Numa altura de austeridade, em que se corta no subsídio de apoio à natalidade, um político consciente e responsável não entra por esses caminhos. Depois o deficit que começou a surgir este ano. O preço da maioria está a aparecer…

Eles perceberam e também percebi eu, que era melhor estar dentro do que estar fora. Perceberam eles, a determinado momento, que eu não mudava, era um empecilho ao seu projeto de “assalto ao poder”. Entenda-se satisfação das clientelas. E decidiram pela situação de facto. Desrespeitar o voto do eleitorado e, 24  decidirem por quase 8 mil .É a democracia que temos. Porquê? Porque não digo, nem faço Amém…

“… desde a primeira hora em que este mandato começou, eu tive noção de que estávamos perante um projeto político não de um partido ou de um grupo, mas de uma pessoa”

 

OLYMPUS DIGITAL CAMERACBS- Como é que justifica um 1º mandato quase sem sobressaltos?
AL – No primeiro mandato, tentei ir moldando as coisas por dentro, pela tal magistratura de influência. Nos primeiros dois anos foi funcionando, mas nunca funcionou como devia Nós ainda nem tínhamos tomado posse no primeiro mandato e já tínhamos o problema de um licenciamento para resolver que foi motivo de discussão muitas vezes entre mim e o presidente da Câmara . Depois começaram a vir outros problemas parecidos, fui criticando e dando a minha opinião e o senhor presidente foi resolvendo, quase sempre, à maneira dele… Claro que não se faz uma crise por dá cá aquela palha e fui aguentando.

Depois tínhamos uma situação de minoria que as pessoas não querem perceber. O presidente da Assembleia Municipal foi eleito à segunda vez e há três forças políticas que se reivindicam que me apoiaram. Dois elementos do PSD também juram a pés juntos que votaram em mim. Eu entendi que devia ter a tal magistratura de influência, fui apelando ao diálogo e as coisas foram andando, funcionalmente praticamente como dantes. Apenas mudou o tal diálogo, os “beijinhos” como costumo dizer , a política Pepsodente.

A grande questão é que, desde a primeira hora em que este mandato começou, eu tive noção de que estávamos perante um projeto político não de um partido ou de um grupo, mas de uma pessoa. Daí o “Suprapartidário”que tanto incomodava o PS. As vezes que ouvi as pessoas a criticar!!! E explico porquê. Nas eleições distritais do partido, o sr. presidente da Câmara esteve sempre “em cima do muro”. Com o Vitor Batista, versus Mário Ruivo ele foi ao jantar dos dois. Eu, por solidariedade estive sempre com a decisão da Comissão Política. Moral e eticamente achava que não poderia estar dissonante da posição da Concelhia e não tenho nada contra o Vitor Batista, o Mário Ruivo e, depois, o Pedro Coimbra. Já o sr. Presidente estava com todos, para estar com quem ganhasse.
No primeiro momento, e o Dr. Pedro Coimbra tinha sido eleito há uma semana , o presidente de Câmara disse no Sr. das Almas que “se o partido socialista me convidar eu estou disponível”. Na altura eu disse ao presidente da Câmara que mais parecia aquelas raparigas encalhadas que estão à espera do primeiro casamento que lhe apareça. Disse-lhe que ele não esteve bem politicamente, porque o Dr. Pedro Coimbra como não teve o apoio da Concelhia, podia querer convidar outra pessoa e não lhe deu oportunidade nenhuma. O sr. Presidente da CM só não percebe de política quando não quer.

Qual não é o meu espanto quando, na apresentação de candidaturas em Galizes, em que o presidente da Assembleia Municipal não compareceu, e não foi por estar doente ou andar doido – tal como já não tinha estado antes na homenagem ao Dr. Almeida Santos, pessoa que prezo muito,  e a que me custou muito faltar – o sr presidente disse que não negociava a sua lista com o partido socialista. Na altura enviei uma mensagem ao presidente da Câmara e ao líder do partido socialista a perguntar quem era o candidato pelo partido socialista. Depois fui aliciado a fazer a minha lista para a AM e eu disse que o partido é que sabia quem queria lá para defender o partido. Se eu tenho seguido esse conselho, se calhar teria sido agora outro o resultado, mas não estou arrependido porque é assim que eu entendo a política. A política é para mim uma arte nobre e eu nunca tive nenhum interesse pessoal. Toda a gente sabe que ando aqui por zero euros .Se calhar é por isso que andam tão empenhados numa miserável campanha de desacreditação da minha pessoa. Incomodo?Sei que sim…É o lado para onde durmo melhor… Dá para perceber a forma de estar na política de certas pessoas.. Quando não há ideias, projetos e princípios cai-se nesta lama. Se eu publicasse as dívidas da classe dirigente para comigo, mais de duzentos mil, sobrava muito dinheiro. Não desço é a esse nível. Como não percebo que haja quem se preste a tal baixaria. Se mais alguma coisa fosse necessária para aferir o estado da nossa democracia concelhia, apreciem a imprensa regional,cujo financiamento já denunciei na AM.

CBS – Sabendo o que sabia do mandato anterior, porque é que aceitou ser candidato e pediu ao povo uma maioria absoluta?
AL – Começou a entrevista com a resposta. O sr. Presidente foi dizendo sempre que entramos juntos e saímos juntos e aceitei ser candidato porque sou uma pessoa generosa e bem formada e porque me sentia “o pai da criança”, porque fui eu que indiquei o nome do sr presidente da Câmara para candidato, e tinha para mim a esperança de tentar encaminhar o projeto para as vias normais em democracia.
Logo no início do primeiro mandato avisei o sr .presidente para ter cuidado com “os cantos de sereia”, porque o dia em que me apercebesse que ele estava a entrar “no canto da sereia”, teria o mesmo tratamento que o anterior presidente. Parece que ele não acreditou.

Digo com mágoa que o sr presidente da Câmara do ponto de vista da cultura política não é melhor que o anterior e do ponto de vista de cultura democrática também não . A única diferença que faz é aquilo a que eu chamo de política pepsodent, que é o sorrizinho. Aquilo a que temos vindo a assistir desde que se apercebeu que eu não cedia é sintomático..! Foi-se o “sorrizinho”.Veio a trica e vingança, não sei bem de quê..! Há manifestações públicas do atual presidente, inclusivé em campanha, que são a prova provada da falta de cultura democrática em relação a pessoas que abraçaram outros projetos. Não se ponde andar a vender o diálogo e depois ter expressões de totalitarismo e de menos respeito pelas opções de cada um Há que convencer, não que vencer…

Neste segundo mandato, as pessoas viram-se com uma maioria absoluta que vai trazer muitos problemas ao Partido Socialista. Foram feitas listas PS nas freguesias, que foram preteridas para se conseguir esta maioria a qualquer custo. Os ideais, os princípios e a ética que devem enformar a política, esqueceu-se . Assistiu-se a um assédio por parte do presidente da Câmara aos presidentes de Junta de Freguesia para o seu projeto pessoal, destruindo o partido que de certeza se vai ressentir nas próximas eleições. Eu próprio informei alguns que não iam ser os candidatos pois, só nos últimos dias ganharam coragem para os informar. Eu sei qual foi a reação… Mandaram arranjar as listas “na horizontal” que depois se via a ordem. A ordem foi ficarem todos fora, nalguns casos. Mas pronto. Agora dizem que é o PS…e que me acolheram…

“… andava aqui por zero euros, como vou continuar a andar. Por um documento que vi na concorrência, parece que , agora, vai para as finanças. Espero que publiquem outros que vou solicitar…”

CBS – Fez eco de situações de favorecimento de gente ligada ao PS e questiona a legalidade de contratos através da ADESA, entre outras situações… isto já não acontecia no passado? Só agora é que as situações se alteraram?
AL – Acontecia. No primeiro mandato essa política era especialmente virada para pessoas adversárias. Houve um carinho especial quer com os presidentes Junta do PSD, que eu compreendo porque faziam falta à maioria, quer com pessoas que pudessem ser, nos seus meios, líderes de opinião. Não foi por acaso que a maioria aconteceu. Em privado perguntei porque é que eram aquelas pessoas e o presidente vinha com a explicação de que eram os mais pobres ou porque estavam a passar uma fase menos boa. Fui sendo sensível. Mas havia críticas dentro do PS . Com o aproximar das eleições assistimos a uma política puramente eleitoralista. Também sabemos que é assim, são as más regras do jogo. Alimentava a esperança de que, com uma maioria absoluta, se ia fazer um projeto de raiz construindo uma democracia que efetivamente não existe em Oliveira do Hospital e para o que contribui o tal cariz de pendor pessoal atrás descrito do “não negoceio a lista” e a imposição de certas candidaturas às juntas em prejuízo dos candidatos PS. Esse foi o meu erro. Chegado às eleições eu disse: acabou-se a festa e pedi para por os eleitos a trabalhar. O objetivo era definir regras e criar a transparência. É na AM que está a representatividade e o poder do povo, tal como está previsto no artº 239 da constituição, na carta europeia da autonomia local e no artigo 5º e 44º da lei das autarquias. Infelizmente no nosso país assim não é, a maioria dos presidentes das AM são ministros, ou são deputados e não querem saber das AMs para nada. É só para emprestar determinado prestígio e não cumprem a lei. Eu comprei os livrinhos dos principais pensadores do processo autárquico que fiz questão de fazer chegar ao sr. presidentes dos grupos parlamentares. As pessoas sabem qual era o sentimento do sr presidente da AM e os seus objetivos, toda a gente sabe que eu não andava aqui por um projeto pessoal, que me foi oferecido e não quis, e que andava aqui por zero euros, como vou continuar a andar. Por um documento que vi na concorrência, parece que , agora, vai para as finanças. Espero que publiquem outros que vou solicitar…Toda agente sabe que eu ando aqui pelo concelho, nisso acho que fui um exemplo, que não colhe,porque as pessoas só olham para a política como uma forma de resolver os seus problemas, como um emprego para as pessoas com dificuldade em singrar na vida de outra maneira.
O curioso é que o António Lopes faz referência a alguma coisa e é logo do contra. Não sou contra nada. O presidente da AM era filho de um mineiro, o presidente do PS era filho de um agricultor e o presidente da Câmara era filho de um pedreiro, parece que o único que não se esqueceu das origens fui eu.
Um campo de futebol? Pois com certeza. Apoio para a juventude se divertir? Pois com certeza. E o estudante que não estuda porque o pai não tem condições? E o pai que não tem comer para dar ao filho? Então qual é que é a minha opção? De certeza que a do campo de futebol e a festa são última coisa a fazer. Nós fazemos aqui festas a pretexto de tudo e de nada e em termos de sumo e de desenvolvimento o que é que isto deixa? Não deixa nada.

CBS – Tem sido muito crítico em relação ao modelo da Feira do Queijo. Em particular aponta o dedo ao dinheiro gasto pela câmara com as pessoas que vêm de fora do concelho. Afinal, o que é que está mal e que, anteriormente, não teve coragem para denunciar?
AL – O que está mal, é que a Feira do Queijo não é feita para desenvolver o produto e a qualidade do produto. Tenho dúvidas de que o sr. Presidente da Câmara saiba quanto é que é o rebanho de Oliveira do Hospital e quantas são as ovelhas especialmente dotadas para o queijo Serra da Estrela. Também tenho dúvidas de que ele sabia a quantidade de queijo que se produz no concelho. A feira vende três toneladas de queijo. Custou no ano passado 60 mil e qualquer coisa euros. Mas o custo foi bastante mais. Os pastores vendem o queijo a 11 ou 12 euros e a CM pagou mais de 20 Euros por cada kg de queijo. O presidente da CM ao mudar a feira para o espaço mais amplo começou a pensar como havia de contrariar o anterior presidente da Câmara, quando disse que levar a feira lá para baixo era matá-la. É evidente que eu entendo porque é que ele o disse, porque meter 200 ou 300 pessoas num espaço como aquele, pareciam meia dúzia de doidinhos. O presidente achou que a maneira de resolver o problema era pagar o transporte e o almoço a uma série de gente. A informação que tenho é que até hotel foi pago a algumas pessoas. E o sr. Presidente na última Assembleia para desviar as atenções foi dizendo que eu era intriguista e pessoa mal formada e nem merecia estar ao lado dele porque disse que ele andava a dormir em hotéis de luxo. O que eu disse na reunião do secretariado do PS destinada a discutir o regimento foi que o meu problema não era apenas o regimento, mas era também a orientação que leva a vida municipal, porque infelizmente neste PS não se discute. Eu estive lá 4 anos e oito meses e nunca recebi uma orientação do PS, as orientações que havia eram do projeto pessoal.
Eu pedi as contas da Expo H e estavam lá 149 mil euros… a volta a Portugal eram mais 50 mil euros e na feira do queijo do ano passado foram 60 mil euros. Com a natalidade são 70 mil. Com o apoio aos estudantes universitários são cem mil…

CBS – Manifestou intenção de solicitar a intervenção de quem de direito para averiguar a legalidade das ações deste executivo. O que pretende provar?
AL – Não pretendo provar nada. À mulher de César não basta ser séria, também tem que parecer. Ao longo dos tempos fui alertando o presidente da Câmara para vários assuntos, desde o tal licenciamento à questão dos almoços das festas. Eu já passei por muita festa e nunca ninguém me pagou o almoço e muito menos o hotel e transporte, tenho dúvidas quanto à legalidade dessa situação.
Enquanto estive no poder, estava escrutinável. Não abdico de considerar o sr presidente da Assembleia Municipal o principal responsável do concelho e não posso dizer isso por questão de
pseudo vaidade, mas pela consciência de responsabilidade que eu sinto e atribuo ao cargo.
Se há 3 ou 4 situações de que eu tenho dúvidas, quero ir descansado. Não quero ser acusado de que estive lá e deixei passar carros e camionetas, falei, falei e era igual como em outros tempos. Eu falei muitas vezes nestes assuntos ao sr. presidente.
Quando pedi esclarecimento escrito porque não mo deu oralmente como seria correto e normal falar a verdade entre dois responsáveis, o sr. presidente fugia de uma discussão séria dos assuntos… Sobre este assunto da Feira do Queijo devo ter questionado pelo menos 10 vezes quanto aos custos. Ele sempre me deu respostas que não me convenciam. Um dia pedi a informação aos serviços, que muito desagradou ao presidente da CM que considerou uma traição, quis castigar o funcionário em questão, que não era um funcionário qualquer.
O presidente da Câmara entendia e continua a entender que a AM serve para bater palmas, ir ali aprovar os regulamentos, contas…e não deve ser para acompanhar e fiscalizar a atividade municipal e para deliberar sobre todos os assuntos de interesse para o município. Como se determina no artº 25 da lei.

“… ele tem mais tiques de dono da Câmara do que o próprio Mário Alves”

CBS – O presidente da CM acusa-o de querer ser presidente do município…
AL – Ele é que quis ser muitas vezes presidente da Assembleia Municipal, que decidia a atribuição de medalhas do município que, segundo o regulamento, tem que ser decisão conjunta. Chegou a haver casos em que a AM se pronunciou, sob proposta da Câmara e, depois a desautorizou quando voltou a reunião da Câmara . Houve casos em que eu tomei conhecimento dos nomes a quem iam ser atribuídas as medalhas pelo Correio da Beira Serra. Foram estas situações que foram aprofundando a minha loucura.
Como acontece no país, hoje as pessoas são eleitas para determinados cargos, mas não entendem que são eleitas, mas antes que dão donas de. Entendem que não são presidentes de, mas dono de. Eu disse ao presidente Mário Alves que não era dono da Câmara e também disse algumas vezes a brincar e outras vezes a sério ao presidente Alexandrino que ele não é dono da Câmara. Custa-me reconhecê-lo mas ele tem mais tiques de dono da Câmara do que o próprio Mário Alves.

CBS – Arrepende-se das criticas que em tempos fez ao anterior presidente da Câmra.
AL – Não. Lamento é que propus uma solução que não foi a melhor e devo um pedido de desculpas aos oliveirenses, que aqui, e agora quero realçar.

CBS – O presidente da Câmara acusa-o de mentir. Afinal em quem é que os oliveirenses podem confiar?
AL – A polémica em torno das 50 noites em hotéis de luxo é uma invenção dele. Eu na reunião da Comissão Política voltei a manifestar a minha posição que já tinha transmitido no e-mail que enviei no dia 5 de março ao líder do PS e pedi para me darem conta da posição do partido antes do dia 24 de abril, porque se o regimento não fosse mudado eu não ia à sessão do 25 de abril. O presidente da Câmara fez de tudo para que a AM fosse no dia 26 de abril para eu ir à sessão, mas eu estava informado de que a decisão de me destituírem tinha sido tomada no dia 24. Não estão tantas pessoas com o sr. Presidente, quantas ele julga. Ainda não veio a publico, mas nessa reunião, o sr. Engº António Campos pediu demissão da Concelhia, penso que não foi pelas mesmas razões, mas não deixa de ser significativo. Nessa reunião, o presidente da CM também foi dizendo aos vereadores que tinha poderes para os destituir. O problema é que o sr. presidente tem um projeto de poder pessoal e em algumas situações chegou a dizer “eu não amocho”. Mas ninguém tem que amochar. As competências de cada um estão plasmadas na lei. Criticava o facto de eu querer um advogado e um engenheiro para dar apoio à Assembleia. A lei mudou e atribuiu responsabilidades à AM (artigo 2 9. nº3) que antes não tinha.
Eu só soube que o relvado do FCOH estava ser feito quando o sr vereador Mário Alves questionou, em reunião de Câmara e li neste jornal. Por envolver uma verba significativa implicaria uma alteração no orçamento. Exigia um concurso publico. Daí as minhas reservas e de querer ver esta dúvida esclarecida.
E para resolver esse assunto, o sr. Presidente e bem, nesse aspeto tiro-lhe o chapéu porque a melhor defesa é o ataque, disse que vai pedir uma auditoria. Acho muito bem. Há a questão do licenciamento que não é caso único, da Feira do Queijo, dos funcionários pela ADESA, a forma jurídica como a obra do FCOH foi feita. A transparência não é um favor, é um dever.

Não digo que não se fez muita coisa boa e que não se mudou o ambiente autocrático, pelo menos aparentemente. Mas parece que estamos a voltar ao que existia anteriormente. Há muita gente a queixar-se neste concelho. Pensei que, connosco no poder, se podia falar à vontade, sem ter que se estar a olhar para as paredes, nem para o lado. Tenho alguma mágoa de sair e de ver as pessoas com algum receio de falar. Por mim hei-de continuar a falar como sempre falei. Fico à espera da auditoria. Se a não for pedida, como prometido naturalmente que a pedirei eu. Os que me aconselham a ir embora bem podem esperar sentados.

CBS – Passou de presidente da AM a deputado da oposição. Que António Lopes vamos encontrar na próxima reunião da AM?
AL – Eu não sou deputado da oposição. Eu sou eleito do concelho. O eleito que vai encontrar na AM é o que sempre lá encontrou. Eu critiquei três ou quatro pontos nesta AM, mas votei favoravelmente todos os outros. O presidente da AM “no exílio”, agora ilegal e imoralmente remetido, por vontade de 24 pessoas para eleito municipal, irá cumprir e tentar que se cumpra o que se prometeu. Apenas e só. Fazer o que lhe vai na alma, era não entrar mais naquela AM. Era o que eu deveria fazer. Depois da desconsideração que foi feita a mim, pessoalmente, e ao eleitorado, que votou num independente,que todo o Concelho sabe que não é socialista, ainda por cima com um regimento que pretende limitar o debate democrático e os poderes de fiscalização dos eleitos. É uma afronta. Só que ir embora, era fazer-lhes a vontade. O caminho que a situação financeira da Câmara leva, as opções que vou vendo tomar, os comportamentos indignos que vejo tomar a alguns dos responsáveis, o comportamento de alguma comunicação social e o de alguns dos privilegiados dizem-me que voltámos à estaca zero. Quero-lhe dizer que todos os dias me chegam mensagens de todo o lado a solidarizarem-se comigo e a pedirem-me para não desistir. Fiquem descansados. Sabem que eu não sou da qualidade de abandonar. A minha luta ainda é de tentar que o sr presidente caia nele e veja que só foi eleito para ser presidente da CM e não para ser dono da CM, que se lembre dos muitos e bons conselhos que lhe dei. Digo com mágoa: as pessoas que estiveram na linha da frente a apoiar em 2009,quer do ponto de vista financeiro quer do político, hoje as principais estão desencantadas com o projecto e o senhor residente sabe-o. As pessoas que hoje ali andam e se sentem incomodadas comigo são aquelas que não têm olhado a meios para atingir os objetivos pessoais, o que muito me dói e magoa. É uma falta de respeito por tudo o lutei neste projeto. São pessoas que, sem a política, não vencem em lugar algum.

CBS – Quem gostaria de ver como presidente da Mesa da Assembleia?
AL – Pensando na Assembleia Municipal e no concelho, quem eu gostaria de ver como presidente era aquele que o Concelho escolheu, por ser de direito próprio e das leis básicas da democracia. Perante a usurpação, a pessoa que me parece a mais aconselhável é o Senhor Doutor. Luís Lagos, mas sei que, à partida, isso está fora de questão.
Fui despedido no sábado e no domingo enviei um e-mail ao sr. Presidente da Câmara como amigo, sem nenhum ressentimento. Sou uma pessoa generosa por natureza. Disse-lhe que não gostava de lá ver o Sr. Carlos Mendes de quem sou amigo pessoal, penso que não haverá dúvidas e ele não as terá, porque não gostei do desempenho dele na Caixa, uma vez que a entregou à intervenção sem conhecimento dos sócios e na Assembleia geral não quis responder aos sócios. Quanto ao Dr. Rodrigues Gonçalves tendo já sido ele candidato e não tendo conseguido o voto maioritário se bem o conheço não quererá chegar lá desta forma. Nada tenho contra apesar da rasteira” do regimento. . Recomendei o sr. Raul Dinis, porque já quando eu não queria ser candidato o tinha sugerido a ele porque achava que era a pessoa mais tolerante, e consensual para o cargo. Seja quem for que vier não votarei por oposição ao “Golpe de Estado”.

CBS – Já falou com o presidente da Câmara desde a última Assembleia?
AL – Ainda não houve oportunidade. Disse na AM que o considero um amigo. Não confundo luta política com relações pessoais. Sei que, normalmente, alias disse-o numa reunião que não fazia esta distinção. É o tal problema da cultura democrática .Por mim a luta política é luta política e as relações pessoais são relações pessoais. Com o tempo acabará por assimilar.

CBS – Como é que olha para o concelho. Valeu a pena o seu contributo?
AL – Vale sempre a pena, se não tivesse havido 48 anos de ditadura não havia a explosão de alegria que houve no 25 de abril. Vale sempre a pena. Mas as pessoas pensam e o presidente da CM e o PS sabem que o concelho não gostou desta volta. Eu sei e eles também sabem bem.
O entretém do presidente da Câmara, há mais de um ano, é dizer que não ando bem porque ando falido e agora, é que eu ando doido..! Mas em todas as ditaduras a forma de atacar o adversário é dizer que precisa de tratamento psiquiátrico. Naturalmente que olhei para isso com alguma tristeza.
Quanto ao estado do concelho e em particular a questão em torno do IC6,é preciso é fazê-lo. De preferência rápido. Acho que é pura demagogia política o folclore que se anda a fazer. Quando António Guterres começou o IC6, começou também a A23 que tem 217 km com 4 faixas e muitos troços inclinados, com seis. Se ele não fez o IC6 foi porque não quis. Quando ele começou a estrada, a divida pública era de 60 por cento do PIB e era de 50 por cento quando acabou. Não tinha troika. O Sócrates esteve lá seis anos e meio e se não fez, foi porque não quis. Isto foi mais uma arma de arremesso a que eu chamei “política politiqueira” Fazer peito falando em guerrilha, corte de estrada e boicote eleitoral é necessidade de palco. Já foi dito que, no máximo, até Oliveira. A curto prazo. Se não há dinheiro para o essencial como é? De qualquer forma, como o PS vai ser governo daqui a um ano, estou descansado quanto à resolução desta nossa grande aspiração.

A BLC3 era e ainda é a minha grande esperança para se dar o salto que o concelho precisa. O Sr. Presidente da CM não se entende muito bem com a gestão que está lá. Não sei se ele tem razão, ou se não tem. Até estou mais do lado dele. A BLC3 enferma de dois problemas: tem vários sócios e só a CM é que põe lá dinheiro e a CM é minoritária e aguenta a despesa total. A BLC3 também passou a ser um dos ninhos de acolhimento da “bandeirinha”. Acho que devia ser só para inovação e deixar de lado os favores. Por outro lado, não tem havido o cuidado e capacidade de segurar lá os jovens talentos muito promissores na área da inovação. Pagam-lhes melhor, fogem… Estamos outra vez tolhidos. Temos lá massa critica a menos e bandeirinhas a mais. Peço ao presidente da CM que olhe para aquilo com olhos de ver. É a jusante da BLC3 que devemos colocar os estagiários motivados nas suas profissões e aprofundar as suas aprendizagens e conhecimentos e não porteiros da CM e a limpar folhas. Deve ser uma frustração uma pessoa com curso superior andar de cantoneiro. A BLC3 é um dos grandes polos em que acredito e pode passar por ali a própria sobrevivência da ESTGOH e o desenvolvimento do concelho em todos os parâmetros. De resto, com os cortes sistemáticos e a diminuição de receitas, com as dificuldades das empresas e das famílias a minha sugestão é mais trabalho, menos trica menos olhar para o umbigo, menos bandeiras e menos festa.

Já agora mais democracia e respeito pelas competências dos orgãos eleitos. Um bocadinho de elevação também é capaz de não fazer mal…

Queria agradecer as atenções que alguns me têm dispensado. Para ”Falido e doido” não posso reclamar…

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