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A nuvem. Autor: Fernando Roldão

Montei na minha nuvem, ecológica, não poluente e fui dar uma volta por aí, olhando, com atenção o que se passa lá por baixo.

Move-se por acção do vento, é silenciosa e não tem problemas de estacionamento, permitindo ter uma visão completa sobre o país, mesmo num dia nublado, podendo, simultaneamente, fazer de helicóptero, pairando no ar, para nos focarmos numa determinada região ou acontecimento.

É muito económica, pois qualquer um de nós poderá ter uma, sem desbaratar o parco orçamento caseiro.

Não necessitamos de carta de condução, mas atenção, pois é preciso ter alguns conhecimentos, a fim de entendermos os eventos que a nossa visão alcança e que os nossos ouvidos escutam.

Alguns perguntar-me-ão, onde poderão beber toda a informação sobre este novo processo de navegação e eu direi que se encontra disponível na internet.

Obviamente que é necessário despender algum tempo, para se entender muito bem os procedimentos necessários à sua eficaz utilização.

Nesta minha última viagem, fiquei admirado com o colorido que avistava lá do alto e pensei para os meus botões; tantas pessoas a plantarem árvores e flores para superarem o enorme vazio deixado pelos últimos incêndios!

Estava a começar a ficar alegre, quando resolvi baixar um pouco a altitude de voo, a fim de me deleitar com o colorido que os meus olhos alcançavam.

Estabilizei a minha nuvem e fiquei desapontado, pois as cores que eu tinha visto, não eram mais do que as camisolas dos adeptos do futebol.

As cores das suas selecções estavam por todo o lado e o fenómeno era gigantesco, pois para qualquer lado que me virasse, o cenário era sempre o mesmo; bolas, camisolas, gritos e braços no ar.

Estava a ficar desapontado e tentei uma manobra mais arriscada, acercando-me dos milhões de figurantes colectivos e o que eu temia aconteceu; as conversas giravam todas à volta do que se passava no rectângulo verde.

Resolvi subir a uma maior altitude para me afastar desta loucura colectiva, não vá eu ficar contaminado também.

A altitude à qual subi, permitiu-me ver um continente inteiro, onde a escuridão era total, contrastando com a paleta de cores que imanava daqueles estádios.

Deparei-me com uma enorme superfície escura e resolvi aproximar o meu transporte, na tentativa de observar mais de perto as razões de tanta escuridão.

Fiquei com a boca tão aberta que pensei que ia engolir a nuvem, pois o que vi arrepiou-me da cabeça aos pés e a urticária surgiu-me do nada.

Um enorme cemitério, com milhões de corpos estimando-se que tenham morrido 6,3 milhões de crianças, menores de 15 anos, só em 2017 (1 a cada 5 segundos).

A maioria dessas mortes, 5,4 milhões, ocorreu nos primeiros cinco anos de vida, sendo que os recém-nascidos representaram cerca de metade desses óbitos.

O número de vítimas provocadas pela seca e sem acesso a uma fonte confiável de água potável aumentou de 9,5 milhões em Fevereiro para 16,2 milhões em Julho na Etiópia, no Quénia e na Somália.

A situação coloca as crianças e suas famílias em risco crescente de contrair doenças, como cólera e diarreia, potencialmente letais, onde não haja recursos médicos.

Dou gás à minha nuvem para sair dali, pois a minha revolta é tão grande, que com o nervoso, corro o risco de cair.

As dez mil mortes acima da média que se registaram em Portugal no último ano, era algo que não que não acontecia desde a gripe espanhola, há cerca de 100 anos.

Uma gota de água comparada com o panorama que vi em África e que contrasta com os milhões de cidadãos que se equiparam à maneira, revivendo o circo romano.

Dirão que os tempos eram outros, que nos estádios não se matam pessoas e que há regras para cumprir, ou será que os efeitos colaterais não contam?

Na cegueira ébria que tolda o raciocínio dos adeptos, não há espaço para pensarem na mancha negra que, infelizmente só está à vista daqueles que têm a sua nuvem, nem tampouco, tempo para reflectirem no aumento das acções de despejo, que de 37, no primeiro trimestre de 2021 passaram para 137 no período homólogo em 2022.

Não sobra tempo a estes fanáticos, para pensarem porque razão a TAP não vai devolver os cerca de 3,2 mil milhões, que nós emprestámos, sem o nosso consentimento e que estão a tirar a dignidade de viver aos nossos reformados.

As cenas são tantas que dariam para várias crónicas durante muitos meses ou até anos.

Conselho final; adquira uma nuvem!

 

 

 

Autor: Fernando Roldão

Texto escrito pelo antigo acordo ortográfico

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