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Adeus e obrigado, Cruijff. Autor: João Dinis, Jano

Terminou a partida para Johan Cruijff …. Um dia teria que ser mas também não era preciso ter sido já.

E como alguém disse, “a equipa lá de cima está a ficar cada vez mais forte…”.

Sim, Cruijff –  eu cá sempre disse “Cróife” – foi um dos melhores jogadores de futebol e também foi um dos melhores treinadores.

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Em primeiro lugar, os seus resultados desportivos falam por si. Mas para quem duvidar pois que vá à NET rever as jogadas, os arranques e as travagens, as súbitas mudanças de velocidade e de direcção…mudanças tão rápidas e tão desconcertantes de tão imprevisíveis que, de repente…deixavam os adversários a “metros” de distância e virados ao contrário à procura da “sombra” do Cróife…que o seu corpo já lá ia directo ou aos ”zig-zag”…rumo à baliza-alvo… Depois, eram remates e golos de todas as formas e feitios.

Cróife, pelo seu estilo e pela sua morfologia corporal, foi de facto diferente. Era elegante, super-rápido a pensar e a executar.  A mim, parecia-me que era elástico…

Cabe aqui recordar que houve um futebolista português – o artista “Luvas Pretas”, João Alves – que foi considerado o melhor jogador estrangeiro no campeonato Espanhol quando Cróife ainda lá estava a jogar.  E não esqueçamos que Alves jogava no “pequeno” Salamanca enquanto que Cróife jogava no “gigante” Barcelona…

A “Laranja Mecânica”, Cróife e Rinus Michels mereciam ter ganho o Mundial

Mas, de alguma forma, Cróife também personifica uma das maiores injustiças do futebol. Ele e a “sua” selecção Holandesa, a inesquecível “Laranja Mecânica”, nunca foram campeões do mundo embora lá tenham estado muito perto, pelo menos duas vezes. Injustiça ainda porque foram derrotados numa final (1974) pela selecção Alemã que sendo uma “máquina” muito forte, todavia, “merecia” ter perdido essa final para a selecção Holandesa (ai, ai, as arbitragens…).

Apetece-me não deixar de referir que outra das maiores injustiças “da bola” foi a selecção de Portugal – e de Coluna e Eusébio –  não ter ganho o mundial de 1966, em Inglaterra.  Ah! E aquela selecção Portuguesa da era Luís Figo, se tivesse o Mourinho a treiná-la (em vez da fraude chamada Scolari), essa nossa Selecção teria ganho um europeu ou um mundial…ou ambos !

Mas voltando atrás, de facto, a “Laranja Mecânica” era um conjunto ora harmonioso ora imprevisível, com uma dinâmica, com uma posse de bola, muito próximas daquelas que hoje, mais de 40 anos depois, têm as melhores equipas de futebol. Mas também era aquele grupo de rapazes-futebolistas, longilíneos, guedelhudos, à solta no campo, com camisolas côr-de-laranja, grupo em que Cróife pontificava… Para além de eficazes, eles divertiam-se a jogar futebol.  Por curiosidade, apreciem a forma de jogar dos seus guarda-redes…e vejam também como jogavam os guarda-redes adversários. Mas que enorme diferença! Os guarda-redes holandeses já jogavam, à época, como se fossem defesas. Eles não ficavam estáticos entre os postes, a “verem” jogar… Saíam até à entrada da grande-área…jogavam com as mãos… e com os pés… Notável !

Aqui chegado, impossível não trazer à lembrança Rinus Michels – para mim o melhor treinador de futebol dos que pude apreciar com algum detalhe (indirectamente, embora). Rinus Michels foi treinador – revolucionário – do “futebol total – futebol é guerra”… embora também ele tenha sido influenciado por um seu treinador. Penso mesmo que a “sua” revolução foi a maior revolução ocorrida no futebol desde a passagem do 2 – 3 – 5 para o 4 – 2 – 4 (viva os nossos enormes “cinco violinos” do Sporting !). Pessoalmente, acho que a próxima grande-maior revolução futebolística vai acontecer quando deixar de haver foras-de-jogo…

Rinus Michels treinou Cróife. Treinou o Ajax, a selecção Holandesa e outras equipas. Em síntese, foram equipas que meteram a velocidade na técnica, o jeito na força, os pés dentro da cabeça. Eram equipas dinâmicas, a nível individual e de grupo, que mudaram e elevaram o futebol a um nível e à “perfomance” que ainda hoje se vêem em equipas como o Barcelona…o Bayern…o Real Madrid…o “novo” Ajax.

A dada altura, até o Brasil teve que alterar a sua “filosofia” futebolística, enfim, que era demasiado artística. Bom, para mim, a mais excitante equipa de futebol que vi jogar (televisão) foi a selecção do Brasil campeã do mundo em 1970, aliás, seguida de perto pela selecção Canarinha do mundial em Espanha, em 1982. Eram equipas que assentavam mais em “circo”, e em artistas-futebolistas, do que em velocidade-dinamismo e em “ciclistas” (à excepção do Jairzinho – 1970).

Já agora, e ao contrário do actual Barcelona, essas selecções do Brasil até “deixavam” que as outras equipas também tivessem bola… Reveja-se o electrizante Brasil 1 – Inglaterra 0 – de 1970 — ou o dramático Brasil 2 – Itália 3 – de 1982…

A propósito, e para divagar mais um pouco, estou a considerar que o Barcelona pratica um futebol “incrível”. Parece que estão a treinar. Os adversários ficam “tontos” de tanto correrem atrás da bola sem a encontrarem… Ela, a bola, “adora” ser pontapeada pelos jogadores do Barcelona… E de repente, eles marcam um golo…e mais outro…e outro mais…  Têm dois ou três “artistas” de classe extra – Messi – Neymar – Iniesta – (Xavi) – a quem a bola-rainha obedece como se fora uma “escrava”… Mas, se não fossem esses super-craques, de quem nós estamos sempre à espera que façam mais um número extra, sem esses notáveis artistas, o Barcelona teria um futebol “burocrático” e ainda que ganhasse sempre… Sim, para que o futebol seja realmente excitante, é necessário que haja duas equipas a jogar – com bola nos pés – durante a maior parte do tempo. Ah! E necessário é que a equipa de arbitragem não estrague o espectáculo… Quando é que a electrónica “apita” mais num jogo de futebol?

Confesso também que só não gostei do Cróife…quando este jogou contra o Benfica… Ai, aquela eliminatória dos Clubes Campeões Europeus, com mais de 270 minutos (três partidas) em 1969!…  Raios, Cróife marcou-nos mais golos que os que Eusébio marcou ao Ajax… Eusébio, às voltas com os seus joelhos, até nem marcou nessas três partidas.

Como treinador do Barcelona – “dream team” – onde atingiu o maior nível, Cróife aperfeiçoou-actualizou as tácticas e as estratégias que trazia consigo desde Rinus Michels (que fora seu treinador).

Cróife foi um dos mais geniais “pensadores” de futebol!

E de um “prático” exímio, Cróife conceptualizou as suas ideias a um nível, também aqui, desconcertante. Cróife “desmontou” os preconceitos do futebol-jogado. Ensinou-nos a ver o futebol de uma perspectiva que até ele nós não tínhamos…embora permanecendo lá no meio…com arranques e travagens…com súbitas mudanças de direcção e de ritmo…de cabeça para baixo ou para cima…consoante a inspiração e a transpiração…

Cróife “desmontou”, mesmo em palavras, os “enganos” que julgávamos serem leis do futebol. Quem duvidar, que vá à NET reler as teorias de Cróife… E que aproveite para ler aquilo que sobre ele escreveu Valdano, para mim, sem dúvida, o melhor “escritor-estilista” que há sobre futebol e as suas envolvências gerais e específicas. E Valdano, note-se, até foi campeão do mundo pela selecção Argentina de futebol.

Já agora, apreciem o Barcelona a jogar… Mas que raio! Tem um conjunto à base de “meias-lecas”…baixotes…leves… Mas jogam contra “matulões” e ensaboam-lhes a cabeça…  Quem souber ou puder que faça uma experiência no computador:- tirem a bola da imagem e fiquem só com os jogadores a correr e a saltar. Pois podem crer que é possível “adivinhar” onde anda a bola (sem a vermos) na equipa do Barcelona, e já não se consegue “vê-la” na outra equipa… É verdade!

Os jogadores do Barcelona jogam (muito) mais com a cabeça do que com os pés… Pensam mais – já é espontâneo neles – em passar bem a bola do que em recebê-la ou seja, estão sempre meio segundo à frente da bola e dos adversários – o que chega, como se tem visto.

Reconheçam as capacidades de Pepe Guardiola e, agora, de Luís Enrique como treinadores (e como excelentes jogadores que foram). Reconheçam que Cróife, jogador-teinador, está lá no meio deles…e que com ele leva Rinus Michels…

Cróife foi o mais completo interveniente no futebol.

Bem, para mim, Pélé foi – e vai continuar a ser – o melhor futebolista de sempre.  Para mim, o meu maior ídolo da bola foi Eusébio.

Mas Cróife foi fora-de-série como jogador e como treinador. E também foi um genial conceptualizador deste espectáculo muito complicado que é o mundo do futebol a voltear atrás de uma bola.

Neste capítulo, devo dizer que tenho o privilégio de conhecer, e de ouvir com frequência, o Prof. Victor Frade que é outro genial “pensador” de futebol e dos seus aspectos técnico-tácticos-estratégicos.

O Prof. Victor Frade, para além de ser um cientista, é um verdadeiro comunicador da bola que se ouve a falar horas e horas a fio sem nos aborrecer. A conversar informalmente connosco, exprime-se de forma bastante expressiva (passe a redundância). Utiliza o calão portuense e toda a espécie de sugestivas metáforas (em linguagem especializada ou em “futebolês”…) para matizar e tornar mais entendíveis as suas teses, não raras vezes desconcertantes para nós, pouco mais do que leigos na matéria. Sim, é um prazer ouvir-ler-ver futebol pela mão do Prof. Victor Frade.

E que prazer não é continuar a saborear as jogadas, os ditos e os pensamentos de Cróife acerca de futebol!

“Se lá no assento etéreo onde subiste – memória desta vida se consente” – continua, Cróife, a jogar, a treinar e a pensar futebol! O céu aplaudir-te-á!…

Obrigado, HendriK Johannes, “Johan”,  Cruijff por tudo aquilo que nos deste !

E até te desculpo a ti, Cróife, pelas “malvadezas” que tão bem (nos) fizeste ao Benfica…

 

janoentrev1Autor: João Dinis, Jano

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