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As ruas minha aldeia. Autor: João Dinis, Jano.

Haja calma !  Haja tino ! 

Havemos de sair disto sem tragédias “volumosas” !

As ruas da minha Aldeia não são como as ruas de Lisboa ou de Madrid ou de Milão ou de Paris ou de Uhan. Mas se (quase) toda a agente sabe onde ficam essas grandes cidades e, não raro, até as trazem dentro das suas cabeças, poucos ainda sabem onde fica a minha Aldeia. Eu sei !  E porque o sei, desde muito menino, também sei que a minha Aldeia não pode ser…Lisboa…Madrid…Milão…Paris…Uhan. E não o podendo ser, pela força das coisas que são como são, então que não queiram vestir à minha Aldeia um fato muito fora de medida. Eu quero a minha Aldeia com a singeleza dela toda !  E nas suas ruas, que são como artérias e veias do meu corpo, eu sinto-me como se estivesse dentro de mim. Sinto-me como se estivesse em casa da minha família.

As ruas da minha Aldeia – lamentavelmente –  estão vazias daquilo que mais sentido lhes poderia dar:- as Pessoas.  E esse continua a ser o maior problema das ruas da minha Aldeia, o terem falta de Gente e não o terem Gente a mais. 

Hoje, há falta de Gente nas ruas de Lisboa…Madrid…Milão…Paris…porque, até há um mês atrás, havia Gente a mais nas ruas dessas grandes cidades… 

Nas ruas da minha Aldeia há falta de Gente há já muitos anos. E sem Gente para se ver e ouvir e tocar e falar, as ruas da minha Aldeia são frias e ocas (quase) todo o ano e há vários anos seguidos.

De Lisboa e de Madrid e de Milão e de Paris, e já menos de Uhan, nos é dito ser perigoso andar nas ruas.  Para além de um vírus mal formado, deram-nos o contágio construído do medo por fatalidade e companhia. Por isso, em todo o lado, antevemos um inimigo invisível que nos pode atacar até através dos espirros do nosso semelhante que se cruzar connosco na rua.

Mas, nas ruas de minha Aldeia, passo horas sem me cruzar com alguém. Que tristeza isso me causa ! Na minha Aldeia, o isolamento é o meu maior “inimigo”. E agora dizem-me para ficar fechado em casa, ainda mais isolado. Mas como também dizem que é para meu bem – e “eles são pessoas honoráveis” – cá me conformo. 

Passo o tempo em frente da televisão a ver novelas de que até nem gosto mas… Agora, é o massacre, em todos os formatos, por causa de um “bicho ruim” (pior que as cobras…) do qual até já decorei o nome de tanto ouvir falar nele:- o “corona vírus” e um seu filhote super-venenoso, um tal “Covid 19” que, como aparece nos cartazes, tem uns furúnculos no corpo todo, decerto por castigo em ser tão ruim…

Estou receoso de que se eu for atacado por esse “bicho ruim”, das ruas da minha Aldeia não venha alguém para me socorrer dentro da minha casa.  Por isso, dentro de minha casa, eu tremo, não com febre mas com medo de ter febre… O meu vizinho – enfim, é o que vive mais perto mas vive a mais de 50 metros de mim –  também “geme” (já me disse isso…), não porque lhe doam os dentes mas porque está acagaçado com medo do mesmo “bicho ruim”. E, isto, apesar de sabermos, ambos, que podemos espirrar à vontade que não nos “infectamos” de tão longe vivermos um do outro ainda que sendo vizinhos… 

Sim, nas ruas da minha Aldeia, vírus e medo são as duas faces da mesma epidemia:- chamemos-lhe  o “coromedo 2020”. Sim, este é já um ano que não deveria ter acontecido e “não o queira jamais o tempo dar”!

Das ruas da minha Aldeia, eu vejo os campos…

Eu vejo os campos cheios de vazios e de ausências fortes, como as Gentes e a Floresta que já houve e ainda me lembro bem disso. Alguns pássaros ainda voam e cantam…que não sabem do “bicho ruim”.  Por isso, não acreditam que ele exista e não vão a correr para dentro de gaiolas que se lhes indique porque estamos preocupados com eles, com os pássaros do campo.

Eu próprio quero ser como um pássaro do campo.  Já sei voar sozinho de tanta falta, na minha Aldeia, de outros pássaros como eu.

Nos campos da minha Aldeia, eu quero poder ir, por lá, a espairecer. Livre do medo e, já agora, precavido contra o vírus, com alguns cuidados.  Mas quero – muito ! – enfiar as minhas mãos por dentro da terra a cheirá-la, a simular com ela um coito aberto para a emprenhar, para ela parir bons frutos.  Eu quero comungar com a Natureza que há em todos os cantos dos campos da minha Aldeia !

E sim, pássaro do campo não quer gaiola.  Só se pode confinar ao desenho do seu voo. 

E nós havemos de voltar a voar e a poisar e a dormir a bom sono, sem pesadelos “importados”.  Claro que “eles” – os honoráveis de turno – virão dizer-nos que se não nos tivessem metido na “gaiola” teria sido muito pior, quiçá, teria sido um quase “armagedão” post-bíblico por montes e planícies também.  

Claro que esses mesmos “honoráveis de turno” eles querem ter sempre “razão” e torcem-nos a vida por isso…

Haja calma !  Haja tino ! Havemos de sair disto sem tragédias “volumosas” !

Autor: João Dinis, Jano

Nota:- peço desculpa se, aqui ou ali, sugeri um ou outro escrito, daqueles “maiores”. Mas não tive pretensões em ir além (nº 39) das minhas chinelas que agora calço, em “quarentena”, na gaiola…

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