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O Agrupamento de Escolas de Cordinha, agora que terminou o ano lectivo, tem menos movimento.

As Saudades são como as cerejas

Os alunos estão de férias, não há o “chilrear” das crianças a propagar-se à distância, mas nem por isso deixam de “marcar presença” por tudo quanto é sala, átrios, corredores e recreio – é assim que “vejo e sinto” a escola quando deambulo no espaço reservado à exposição dos trabalhos executados pelos jovens.

“Apeteceu-me” ter saudade quando manuseei as folhas A4, com arte nos textos, desenhos, e nas várias técnicas de colagens. Nesse tempo de visita, pouco mais de um quarto de hora, a nostalgia tomou conta da minha sensibilidade, a ponto de confundir este sentimento com outro, meio-irmão, conhecido por saudade; embora diferente, tem mais força do que a nostalgia (estou de acordo com Milan Kundera), e esta, que é a minha saudade, fez com que recuasse ao passado, à infância.

Uma das prerrogativas de quem guarda memórias é isso mesmo: poder ter saudade de qualquer coisa, de alguém, de um tempo. Se ouço um fado de Coimbra – um que seja! – tenho saudade das serenatas que, durante um ano lectivo, me libertavam do sono, noite após noite, porque tive a sorte de morar num apartamento paredes-meias com outro, onde havia uma república feminina – era por elas, as residentes do segundo andar, que os estudantes faziam trinar as cordas das guitarras e sobressair as vozes potentes, entoando melodias românticas: eles, “perdidamente apaixonados”; elas, “…bate, bate coração/ louco, louco de ilusão…”, quais Cinderelas, que o Paião havia de imortalizar anos mais tarde.

Algumas pessoas, como o Paião, deviam ser eternas, não pelas memórias que guardamos de si, mas “vivinhas da silva”, em carne e osso, para podermos, nós e as gerações seguintes, usufruir do seu talento. Agora, por exemplo, “apetece-me” ter saudade do Elvis Presley e da sua música Gospel com que enfeitei a minha juventude. O Elvis nunca deveria ter “entregue a alma ao Criador”, porque, depois dele, foi o vazio; apareceram cópias sem importância de maior, porque o “rei”, na verdade, era – e continua a ser – “único”!

Na semana que passou, foi a vez do divino Michael Jackson “abandonar o barco” sem um adeus! O choque foi brutal, até para mim que sou mais Elvis do que Michael, e muito mais Paião do que os outros dois.

Com a morte a ceifar vidas de pessoas imortais antes do “tempo”, fica um amargo na boca, misto de nostalgia e saudade, e não serão as estátuas de cera, os filmes, as fotografias, os temas musicais que deixaram para a posteridade e as estórias das suas vidas privadas que compensam a ausência definitiva dos génios…

– “Foi desta para melhor” – li algures, a propósito do Michael Jackson. Como nada sabemos sobre o que acontece para lá da morte, pelo sim pelo não, o melhor é ter um certo estilo de fé, como esse de “ser melhor do que este (mundo) o sítio para onde vamos” – vamos mesmo?

Porque citei o Carlos Paião, “apetece-me”, também, ter saudades dele por razões que vão para além do talento do músico, letrista e intérprete. Por exemplo: ser adepto ferrenho/doente do Benfica, (eu também, mas nem tanto…); a outra, deveras importante, porque nos ligava uma certa amizade – e aos amigos, francamente, nunca se vira as costas sem mais nem menos – foi o que o Carlos fez, e isso deixou-me “chateado”…

…Já se sabe que as saudades, quando arrumadas num cestinho, são como as cerejas: atrás de umas, vêm outras.

Carlos Alberto (Vilaça)

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