Home - Opinião - Oliveira do Hospital: «campus de extermínio» de Castanheiros onde está a ser «implantado» o pomposamente chamado de «Campus Educativo». Autor: Manuela Castanheira

Oliveira do Hospital: «campus de extermínio» de Castanheiros onde está a ser «implantado» o pomposamente chamado de «Campus Educativo». Autor: Manuela Castanheira

Divulgue-se que foram cortados e retraçados 135 Castanheiros adultos – com tronco acima de 30 centímetros de diâmetro, em média – no terreno onde está a ser «implantado», dentro da Cidade, em frente à Escola Secundária, o novo e pomposamente chamado «Campus Educativo», a obra «de regime» (PS) mais importante desta época.

Portanto, este terreno onde houve o soito foi transformado em «campus de extermínio» desses Castanheiros todos.  À volta do enorme desaterro, ainda sobreviveram algumas dessas árvores, grandes, folhosas em verde, carregadas de ouriços a amadurecerem Castanhas.   Mas quando as máquinas arrancarem para, por exemplo, o rasgar de novos acessos ao complexo escolar da zona, fase que muito provavelmente irá chegar, então mais Castanheiros vão desaparecer às lâminas da motosserra e à inclemência dos mandantes…

Ao que se sabe, a madeira de castanho – valiosa – obtida com a razia, foi vendida e os proventos da venda distribuídos também pela Câmara Municipal.  Portanto, a confirmar-se esta manobra, a Câmara ainda se apropriou de despojos.  Digam-nos, quanto dinheiro arrecadou a Câmara com a madeira dos Castanheiros sacrificados ?   E será que este soito assim dizimado não foi em tempos plantado através de projeto agrícola com apoio de dinheiros públicos?   Então e agora desaparece do mapa para dar lugar a um projeto – o do «Campus Educativo» –  também este a ser pago com dinheiro público ?… Se assim acontecer, é dinheiro público a «papar» outro dinheiro público…Quanto custou a compra do terreno? Quem lucra com os «negócios» ?

Hoje é já tarde para contrariar que a razia está consumada.

Mas sempre podemos questionar se o «Campus Educativo» em causa não poderia ter sido planeado para construção noutro terreno, mesmo perto, sem necessidade de sacrificar tanta árvore ?   E tanta árvore de porte frondoso e com utilidade gastronómica, de um fruto tradicional e apetecível.    Sim, que a castanha, há dois anos, atingiu uns 3 euros o quilo no produtor mas tende para ser cada vez mais importada de fora do País, o que se lamenta.  Quer dizer, até parece que, com um abate brutal de Castanheiros em produção, a Câmara está a promover a importação de Castanha em vez de promover a sua produção local…

«Coro dos Castanheiros matados» na cidade de Oliveira do Hospital

Para mim, uma grande criação do génio humano, considero, é a ópera «Nabucco», com música (colossal) de Verdi e com libreto de Temistocle.  E, digo-o assim, contrariando mesmo avaliações negativas que possam ser feitas quanto à utilização, social e politicamente manipuladora, que já se fez dessa ópera.  Dela destaco, a muito conhecida passagem do «Coro dos Escravos Hebreus» – agora poderia ser dos «escravos palestinianos»… – com o seu poderoso hino: «va pensiero» – «vai pensamento, sobre as asas douradas».  Quem quiser que vá ouvir que há muitas divulgações na Net.

Então, inspirada pelo citado hino, aqui me atrevo eu, pretensiosamente embora, a propor-Vos a leitura, quiçá paciente, de um «Coro dos Castanheiros matados» em Oliveira do Hospital.   Afinal, como se de um «coro de fantasmas arbóreos»  se tratasse.  Assim:

– «Vai vento, vai memória ! Vão dar a notícia fúnebre por todo o lado !  Nós somos os fantasmas dos 135 Castanheiros vítimas da inclemência de (des)humanos que querem continuar a ter poder de vida ou morte sobre Castanheiros e outras Árvores.   E que invocam, eles, valores que, depois, desmentem com estas práticas insensíveis e cruéis.

Vai, Madeira em que nos fatiaram, um a um. Vai fazer berços sólidos para Crianças dormirem.  E vai também, brilhante mas discreta, a receber corpos falecidos que repousem em caixões resistentes.  Vai em casco e leme de barco à vela, ágil e afoito, mar adentro em noite de tempestade, sem gemer.  E vai também aos pedacinhos, e incendeia-te, com cuidado, a aquecer os corpos de velhinhos, em noites geladas como as que nós já vivemos.

Vai tristeza, vai seiva interrompida.  Agarrem-se as nossas raízes, que ainda eram novas, ao registo, agora desmaterializado mas que nos ficou em matriz, da humidade que nos fazia viver e frutificar antes da matança forçada, dos 135 inocentes, de que fomos vítimas. Desmaia e morre, devagar, verde-fulvo de nossas folhas e ramadas.

Crispem-se e cerrem-se ainda mais os espinhos de nossos ouriços onde abortam já os nossos frutos que seriam macias e doces castanhas. Chorai estas mortes-matadas tão estupidamente prematuras porque há eleições em breve !

Vai-te embora Mocho-Galego de piar agoirento e voo agora desorientado.  Já nada tens a fazer aqui.  Se te manténs sábio, foge e avisa outras árvores e outras aves do perigo em haver homens, feitos nossos carrascos, à solta aqui por perto.

Passa e corre vento alado e notívago.  A dizer às Pessoas que aqui nos mataram sem dó nem piedade, neste «campus de extermínio».  Como se fora uma inconfessa «solução final» para árvores frondosas, decretada por ferozes ditadores destes tempos ingratos de agora.

Cai chuva matinal e rega estes terrenos como se chorasses gotas amargas de seiva que já não temos.

Gritemos, enfim, com todos os nossos ramos, que já não o são, apontados ao alto para arranhar o céu.  Invoquemos os velhos deuses mitológicos das árvores para que ainda surja alguma lei humana que responsabilize quem manda executar estes massacres.

Sim, clamemos com a alma que de nós ficou na memória mais coletiva dos Oliveirenses.

É que educar, sobretudo Crianças, em «campus educativos» ou não, é respeitar a Natureza… é amar as árvores…os ribeiros…os pássaros que ficam sem abrigos e deixam de cantar sempre que uma árvore grande é sacrificada como fomos, nós, os 135 Castanheiros mártires, em prol deste «Campus Educativo” e pretensa obra «de regime».

Vai pensamento. Vão emoções.  Imaginemos ainda que Crianças com mãos imaculadas possam vir a plantar novos Castanheiros a partir de Castanhas, até nos campos vizinhos a este «campus de extermínio» !

E ponha-se uma lápide evocativa, em granito, neste desaterro e futuro «Campus Educativo» com os dizeres:

– «Aqui, foram sumariamente abatidos 135 Castanheiros verdejantes a mando da insensibilidade dominante.  Morreram de pé.  Ouça-se, no vento que passa, o sussurro de suas almas de árvores generosas.  Tombadas sem honra nem glória mas não esquecidas».

Autor: Manuela Castanheira

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