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“Continuamos a ter barris de pólvora que a qualquer momento podem resultar em novas catástrofes”

Cinco anos depois dos incêndios de 15 de Outubro de 2017, o empresário Fernando Tavares Pereira, uma das vozes que mais se tem levantado em favor do interior do país, continua pessimista e mostra alguma desilusão sobre o que se tem passado nos últimos anos. Considera que o Governo e muitos autarcas da região não aprenderam nada com as catástrofes de 2017. O ex-candidato à Assembleia da República acusa os políticos de não defenderem quem os elegeu. E fala nas injustiças que permanecem sobre os lesados dos grandes incêndios. “Há processos em tribunal e milhares que nunca receberam os devidos apoios. É triste”, conta em entrevista ao CBS.

CBS – Cinco anos depois que balanço o faz sobre a intervenção das entidades responsáveis após os incêndios de Outubro de 2017?

Fernando Tavares Pereira – Desilusão. Cinco anos depois já devíamos estar a falar de coisas bem diferentes e não destes acontecimentos. Mas a verdade é que há muita gente que não recebeu nada, há outras pessoas que receberam, outras ainda que receberam o que não deviam. Há muita injustiça e mil e um problemas por resolver. Houve dinheiro que veio para cá para apoio florestal e agrícola, para renovação e regeneração, e que, na sua maior parte, não foi cá investido. Desapareceu. Há municípios que não prestaram contas daquilo que receberam. Enfim, subsistem demasiados problemas. É mau demais para esta região. Por vezes, dou por mim a pensar que estamos num país onde se defendem os interesses de alguns, esquecendo outros. Uma democracia não é isso.

Mas há responsáveis políticos que procuram fazer passar a ideia do dever cumprido…

Há processos em tribunal e milhares de lesados que nunca receberam os devidos apoios. É triste. E alguns já cá não estão para os receber. Como é que se pode falar em dever cumprido? Como se pode falar em dever cumprido quando o estado da floresta está pior do que antes de 2017? Haja decoro. É preciso dignidade e respeito por aqueles que perderam tudo. Mas, muitos daqueles que têm responsabilidades e deveres para com a população, não respeitam esses princípios básicos da honorabilidade. Não demonstram o mínimo de pudor. É triste. A MAAVIM colocou vários processos em tribunal, alguns foram arquivados e já recorremos, mas o mais estranho é que nos despachos de arquivamento é praticamente reconhecida razão à nossa queixa, mas…existe sempre um “mas”.

Depois dos incêndios, nomeadamente os pastores, tiveram ainda de lidar com diversos problemas…

Mais uma vez perante a indiferença das entidades responsáveis, incluindo as próprias autarquias. Não se preocuparam em salvaguardar as consequências que resultaram daquilo que as chamas fizeram ao território. Temos, por exemplo, o caso dos cães vadios que surgiram depois daquela catástrofe e que, à falta de alimento, fustigaram os rebanhos dos pastores, matando muitas cabeças de gado. Há casos em que ainda hoje estão à espera dos apoios. Este é um exemplo de como o poder central e os poderes locais subservientes tratam a população. Cada vez estamos pior, desprezados, por tudo e por todos.

Os incêndios continuam. Este ano foi o parque natural da Serra da Estrela. Não se aprendeu nada com os grandes incêndios de 2017?

Depois daquilo que aconteceu na Serra da Estrela somos obrigados a constatar que os nossos políticos não aprenderam nada em prol da protecção das populações. Este ano houve empreendimentos nos concelhos de Oliveira do Hospital e Seia que voltaram, em parte, a arder. O que devia ter sido feito não o foi. Vieram cerca de 260 milhões para apoiar estas regiões, e desculpe a insistência, mas a verdade é que a maior parte desse dinheiro foi daqui para fora e não nos serviu de nada. Por isso, temos a floresta que temos. Espero que sobre os incêndios deste ano na Serra da Estrela não sejam cometidos os mesmos erros de 2017 em termos de apoios às vítimas e na recuperação das áreas ardidas.

Considera que se mantém a necessidade de apurar responsabilidades?

Há muito tempo que deveria ter sido feito. Quem estava no poder na altura precisava de ter um pouco de respeito e até de vergonha por aquilo que deixou de fazer. Não só os políticos nacionais, como os locais. Foi quase gozar com as populações quando prometeram e nada fizeram. O próprio presidente da República, pessoa que muito estimo, disse-me para entregar os dossiês a um autarca desta região, onde estavam detalhados os problemas e necessidades que enfrentávamos, o que fiz, mas até hoje não tivemos qualquer resposta. São coisas que não dignificam em nada a nossa democracia.

Está a dizer que existe ainda perseguição política?

A democracia está muito maltratada e quem fala acaba por ser perseguido e digo isto com conhecimento de causa.  Olhe, antes do 25 de Abril sabia aquilo que podia dizer, hoje já não sei o que posso falar. Quem fala é perseguido. É uma falta de respeito. O senhor Primeiro-ministro devia ver quem falhou e responsabilizar os responsáveis, quais os autarcas e ministros que falharam e o que fazem hoje. Como foram feitos os desvios dos dinheiros desta região para outras zonas do país? Como foi gasto? Nunca nos deram uma resposta sobre o destino dessas verbas e temos o direito de saber o que aconteceu.

Consegue ver uma medida para mitigar os efeitos dos incêndios?

A reorganização florestal e agrícola. A reflorestação que foi prometida pelo Governo após os incêndios de 2017 não saiu do papel e, por isso, continuamos a ter barris de pólvora que a qualquer momento podem resultar em novas catástrofes. A apregoada reorganização florestal e agrícola não deu em nada.

Na nossa região temos minifúndio, portanto deviríamos juntar 50 hectares, menos é inviável como exploração económica, por cada parcela e as pessoas poderiam participar ou não.  Cada um recebia segundo a permilagem que entregava ao projecto, quer fosse participando directamente ou alugando o seu terreno, por exemplo, a 20 anos. Acredito que seria uma solução.

“…é mais fácil o FC Oliveira do Hospital subir de divisão do que termos os IC6/7 e 37 concluídos…”

Para um projecto desses não é necessária viabilidade financeira?

Evidentemente que sim. Não podemos é defender a utopia de dizer que apenas vão plantar exclusivamente árvores autóctones de crescimento lento. Isso dá prejuízos e perde-se tudo. Têm de existir parcelamentos mínimos com 30 por cento de árvores de crescimento rápido para dar viabilidade económica a estes projectos. Tem se ser tudo bem organizado, conjugando a sustentabilidade económica com árvores autóctones.

O seu discurso é pessimista em elação à forma como o Poder olha para o interior…

E não lhe parece que tenho razão. Não fazem nada. Não é só nos incêndios. É em tudo. Repare nos IC’s. Já o disse e repito-o: é mais fácil o FC Oliveira do Hospital subir de divisão, que é muito difícil, do que termos os IC6/7 e 37 concluídos. São tantas promessas, tantas mentiras que já chegam à Torre da Serra da Estrela e já estão a dobrar para a parte sul. Outra promessa foi a recuperação da Estrada Nacional 342 que liga a Pampilhosa, Lousã, Góis, Arganil e termina no nó de Pinheiro de Coja. Nada foi feito. Mas aqui há muita culpa dos nossos autarcas. Repare que a zona sul da Serra da Estrela está muito mais desenvolvida, basta referir o caso da Covilhã no turismo. Ali houve quem fizesse o seu trabalho em prol do povo. Por aqui, muitos deles não se preocupam. Pensam apenas nas suas reformas e regalias que estão asseguradas e pouco no povo.

Tem sido um crítico da forma como tem sido coordenado o combate aos incêndios. Mantém essa posição?

Como é que as ordens podem vir de Lisboa, quando essas pessoas não conhecem o terreno. Como podem comandar operações num terreno que não conhecem. É mesmo uma falta de consideração pelos responsáveis que estão na Guarda, Coimbra, Viseu, Aveiro, Castelo Branco. Esses é que deviam estar a coordenar. Mas não. Estão às ordens de alguém de Lisboa que comanda através de um mapa onde veem as povoações separadas por cinco ou seis quilómetros, mas sem noção de como e quanto tempo se demora a lá chegar. Estamos sujeitos a isto.

“…houve um presidente de Câmara que prometeu demitir-se se não fossem feitos o IC6/7 e 37. As obras nunca foram realizadas, mas ele nunca se demitiu e agora está no Parlamento. É algo que diz muito dos nossos responsáveis políticos…”

Este cenário também dificulta a atracção de pessoas para o interior…

Isto é o apoio incondicional à desertificação. O distrito da Guarda perdeu quase 100 mil pessoas em 20 anos, como Castelo Branco ou Bragança e também e mesmo Coimbra. E porquê? Porque quem vai assumir os cargos políticos, como deputados, e até grande parte dos responsáveis de Câmara, nunca exigiram o que deviam exigir. Um exemplo: pelo menos 50 por cento dos fundos do FEDER, que é o fundo europeu de desenvolvimento regional, que têm chegado a Portugal desde 1985 até agora, deviam ter sido investidos nas regiões do interior. Isso não aconteceu e ninguém reclama. Ainda batem palmas. Já houve um presidente de Câmara que disse que se demitia se não fossem feitos o IC6/7 e 37. As obras nunca foram realizadas, ele nunca se demitiu e agora está no Parlamento. Isto diz muito sobre este país. Cavaco Silva foi uma das raras excepções. Teve erros? Teve. Mas fez muita coisa no interior que agora estão a fechar, porque não houve seguimento. Cada vez estamos pior, desprezados, por tudo e por todos. As nossas estradas têm 100 anos.

Acredita que a actual situação de maioria absoluta no Parlamento pode ajudar?

O PS, com estas condições, tem a oportunidade de fazer muito, ouvir e sem exercer as tradicionais represálias tão habituais na nossa política. Pode melhorar bastante, com a ajuda dos municípios. Pode fazer muito, a fim de beneficiar uma região, um país e toda a gente da mesma forma. Tem de haver críticas construtivas, o que é importante para ajudar a melhorar mesmo aqueles que têm de decidir.

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