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COVID-19, dia 10 de Maio… a persistência do R0. Autor: Carlos Antunes

À semelhança de outros países, a variação do número básico de de reprodução da infecção, R(t), depois de atingir a região limiar de 1.0 (1 novo caso confirmado de infecção por infectado) persiste em não baixar. À semelhança de outros países, o R0 inflectiu a sua curva, voltando a subir exactamente aquando do anúncio das medidas de alívio do Estado de Emergência. À partida, nada tem a ver uma coisa com a outra, pois dado o período médio de incubação da infecção 5 dias, seria de esperar que o R0 reagisse apenas uma semana após a data de levantamento das medidas. Contudo, isto é exactamente o que se tem observado também noutros países. A explicação que adiantei aqui há tempos, com exemplos, foi de que face às expectativas de levantamento das medidas e ao desgaste sentido pelas pessoas após um longo período de isolamento, as pessoas começam a sair e a retomar a sua actividade exterior antes da própria data de desconfinamento. Perante esta hipótese, isso era o que se esperava que acontecesse, e em certo grau aconteceu.

O R0 estimado chegou ao seu mínimo na ordem de 0.84 (+/- 0.09) a 28 de Abril, um dia antes do anúncio oficial do fim do Estado de Emergência de dia 2 de Maio. A partir dessa data o R0 estimado começou a subir até ao valor de 0.98 (+/- 0.05), onde se encontra actualmente, num intervalo de confiança de 95% definido entre 0.89 e 1.06. Esta estimativa é baseada na curva epidémica de casos confirmados de infecção com SARS-COv-2 à data de sintomas ou de notificação (do Relatório de Situação da DGS). A sua estimativa a partir da curva de novos casos anunciada é altamente perturbada pelas frequentes oscilações dos números reportados, que nada têm a ver com o comportamento da epidemia. Pelo que a sua correcta estimativa terá de ser feita com dados corrigidos à data de sintomas. E mesmo assim, ela resulta com um ligeiro atraso. Isto significa que na prática o seu ponto mínimo terá ocorrido a 23 de Abril e não a 28 de Abril como refiro acima.

Com este valor de R0 na zona de 1.0 é de esperar que o número de novos casos de Covid-19 em Portugal se mantenha entre 200 e 300. A par do facto de estarmos a recuperar muito lentamente os infectados activos, a prevalência da infecção ir-se-á prolongar muito para lá de Julho. Nessa altura, ainda com valores, muito provavelmente, acima dos 10 mil casos de infectados activos.

Em termos de prevalência da infecção com Covid-19, estamos a alcançar o máximo do números de casos activos, que ocorrerá, em princípio, no dia 14 (2 dias depois da última estimativa). A partir dessa data, e caso o R0 não ultrapasse o valor de 1.0, a prevalência da infecção começará a diminuir, ainda que, de forma muito lenta como já tínhamos referido em publicações anteriores.

É necessário, pois, manter a vigilância da curva epidémica e tentar evitar o que já se observa noutros países, uma inversão da tendência do número básico de reprodução e a sua transposição para valores superiores a 1.0. Mantê-lo em torno de 1.0 e com um número relativamente baixo de novos casos é o máximo que poderemos permitir, caso contrário poderemos iniciar uma 2ª vaga. Contudo, mantê-lo durante muito tempo nesta zona pode não ser muito bom, já que significa permanecermos neste estado de “lume brando”, no estado de calamidade, por muito tempo. E isso não é bom nem para o SNS (pois precisa de retomar os outros actos clínicos que ficaram adiados) nem para a economia. Seria apenas bom para o ganho de imunidade de grupo, mas isso para já, terá que esperar. O ideal seria, de facto, manter o valor de R0 nesta zona e conseguir progressivamente retomar a actividade e a economia, mantendo a epidemia controlada. Mas isso, para já, não é garantido. Precisamos, progressivamente, ir medindo os impactos do alívio das medidas no comportamento do R0 e reagir em função dos resultados, aliviando mais ou menos em função do controlo do seu valor.

Autor: Carlos Antunes

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