Home - Opinião - COVID-19, dia 30 de Junho… véspera da abertura das fronteiras. Autor: Carlos Antunes

COVID-19, dia 30 de Junho… véspera da abertura das fronteiras. Autor: Carlos Antunes

Estamos a horas de serem abertas as fronteiras terrestre com Espanha. Há 2 meses perguntava-se em Espanha como era possível estarem com mais de 600 mortes diárias enquanto que ao lado, em Portugal, morriam apenas 20 doentes Convid-19 por dia. Hoje, morrem por dia em Portugal tantos quantos em Espanha, uma média de 5/dia (hoje 8 em Portugal e 9 em Espanha).

Também já se disse e mais tarde se desmentiu que estavam a haver mais casos na Área Metropolitana de Lisboa (AML) porque se estava a testar mais (a mesma argumentação de Trump que o levou a concluir que se fizesse 0 testes haveria 0 casos). O mesmo se tem dito que apesar do aumento do número de casos não houve aumento de mortalidade por Covid-19. Pois, será mesmo assim?

Apenas recentemente pude olhar em mais detalhe e, ao fim de algum trabalho, conseguir estimar a curva epidémica e respectivo número de reprodução, R(t), para a região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT) e para a Região Norte (RN). Da análise sobre curva de LVT é impressionante a clareza com se pode verificar o aumento sustentado de casos a partir da data de anúncio do alívio das medidas de confinamento, a 28 de Abril. Desde essa altura que o número de casos não pára de aumentar, dos 100 para a casa dos 300 novos casos. Poucos dias depois, e um pouco antes do início da 1ª fase de desconfinamento, o R(t) ultrapassava o valor de 1.0 e permaneceu acima deste até 11 de Junho. Esteve cerca de 3 dias abaixo, nessa altura, para depois voltar novamente a ultrapassara a barreira.

Já aqui referi que não há grande problema em o R(t) subir acima de 1.0, o problema é permanecer lá durante muito tempo. Além dessa regra há mais outra, nem só o R(t) é importante, tão ou mais importante é o número de novos casos com que se parte com o R(t) acima de 1.0. Isto é, se, como o caso da Noruega ou da Áustria, subirmos o R(t) acima de 1.0 mas com 20 novos casos, desde que ele não suba muito, não há problema. Mas se partirmos de um valor alto, 100, 500 ou 1000, então ter o R(t) acima de 1.0 pode ser um grande problema.

Parece-me pois, que as autoridades e o Governo, bem como o PR, andaram muito entretido a olhar e a comentar o R0 (que quase pareciam especialistas), e descuidaram-se com o aumento continuado de casos na região de LVT. Era mais que evidente, perante estes gráficos (pelo menos a quem eles teve acesso) que logo no início da 1ª Fase se teriam de ter tomado medidas na AML. Depois disso, os casos de surtos começaram a surgir, a 21 de Maio falava-se no surto do plataforma logística da Azambuja, e a seguir vieram todos os outros. O discurso foi sempre o de não espalhar o medo, apaziguar a opinião pública, dar uma imagem de controlo da situação (para dentro e para fora), para não estragar a imagem do milagre português. Mas nessa data já LVT estava com cerca de 200 casos por dia e o R(t) há 1 mês que estava acima de 1.0.

Comparando a RN com LVT verifica-se um contra-ciclo. Enquanto a RN apresenta um controlo sustentado da propagação, reduzindo em 2 meses dos 400 novos casos para a ordem dos 25, após o início da 3ª Fase, já LVT foi progressivamente aumentado os casos e nessa data já ia nos 250 novos casos.

Estes gráficos que vos apresento foram, com toda a certeza, apresentados nos Briefings quinzenais nas instalações do Infarmed. Certamente, houve análises, houve alertas, foi feita a observação do caso LVT. Por quê os governantes e as autoridades deram sempre a ideia de que tudo estava sob controlo? Por quê ninguém olhou para esta evolução?

Quanto aos óbitos e a letalidade com Covid-19, observa-se um aumento de cerca de 350 óbitos a mais devido ao desconfinamento. Ou seja, teríamos tido uma evolução de óbitos acumulados na ordem dos 1250 caso se se continuasse com o confinamento, quando comparado com os quase 1600 óbitos actuais após desconfinamento. A modelação baseada em 3 PDF’s mostra claramente 2 pequenas ondas consecutivas de novos óbitos (14/05 a 13/06 e com início a 17/06), após a grande onda com pico a 14 de Abril. Ao passo que a modelação com apenas uma única PDF evidencia o desvio acrescido dos óbitos resultantes do desconfinamento.

Contudo, a amplitude do número de novos óbitos face ao aumento de novos casos, torna esta percepção difícil (só visível aos analistas mais experientes). Tal como tem sido referido por muitos, está a voltar a haver mais casos mas com muito menos óbitos. Porque será então que não há mais óbitos, se os casos estão a aumentar? Se verificarmos com pormenor, os novos casos estão-se a dar, como já aqui referi, principalmente nos grupos etários mais novos, dos 0 aos 39. Ao mesmo tempo que nos grupos etários mais velhos ( acima dos 50 anos) está a haver uma diminuição relativa dos novos casos. Se verificarmos o aumento relativo de casos desde 10 de Maio (data da inversão da tendência de casos acumulados), constatamos um aumento na ordem dos 160% nos casos dos 0-9 anos, quando comparado com uma aumento apenas de 2.8% de casos dos 80+ anos. Claro que esta discrepância é também resultante dos valores absolutos de casos destes grupos. Havendo muito mais casos num a sua variação relativa é menor, e havendo muito menos casos no outro a respectiva variação é muito maior.

No entanto, e como os surtos dos últimos dias em alguns lares e hospitais têm mostrado, caso os grupos etários dos mais jovens continuem a aumentar significativamente o número de casos, não vamos conseguir por muito tempo manter os idosos e os grupos de risco afastados e isolados do contágio. Mais tarde ou mais cedo há-de chegar novamente a eles. E aí poderemos novamente ver um aumento mais significativo do número de óbitos.

Autor: Carlos Antunes

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