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COVID-19, um mês após o início do desconfinamento. Autor: Carlos Antunes

Após um mês do início do alivio das medidas de confinamento, o fim do Estado de Emergência e início do Estado de Calamidade, é já possível ver os efeitos e observar a alteração dos números que caracteriza a evolução epidemiológica do país.

A observação da curva de epidémica de novos casos, através da sua tendência dada pela média móvel de 7 dias, e da curva de casos acumulados, comparativamente às curvas modelo de função densidade empírica (EDF(t)) e função de densidade acumulada, respectivamente, permite identificar o início de um enviezamento por volta de 4-5 de Maio. Até essa data, o modelo baseado numa função densidade de probabilidade exponencial ajustada à curva da incidência média (tendência dos novos casos) demonstrava uma correspondência exacta (e uma incerteza mínima) com os dados epidemiológicos reportados. A partir daí, os desvio é evidente, o que é demonstrativo de uma alteração do padrão epidemiológico compatível com um aumento de exposição ao contágio originado pelo desconfinamento.

Igual observação se constata no modelo de evolução de óbitos. Só que aqui o enviezamento inicia-se um pouco mais tarde, por volta de 11-12 de Maio, cerca de 8 dias do início do desconfinamento.

Entre 27 de Março e 27 de Abril, a diminuição de novos casos dava-se a uma taxa de -13 novos casos/dia. Já a partir daí, entre 28 de Abril e 28 de Maio a taxa de diminuição de casos foi apenas de -1.3 novos casos/dia. Nos óbitos, a diminuição entre 10 de Abril e 9 de Maio deu-se a uma taxa de -0.8 óbitos/dia, enquanto que entre 10 de Maio e a data de hoje houve um ligeiro aumento seguido de uma estagnação na ordem dos 14 novos óbitos.

Caso fosse continuado o confinamento no início de Maio, em vez dos actuais 3262 casos por Mha, teríamos hoje menos 374 casos/Mha (-13%). Estaríamos com um total na ordem dos 29500 casos acumulados e de 55 novos casos, com uma tendência decrescente à taxa de -3 novos casos/dia. O que nos conduziria ao provável fim da epidemia em meados de Julho. Ao nível da letalidade, teríamos 123 óbitos/Mha em vez dos actuais 140 óbitos/Mha. Com cerca de 1250 óbitos acumulados e na ordem de 1 novo óbito. Seriam cerca de menos 196 óbitos e menos 3800 casos. Contudo sabemos que os custos económicos e sociais de continuar com o estado de emergência até hoje seriam avassaladores.

São número relativamente pequenos (cuidado na interpretação dos relativamente pequenos, pois qualquer morte a mais é uma perda não desejável), mas que reflectem inequivocamente as consequências da interrupção do confinamento. Contudo, as razões e as opções de continuar ou interromper as medidas drásticas de confinamento prendem-se com um conjunto complexo de variáveis (sentido lato, não matemático), principalmente socio-económicas, cuja ponderação entre os prós e os contras fazem, ou fizeram, pender a decisão por uma opção de mal-menor. Qualquer das opções tinham custos associados, o balanço desses custos (uma tarefa difícil) determina a decisão. Ela poderia até ter ocorrido mais cedo, só que um desconfinamento antecipado, como já aqui referi, levaria a um maior diferencial entre os resultados das duas opções, com custos de mortalidade ligeiramente maiores e uma maior pressão na gestão hospitalar dos casos internados.

Deixo aqui uma chamada de atenção a algo que já foi referido na comunicação social. Nos últimos dias os números de casos das grupos etários mais jovens, com destaque para o grupo dos 0 aos 9 anos, tem aumentado a taxas superiores aos restantes grupos. Em particular, os grupo dos 0-9 anos tem tido taxas diárias de aumento perto dos 3%.

Por fim, deixo uma análise comparativa entre vários países, entre o número de casos após o alívio das medidas de confinamento comparado com a probabilidade de casos correspondente à opção de não desconfinamento (sem alívio). Onde se constata também a pequena diferença dos números, com a excepção, talvez, da Dinamarca e da Espanha.

Autor: Carlos Antunes

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