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Crónica de um europeu atípico. Autor: Nuno Tavares Pereira.

Este Europeu ficará na história como o Europeu da pandemia. Mas se nos grandes palcos o vírus fez grandes prejuízos, também o fez nas equipas. A maioria das equipas não consegue ficar no mesmo hotel ou local de estágio muito mais que dez dias e tanto jogam a 10 km, como a 1000 km do hotel, o que faz deste o Europeu da desorganização. Se juntarmos a tudo isso a crise que vivemos do vírus, então ninguém percebe o porquê de ser feito desta maneira. Equipas a jogar em casa vários jogos e outras sem qualquer jogo em casa. Uma verdadeira casa mal-arrumada. Mas com o mal dos outros podemos nós bem. Portugal que é o campeão em título, teve durante cinco anos tudo para preparar este torneio. E está aí o grande problema de Portugal: a organização. As escolhas do treinador foram normais, embora com algumas decisões um pouco confusas. Vejamos que retirou dois atletas aos sub-21 que poderiam fazer toda a diferença, porque os ia levar para o Europeu, mas depois não os usou e acabou por chamar um atleta que tinha ido ao Europeu Sub-21 para jogar. Em que ficamos?? Quais as prioridades? Resultados? Formação? Não entendo as prioridades.

Mas não podemos esquecer que provavelmente tínhamos nos seleccionados o maior número de goleadores europeus. Basta somar os golos de Ronaldo, Fernandes, Silva, Pote e tínhamos mais de uma centena de golos esta época nos vários campeonatos europeus. Com tanto atleta ofensivo seria um crime pensar em não jogar ao ataque. Surpreendemente, tirando o Ronaldo, nenhum dos outros jogou tanto tempo e um nem sequer entrou. Precisávamos deles no banco? O Pepe serviu para atacante? Claro que sim, o Pepe e o Ronaldo deram tudo e foram exemplo, mas sem grupo as coisas não podem andar. Antigamente não tínhamos grandes opções para mudar jogadores e jogávamos ao ataque, hoje que temos soluções para todos os lugares e com mais substituições possíveis jogamos em contra-ataque ou em transições, como se diz no futebol moderno.

Mas falando do jogo dos oitavos-de-final frente à Bélgica o que falhou? Falhou toda a fase de grupos. A má gestão do plantel na fase de grupos desgastou atletas importantes e não criou rodagem para os que poderiam dar nas vistas. Tínhamos uma grande carga fisicamente nos oito atletas que jogaram e pouca carga nos restantes. Ganhámos no primeiro jogo aos 80 minutos, levámos uma tareia da Alemanha e da França tivemos um jogo de bandeira branca.. Mas as equipas deste grupo, chamado da morte provavelmente são as mais desgastadas na fase de grupos e certamente acusarão desgaste na segunda fase da prova que é a eliminar, como se viu também com a França a cair aos pés da Suíça. Merecemos ganhar à Bélgica, mas não merecemos tudo o resto. O treinador pensou bem o jogo tacticamente, mas não pensou a tempo as trocas de jogadores. Os intocáveis demoraram a perceber que estavam a ser prejudiciais e tarde saíram. Portugal tinha de assumir em todos os jogos o seu caudal ofensivo, até porque defensivamente tínhamos o Pepe e o São Patrício que não tivemos contra a Bélgica. É o momento de deixarmos de jogar com precaução e jogar para ganhar. Somos muito fortes e, quando quisermos, imbatíveis.

A equipa portuguesa foi vítima da sua própria falta de ambição e no final faltou a estrelinha.

Saímos de cabeça levantada e uma vitória em quatro jogos. Isso é a grande verdade. Tivemos um Pepe gigante, um Renato a brilhar, um Palhinha que promete, um Félix flop, um Bernardo imóvel, um Jota fora do sítio, um Danilo dominador e um Ronaldo fora de série. Esqueci o Rafa que o treinador chegou a colocar em campo. Tivemos muito, mas demos-lhe pouco. Não lhe demos bola e liberdade para se poderem recriarem. Fomos pouco ambiciosos e precisamos de mudar isso. Temos um ano para coroar o maior jogador de todos os tempos. Nunca mais teremos outro como ele, mas temos uma equipa de futuro que não pode esperar por momentos destes. Força Portugal.

 

 

 

Autor: Nuno Tavares Pereira, Treinador UEFA.

 

 

 

 

 

 

 

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