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Deus não morre, mas morreu a sua imagem no planeta futebol! Autor: João Dinis

Estou triste.  Sou um fã “eterno” do Diego Maradona !   Sim, daquele que já foi classificado como o mais humano dos deuses e, por isso, o deus mais imperfeito e, por isso, o deus mais popular deste mundo. 

Maradona foi o melhor jogador de futebol da sua geração e está dentro daquela meia dúzia dos melhores entre os melhores !  Em verdade, é um dos poucos futebolistas que, na sua plenitude, nem um só dos treinadores, nem um só dos amantes de futebol deste mundo desdenhariam de ter tido nas suas equipas.

Agora, com a sua morte, “a equipa lá de cima – metáfora em relação aos jogadores da bola já falecidos  – ficou muito forte, quase imbatível  !”…

“El Pibe” – o jovenzito; o garoto – nasceu pobre.  Aos 11 anos, era um puto que já fazia habilidades com a bola de futebol, e que disse a uma televisão de forma premonitória:- “tenho dois sonhos. Um é jogar uma final do campeonato do mundo. Outro á ganhá-la !”…     Fez pois por cumprir esses sonhos, com determinação e arte. 

Ele próprio disse que era feliz  por ter proporcionado tantas alegrias ao povo a começar por aquele povo que pouco mais tinha como alegrias, na vida.  

Maradona ganhou muito dinheiro com a sua arte futebolística mas não têm preço as alegrias que proporcionou a tanta Gente.  Mesmo os seus adversários, bastas vezes apreciaram os seus rasgos geniais em campo.  Aliás, nenhum dos seus adversários receou ser substituído pelo treinador por ter sido driblado duas ou três vezes por Maradona. Era normal, não envergonhava ninguém, ser-se driblado por Maradona ao enfrentá-lo sem fazer falta deliberada.  

Enfim, é conhecido que não o ficou a gramar o inefável Peter Shilton – histórico guardião da Selecção Inglesa, com 1, 85 metros de altura – e que, no mundial de 1986, foi “vítima” de Maradona – com apenas 1,66 metros de altura – quando este lhe marcou o “tal” golo incrível com a “cabeça” – mas provavelmente com a mão – e que, no contexto das dúvidas acerca da legalidade desse golo, originou a mais inspirada e famosa justificação alguma vez produzida no futebol :- “Não foi a mão de Maradona – Foi a mão de Deus e a cabeça de Maradona !” – como disse o próprio Maradona…  E, logo a seguir, o mesmo Peter Shilton, a mesma Selecção Inglesa, nesse mesmo jogo desse mundial, todos os que viram – felizes mortais ! – assistiram àquele que é o melhor golo de sempre em todos os mundiais, no caso marcado por Maradona. É um golo impressionante em força e determinação durante toda a execução da jogada !  Um exemplo maior de auto-confiança, de inspiração, de classe pura!  Já revi essa jogada mais de cem vezes!  E entre o golo da “la mano de Dios” (a mão de Deus) e o “melhor golo de sempre”  passaram apenas uns cinco minutos que continuam a ser os mais famosos cinco minutos de futebol, de sempre ! Cinco minutos “abrilhantados” e imortalizados, também, pela épica narração da jogada feita por um “relator” uruguaio de serviço ao jogo em que sobressai a sua, também famosa, exclamação feita a toda a garganta:- “de que planeta viniste ?!” (de que planeta vieste ?!)  – aludindo, claro, ao Maradona quando ainda abanavam as redes do fundo da baliza “inglesa” em que este acabara de fazer aquele fantástico golo.

Por curiosidade, aqui se refere que, 21 anos depois, aqui ao lado em Espanha, em 2007, veio a acontecer a maior e mais incrível “coincidência” futebolística de todos os tempos, dos passados e certamente dos futuros, o golaço de Messi, a jogar pelo Barça, ao Getafe.  

Vão revê-lo (na Net) e vão reconhecer que este golaço de Messi – outro astro da bola nascido na Argentina – é praticamente tirado a “papel químico” do tal golo de Maradona à Inglaterra em 1986.   Ambos os craques são esquerdinos e baixotes, correm pelo mesmo lado do campo e no mesmo sentido da corrida – podemos revê-los frente ao écran a correrem da nossa direita para a nossa esquerda – perfazem praticamente a mesma distância, driblam metade da equipa adversária, guarda-redes incluídos, até marcarem os tais golos.  O de Maradona, ainda no século passado, à Selecção de Inglaterra; o de Messi, na “era moderna”, ao Getafe.  

São jogadas complexas mas, de facto, de uma semelhança impressionante, apesar das diferenças entre a qualidade das “vítimas”: – a “poderosa” Selecção Inglesa – para Maradona – e o “modesto” Getafe – para Messi.  Mas é mesmo impressionante !

Já agora, a maior e mais emocional “diferença” dos contextos entre um e outro golos, nem sequer é um ter sido numa meia final de um mundial entre selecções nacionais e outro no campeonato, “caseiro” e anual, Espanhol.  A diferença, emocional e intimamente mais “específica”, é que o golo de Maradona à Inglaterra (em Junho de 1986)  ainda aconteceu na “ressaca” da funesta “guerra das Malvinas” em que a Inglaterra imperial tinha “vencido” – com contornos de humilhação – a Argentina e tinha-lhe causado centenas de mortos, de entre soldados, marinheiros e aviadores.  Sim, aquele belo e histórico golo consumou a vitória futebolística da Argentina sobre a ainda “inimiga” Inglaterra (na cabeça e no coração de quase todos os Argentinos…), e resgatou a auto-estima dos Argentinos do trauma da “guerra das Malvinas”.  E o autor desse “tal” golo foi Diego Maradona…que de ídolo passou a ser “Dios” (Deus) !  E, também por isso, aquele golo de Maradona é irrepetível (perdoa Messi…) e irrepetíveis, ou parecidas sequer, são as suas consequências, em todos os âmbitos.

Maradona transportava e transpirava emoção e drama para dentro e fora do campo.

Maradona esteve no “olho das câmaras” e dos telespectadores na época em que a televisão tomou conta do futebol, um domínio que ainda hoje mantém. Mas, sobretudo, a partir do início dos anos oitenta, os grandes desafios de futebol passaram a concentrar mais de uma dúzia de câmaras televisivas em simultâneo.  A filmar, a escrutinar tudo aquilo que se passava dentro do campo e à volta deste.  A seguir os craques do momento e suas jogadas com grandes e pequenos “planos”, muitas vezes com repetições em “câmara lenta”.  A juntar frente aos écrans centenas de milhões de telespectadores, por todo o mundo.  A gerar receitas crescentes com a publicidade e os direitos de transmissão… 

Maradona tinha a particularidade – e não conheço outro sequer parecido com ele também neste aspecto – de inspirar e transpirar drama cénico dentro do campo, imagens que as televisões captavam em grandes planos e depois potenciavam junto de milhões de telespectadores.  Podemos ver isso, agora mesmo, nos grandes planos das filmagens detalhadas do rosto de Maradona a transpirar suor e drama – imagens do seu fácies em plena criação futebolística, por vezes alegre, por vezes em esforço. Filmagens que há sobre milhentas das suas jogadas “incríveis”, sobre os seus golos geniais. Portanto, a emoção e outras sensações cénicas que irradiavam de Maradona como ele em acção, a meu ver, constituem a sua essência humana – emocionalmente atractiva – a jogar futebol a um nível superior.

E, já agora, há outro artista da bola, outro fora-de-série que, durante uma jogada, quase “excêntrica”, exibia sensações e emoções de forma muito diferente da de Maradona mas também muito espectacular:- era ele o Ronaldinho Gaúcho que “transpirava” alegria em campo, que mostrava prazer imenso em domar a bola, e que sorria, e ria,  ao executar jogadas das mais belas e imprevisíveis que já se viram no planeta futebol.  Ou seja, mais do que na forma, a arte exprime-se no conteúdo artístico… 

Num plano mais privado, Maradona “experimentou” o gosto do inferno, com as ressacas dos seus excessos radicais com o álcool e as drogas químicas.  Mas, e como alguém já disse, eu reafirmo :-“pois que me interessa, Maradona, aquilo que fizeste com a tua vida. A mim interessa-me sobretudo aquilo que fizeste pela minha vida !”- tanto foi o prazer e a emoção que me deste a ver-Te jogar futebol !

A “lenda” humana que Diego Maradona consubstancia começa (cedo) em campos de futebol – o cognome de “El Pibe”  vem daí  – continua por todos os conhecidos excessos que praticou ao longo da sua vida. 

A jogar à bola, ele irradiou uma paixão que acendeu milhões de outras paixões inquestionáveis e que não se podem definir por palavras. A este propósito, há uma exclamação de alguém após ter visto Maradona em campo, enfim, exclamação um pouco excessiva mas também ela artística, que é mais ou mesmo assim:- “vi Deus a jogar futebol !  Já posso morrer”.

Uma outra faceta própria era a adesão de Diego Armando Maradona a várias causas sociais, era a sua denúncia militante do imperialismo “ianque” (dos EUA), em suma, era a sua frontalidade destemida. Estas características levaram-no, até, a construir uma amizade fraternal, por exemplo, com Fidel Castro e com Cuba.

Sim, a paixão por Maradona vai durar e durar.  Então, na Argentina, também em Nápoles – a “maradonápolis” –  a esta hora, já alguém se suicidou por desgosto com a morte do seu “deus” Maradona.

Sim, Deus não morre mas morreu o seu rosto futebolístico !

“Hasta siempre, gran capitán Maradona !”.  (Até sempre, grande capitão Maradona !) 

 

Viva Maradona !   Viva o Futebol e a sua espectacular narrativa em campo, mundo fora !

Autor: João Dinis, Jano

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