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Dr. António Simões Saraiva. Se foi um homem reconhecidamente bom, um humanista, um artista. Autor: João Dinis

Dr. António Simões Saraiva

Se foi um homem reconhecidamente bom, um humanista, um artista.

Sim, dir-se-á que quando as pessoas partem é costume exaltar-lhes os méritos e esquecer-lhes os defeitos ou os pecadilhos…

Não vamos fazer essa “contabilidade” em concreto, designadamente com o homem público que teve as duas maiores responsabilidades municipais em Oliveira do Hospital – Presidente da Câmara e Presidente da Assembleia Municipal – responsabilidades que exerceu durante quase 30 anos.

Invocar o “deve e o haver” de uma vida, como foi a de Dr. António Simões Saraiva, é exercício mais do que ingrato e só ensaiável por dever estrito e passado muito tempo após a data de hoje.  Aliás, aqui e agora, simplesmente, nem vale a pena tentar.

Utilizando ideias e votos que eram particularmente caros ao Dr. Simões Saraiva,  diremos:-  “Paz à sua Alma !  Descanse em Paz !”.

Pois durante este longo período em que o Dr. António Simões Saraiva foi autarca, nós fomos daqueles que mais vezes nos cruzámos com ele e seja em situações de concordância “em concreto”, seja em posições de confronto político e autárquico todavia também sempre em ambiente democrático e de respeito pelas convicções de cada um e, isto, independentemente do “tom de voz” em que nos exprimimos em várias dessas ocasiões…

Foram debates francos e leais e, como tal, não deixaram em nós marcas duradouras.

Mas para lá da sua veia autárquica, o Dr. António Simões Saraiva foi um humanista, capaz de captar muitas das injustiças deste mundo e de ser solidário com quem o procurava em aflição.

E foi um artista.  Belas Artes no currículo. Exprimiu-se em escultura, sobretudo.  Mas também em pintura, área em que, por exemplo, se abalançou a recuperar, com mestria, as pinturas do tecto da Igreja Matriz em Ervedal da Beira.

E tinha uma bela voz no cantar – cantava bastante bem – o que se aprestou a fazer popularmente e em ambientes mais eruditos nestas matérias da música e do “belo canto”, e não só dentro do nosso País pois, por exemplo, acompanhou, designadamente no Brasil, Fernando Lopes Graça – grande compositor, maestro, mestre, e musicólogo, do século XX.

Mais popularmente, chegou a participar em “serenatas”, daquelas mais populares que se faziam há décadas atrás, ao vivo, à noite, às portas das casas e por baixo das janelas,  por aqui pelo Ervedal e por Vila Franca, e um pouco por todo o lado.  Sei disso, também porque meu Pai que, embora puro amador, sempre teve pela música uma particular paixão, me contou essas “aventuras” musicais – tocadas e cantadas – onde também meu Pai participou como tocador a “acompanhar” o Dr. António Simões Saraiva no canto.

Lembro até que a minha última conversa com  o Dr. António Simões Saraiva, não chegou a matéria de natureza política e muito menos partidária como de outras vezes até aconteceu.  Falámos num restaurante em Vila Franca da Beira, à hora do almoço, em que ocasionalmente nos encontrámos.  E abordámos coisas da música, dita “clássica”, matéria em que, aliás, o Dr. António Simões Saraiva era muito mais conhecedor que eu. Retive que o Dr. António Simões Saraiva assumiu que, para ele, o maior músico de todos foi o Beethoven – “ um furacão de talento” – e a sua “Nona Sinfonia” a melhor obra musical jamais escrita e tocada.  Sou capaz de aceitar até porque uma tal opinião não deixa de exprimir um certo “gosto” pessoal e praticamente intransmissível.

Mas agora, perante o desfecho da vida do Dr. António Simões Saraiva, apetece-me ir ouvir o “Requiem” de Mozart.  Acho – é muito pessoal – que muito poucas coisas há neste mundo que tenham tocado o Céu como tocou e toca esta extraordinária música (uma “missa de mortos” de Mozart embora concluída por seguidores seus.

E faço votos de que “lá no assento etéreo onde subiste”, Dr. António Simões Saraiva, possas cantar o último andamento da “Nona Sinfonia” – e o célebre “Hino à Alegria” – do “teu” Beethoven.  Utilizo o “tu” (implícito) nestas frases anteriores porque, agora, acho falar noutra dimensão temporal, aquela dimensão indefinível entre o estar e o (já) não estar, entre o ser e o (já) não ser.  Mas em que “memória desta vida se consente”, como disse o nosso amigo Luís Vaz de Camões de que o Dr. António Simões Saraiva muito gostava também.

Adeus, e até sempre, Dr. António Simões Saraiva  !

João Dinis, Jano

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