Home - Opinião - É Domingo de Páscoa, à noite, na minha Aldeia Fantasma. Autor: João Dinis

É Domingo de Páscoa, à noite, na minha Aldeia Fantasma. Autor: João Dinis

Ruas desertas.  Luzes nocturnas, amareladas, encimando postes hirtos e sem côr.  Casas e almas pousadas em vazios que se sentem, frios…

E que ano igual a este ano passado, “não o queira jamais o tempo dar ”…

Nos silêncios que reinam e no íntimo de cada um de nós, esconjura-se o “bicho ruim”, aquele que passa à história como o “Corona Vírus”, ágil e “inteligente” em suas mutações.  Infeccioso.  Mortífero.

Sente-se a esperança ainda adiada embora já transferida para a ponta de uma seringa medicinal a injectar-nos no corpo uma Vacina imunizadora, e que, já agora, também nos “desinfecte” o cérebro de medos e outras elucubrações agoirentas….  Vade retro vírus !

Saio de noite e avanço pelas ruas da minha Aldeia.  Disseram-me que há “recolher obrigatório” mas eu saio e avanço, sozinho e fechado em mim mesmo.  Sou um “fantasma” plasmado dentro de uma Aldeia fantasma… Hoje à noite não “existimos”, eu e a minha Aldeia…

Todavia, tento espairecer um pouco, alhear-me de receios de todos os tipos.   Que é isso de imporem o “recolher obrigatório” a uma Vilafranquense na sua Aldeia que é a minha ?  Raios partam !…

Passo a passo, avanço e enfrento as sombras que me espreitam…  Se alguém me sair ao caminho direi:- “deixe-me continuar ! Preciso arejar !” E assim prosseguirei…

O Largo e o Jardim do Rossio continuam bonitos, mesmo acolhedores.   Mas assim não servem…  O Jardim Infantil foi condenado a não ter lá crianças… A Casinha Mortuária fechou as suas portas aos mortos…  Que raio de incongruências !

O Largo da Capela é um pequeno deserto em granito, assim sem Gente.  A Santa Margarida fica demasiado tempo sozinha no seu Altar, dentro da Capela.  Sim, anda, Santa Margarida, Padroeira, faz lá esse milagre, reconforta-nos !  Protege-nos !  E, desta vez, convence a Senhora da Conceição a unir-se contigo na função de Santas Milagreiras…

A Torre do Sino aponta a sua Cruz para o alto como sempre fez mas, ultimamente,  não há por ali quem a acompanhe nesse gesto.   As Preces é para subirem ao Céu mas pouco se ouvem e não se vêem.  O  Sino, “electrizado”, mantém algumas das suas rotinas e consegue bater as horas…e dobrar a finados… Mas, que é dos seus bateres festivos ?  Triste anda o Sino da minha Aldeia…

Dou um breve salto ao Cruzamento Principal, na Estrada.  O arranjado pedaço de Jardim enquadra, ali, o “Brasão” cá do Burgo.  Mas, mais do que afirmação da personalidade vincada da minha Aldeia, o “Brasão”, nestes tempos, sugere mais uma “basófia” iluminada que esteja à noite…

Continuo a dar a volta ao Povo, a fazer o “ó” como se dizia quando, livres, por aqui girávamos sozinhos ou aos bandos.

Caminho, propositadamente lento.  Nem tão pouco ouço o som dos meus pés na calçada que venho com sapatos macios.  Assumo-me como o “fantasma” de mim próprio…

E por haver pouco barulho – enfim, ainda ouço relas distantes nos campos próximos – ouço melhor os meus pensamentos que emanam de sentimentos, emoções e raciocínios entrelaçados e entristecidos.

Nesta minha viagem doméstica, atraio e absorvo o recolhimento receoso das Gentes minhas Conterrâneas e sinto-me mais pesado que os meus 80 quilos …  Sim, pesa-me muito o negro da noite (apesar de estrelada) e das almas que sei!

Atinjo as Ruas do Cimo do Povo que são mais antigas.  Já antes testemunharam silêncios nocturnos e recolhimentos compulsivos de suas Gentes, em tempos de lobos e outras feras, certos homens incluídos.  Mas suas casas eram, então, como colmeias…cheias com vidas. Agora não há lobos…há pouca Gente…e, provavelmente, podem estar dos tais vírus por aí escondidos na sua pequenez e malvadez…

Estou já no Largo do Cruzeiro.  A pedra em cruz colocada ao alto tenta abraçar as coisas em 360 graus, embora com os braços sempre abertos.  Assinala um “ponto” sensível da Povoação, mas já simbólico, um “ponto” muito antigo de derivação de ruas e de intenções por parte de quem as frequentava assiduamente.  Teve, lá, a primeira Capela…a primeira Escola…a primeira Sede mais fixa da União Desportiva e Tuna Vilafranquense.

Sucessivas gerações de Vilafranquenses por lá se encontraram, e nas mais variadas circunstâncias desta vida, naquele “ponto”, aliás bastante modificado urbanisticamente a partir de meados dos anos sessenta do século passado.    Agora já não abunda a Gente mas, nas tardes solarengas, ainda dá para tirar por ali umas fotos (preferencialmente a “preto e branco”) a captar silhuetas de mulheres idosas, de preto vestidas, como aquelas suas mais do que tetra avós de antanho.  Aliás, um par de ruínas contíguas avança sobre este Largo do Cruzeiro a ameaçar com pedras a soltarem-se do alto.  Mesmo de noite, vêem-se bem essas ruínas circundantes por onde se escoa a luz amarelada das lâmpadas públicas.  Paro e olho em volta, e para cima e para baixo. Vejo e imagino.  E penso e emociono-me um pouco nesta viagem talvez sentimental.

Arranco e desço a Rua de Santa Margarida que esta noite escorre ainda mais por entre paredes altas e escurecidas pelo tempo e pela noite.  Por cima, o céu hoje estrelado simula troços de um rio etéreo ponteado a prata brilhante que seria belo…a não estarmos neste hoje que nos aflige tanto.

Atinjo o Largo da Farmácia.  Incomodo uns gatos que por ali andam à solta, a comer dos caixotes do lixo, a caçar ratitos incautos, a miar, a bufar e a procriar.  Os gatos não têm medo de vírus e também já não aparecem cães a persegui-los. De certa forma, são gatos privilegiados…embora rueiros.

Neste momento, eu sou o “espanta gatos” noctívago, inesperado, quase insólito…

– “Boa noite bichanos, e divirtam-se!” – digo-lhes baixinho e cordial, embora saiba que eles apreciariam, muito mais, umas espinhas…uns restitos de comida…  Mas não há disso nesta noite…

Sim, esta foi a noite em que, eu, saí de casa e dei uma volta ao Povo…afinal sem ter saído de casa…que estamos em “recolher obrigatório” …que também assim me obrigam a um “desdobramento de personalidade” …fictício e autêntico!  Raios partam estes tempos!

Até a esse dia – “rezo” para que surja próximo – em que não decretem mais o “recolher obrigatório” para a minha Aldeia!   Avé!

Um Domingo de Páscoa, 4 de Abril de 2021, pela calada da noite.

 

 

Autor: João Dinis, Jano

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