Home - Opinião - Em 2020, o “ano do corona vírus”, assinalar o 25 de Abril também é defender a Democracia! Autor: João Dinis

Em 2020, o “ano do corona vírus”, assinalar o 25 de Abril também é defender a Democracia! Autor: João Dinis

Sim, o 25 de Abril não é “confinável” a becos do esquecimento colectivo e seja lá qual for o pretexto, sejam lá quem forem os ressabiados pela nossa “Revolução dos Cravos”. 

Assim, sem todavia ignorar vários condicionalismos da época que o combate ao “Covid 19” aconselha, cá estamos a comemorar Abril de cravo na mão e grito à janela:

“25 de Abril, Sempre!”.

Comemorar Abril é homenagear a memória e os exemplos de todas e todos aqueles que antes do 25 de Abril de 1974 se entregaram à luta duríssima contra a ditadura fascista e que foram criando condições para que aquele Abril florisse em Revolução, em Liberdade, em Democracia, em melhores condições de vida, com outra dignidade, para a População.

Comemorar Abril também é lembrar, agora, acontecimentos e alguns dos seus protagonistas, precisamente do levantamento militar, na noite de 24 para 25 de Abril de 1974, na madrugada, na manhã e na tarde de 25 de Abril, no caso em Lisboa.  Levantamento militar do heróico “Movimento dos Capitães” logo seguido por um levantamento popular, desde cedo, no Terreiro do Paço, nas ruas de Lisboa até ao Quartel do Carmo e, neste, até à rendição dos fascistas e de Marcelo Caetano, PIDE/DGS incluída. 

O  Povo é o maior protagonista da sua própria História e também assim foi no 25 de Abril.

Mas há personalidades que condicionam essa História.  Salgueiro Maia foi uma delas.

De minha parte, enquanto testemunha muito próxima de acontecimentos, afirmo que os fascistas teriam acabado por derrotar o movimento militar dos revoltosos a começar pelo que se concentrou em Lisboa, não fora a adesão incondicional, determinada e entusiasta do Povo de Lisboa onde também se juntou muita Gente vinda da “margem esquerda” do Tejo.  Adesão que seguiu em crescendo até ao glorioso 1º de Maio de 1974 que veio a consolidar o 25 de Abril.

E também afirmo, e não sou o único a fazê-lo, que muito provavelmente, as “coisas” não teriam tido o desfecho notável e feliz que tiveram nesse Dia – uma grande vitória sem derramamento de sangue – caso não fosse Salgueiro Maia o comandante das forças da Escola Prática de Cavalaria (EPC) que, vindas de Santarém,  ocuparam o Terreiro do Paço e que venceram o Quartel do Carmo onde se refugiou Marcelo Caetano.  

Essa força revoltosa proveniente da EPC, em Santarém, na verdade tinha uma reduzida capacidade de combate. Havia nela, certamente, outros oficiais com experiência, com coragem e determinação mas Salgueiro Maia – com as suas convicções, com a sua própria experiência em cenários da guerra colonial e as suas características pessoais e de comando em plena acção – revelou-se, hora após hora, o Homem e o Comandante certos para aqueles momentos, e assim perdurará na nossa memória e na História.  Viva Salgueiro Maia !

Podemos até dizer que a “providência” providenciou em favor os revoltosos…tantos foram ao “incidentes”, os imprevistos, até as cenas caricatas que aconteceram e que convergiram para o êxito da Revolução.  Nesse contexto, também costumo dizer que podem tentar fazer mais uns mil “25 de Abris” mas não haverá outro como o “nosso” de 1974.   

Viva o 25 de Abril !

No comando das operações, Salgueiro Maia jogou com os acontecimentos uns atrás dos outros. E tanto a reagir ao que lhe surgia pela frente como a tomar a iniciativa o que muito prezava e em que era particularmente ágil e audaz.  Aliás, Maia fartou-se de fazer “bleuf” nomeadamente ao empolar a força militar ao seu dispor naquelas horas.  Como partia do princípio de que estaria a ser escutado pelo lado opositor, o lado da reacção dos fascistas, então, vá de exagerar (“bleufar”) deliberadamente para os “intimidar”… 

Salgueiro Maia manteve-se sempre em elevada tensão, embora até parecesse calmo (por fora…) e várias vezes até irónico. Um dos seus “sintomas” de forte tensão interior era o de ficar pálido…apesar do seu tom de pele já ser claro.  Possuía um “vozeirão” o que ajudava no comando.  No Largo do Carmo, enquanto aumentava a pressão com a demora de rendição do quartel e de Marcelo Caetano, Maia fez “resistência passiva” a ordens expressas vindas de Otelo Saraiva de Carvalho para “abrir fogo e rebentar com isso tudo” – “tudo” era o Quartel do Carmo… Maia gracejou a dada altura ao comentar “tá bem, mando abrir fogo mas depois, quem paga os vidros das janelas ?”…

“ A mim ninguém me faz prisioneiro !”…

Ainda no Terreiro do Paço, Maia (e não só ele) esteve na mira dos “inimigos” que lá apareceram a enfrentar os revoltosos, com destaque para um brigadeiro – um oficial general  fascista – com camuflado vestido que chegou a mandar fazer fogo directo, a muito curta distância, sobre Salgueiro Maia e sobre um outro camarada, Tenente da EPC, no que não foi obedecido para “sorte” de Maia, do outro camarada, e do próprio 25 de Abril…

Mas o episódio mais extremo de auto-decisão  aconteceu no Largo do Carmo.  Como já se disse, arrastava-se, “perigosamente”, pela tarde do 25 de Abril, a rendição dos aquartelados no Quartel do Carmo que até era o Quartel General da GNR.  Pois, a dada altura, Salgueiro Maia decidiu entrar sozinho no Quartel – ele, Maia, que era, “apenas”, o comandante dos revoltosos e sitiantes – embora escoltado por um oficial importante, um major, da GNR, para ir falar com Marcelo Caetano e ouvir, deste, as condições em que ele estaria disposto a “render-se”.  

Ora, outros dos membros do núcleo do comando de Salgueiro Maia, tentaram dissuadi-lo disso:- que era perigoso…que o poderiam fazer prisioneiro lá dentro…que depois viriam intimar aquela força da EPC – que tentava fazer render o Quartel do Carmo – a ir-se embora dali sob pena de executarem Maia…

Então, é nesta tensão brutal que Maia exclama para os seus mais próximos camaradas militares:- “ A mim ninguém me prende, ninguém me faz prisioneiro ! Eu levo aqui comigo neste bolso (e bateu com a mão num bolso “gordo” das calças da farda) duas granadas defensivas (daquelas que ao rebentar espalham a toda a volta uma chuva de estilhaços metálicos e letais) e se tentarem prender-me faço-as explodir!  Vou entrar sim !  Agora, se eu não voltar dentro de um quarto de hora, então rebentem com isso tudo! “.  E o “isso tudo” voltava a ser o Quartel do Carmo…  

Pois eu estou convicto que caso lá dentro (ou noutro lado qualquer) tivessem tentado prender Salgueiro Maia, este teria feito explodir as granadas e, com elas, claro, “explodiria” ele próprio, a seu próprio mando…  Enfim, felizmente isso não aconteceu e o Quartel do Carmo e Marcelo Caetano acabaram por ceder aos revoltosos sem derramamento de sangue, aliás como Salgueiro Maia sempre procurou que acontecesse e que, aliás, fez acontecer em vários momentos de alta tensão, desde madrugada até à noite de 25 de Abril.

Comemorar Abril também é fazer respeitar a memória e o exemplo dos seus heróis.

Salgueiro Maia é um dos maiores heróis da revolta do 25 de Abril.  Ele nunca o quis assumir mas sabia bem que de facto o era.  Logo a seguir, em plena fase da Revolução, recusou elevadas promoções civis e militares.  Voltou a ser um “simples” Capitão de Cavalaria.

Morreu jovem mas ainda pôde sofrer alguns vexames pessoais que lhe foram aplicados por “vingança”.   Foi “deportado” para os Açores após o 25 de Novembro de 1975… Regressou a Santarém e, aí, em vez de o recolocarem na “sua” EPC,  puseram-no a comandar o “Presídio Militar” o que mais não foi do que uma forma grosseira e muito injusta de o menorizarem, e bastante.

Alguns anos depois, já com Salgueiro Maia morto, um “elemento” houve que se sentava na cadeira de Primeiro Ministro de Portugal e que recusou atribuir uma pensão vitalícia à viúva e aos dois filhos de Salgueiro Maia enquanto concedia pensões do tipo a dois ex PIDES/DGS… Esse “elemento” é Cavaco Silva, que nem é digno de lamber as solas das botas de Salgueiro Maia. E que se não fossem Maia e o 25 de Abril nunca teria sido nada do que foi em Portugal…

“O Povo é quem mais ordena !”

O 25 de Abril é do Povo e para o Povo.  Também por isso, é necessário defender Abril dos saudosistas do antes do 25 de Abril, dos saudosistas dos tempos da ditadura fascista.

São desses que, hoje, procuram aliar-se ao “covid 19” e infectar o nosso 25 de Abril.  São desses que, hoje, voltam a mostrar a dentuça ao pretenderem silenciar as comemorações do 25 de Abril a pretexto da pandemia do “Corona vírus”.  São desses, hoje, vários dos que espalham a ”epidemia” dos ataques aos direitos concretos dos Trabalhadores e do Povo nesta fase difícil em que a saúde é prioridade mas onde a vida diária, no seu todo, não pode deixar de o ser também.

Por isso, comemorar o 25 de Abril é defender a Liberdade, é defender o nosso Povo!  

 

A luta continua !

 

25 de Abril Sempre !

Autor: João Dinis (“Veterano” do 25 de Abril de 1974)

 

FOTOS (DR): ALFREDO CUNHA (Natural de Celorico da Beira, foi provavelmente o fotojornalista mais importantes na cobertura da revolução do 25 de Abril)

LEIA TAMBÉM

Tabaco: o inimigo mortal da saúde cardiovascular. Autor: João Brum Silveira

Todos os anos quase dois milhões de pessoas morrem devido ao tabaco, refere o relatório …

 Milhões de euros em «derrapagens» por Oliveira do Hospital. Autor: Carlos Martelo

Há quem diga que as «derrapagens» em prazos de execução de várias obras municipais pretendem …