Home - Opinião - Em Ano de Autárquicas, Correr Atrás do Prejuízo é o Desporto Nacional. Autor: André Rui Graça

Em Ano de Autárquicas, Correr Atrás do Prejuízo é o Desporto Nacional. Autor: André Rui Graça

Pelo menos assim parece. O título é claro quanto baste. Irei elaborar melhor o que pretendo dizer, mas, desde logo, proponho que o comité olímpico internacional possa vir a considerar que esta modalidade de equipa integre já os próximos jogos de Paris. Efetivamente, tal como numa prova de grande fôlego, a política autárquica parece ter a sua própria dinâmica e os seus ciclos. É sabido que o primeiro ano após as eleições é, por norma, um ano de grande constrangimento económico, uma vez que o ano anterior foi de anormal dispêndio.

Depois, os dois anos seguintes, decorrem numa espécie de velocidade de cruzeiro. Há municípios que sabem aproveitar bem estes dois anos e utilizar o primeiro para alavancar investimento para construir obra até ao final do mandato; há outros municípios, que logo a partir do segundo ano, começam a envidar esforços para criar teias de interesses de forma a tentar assegurar uma base de apoio que garanta a reeleição – daí ser por vezes tão difícil destronar os poderes vigentes. O quarto ano, como é amplamente sabido (e até satirizado), é o ano da política do alcatrão, das cerimónias de corte de fitas – mesmo em espaços que ainda não estão prontos – e das obras de fachada. É um ano de grandes gastos, em que várias situações que anteriormente poderiam ter sido resolvidas e desbloqueadas o são devido à proximidade das eleições. Para muitos, que vivem neste e deste sistema, é o ano do sprint final; do “tudo por tudo”. No ano seguinte, quer haja mudanças ou não, volta-se a um ano de contenção económica pelas razões óbvias. Assim se fecha e perpetua o ciclo em muitos concelhos.

Este fenómeno manifesta-se em todos os níveis de política (autárquica, regional, nacional, etc…) e não é exclusivo de Portugal. Porém, este ciclo tem sido uma má prática, aperfeiçoada durante quase 50 anos, eximiamente explorada, transmitida de geração em geração e bem conseguida no nosso país. Normalmente tudo começa com a identificação de problemas e maleitas – que eventualmente vêm à tona em ano de eleições devido à pressão da comunicação social – cuja resolução se vê calendarizada para coincidir com momentos particularmente convenientes e vantajosos para os políticos em funções. Porém, estes momentos podem estar completamente desfasados dos momentos necessários para as populações. Em linguagem comum, chama-se a isto, “correr atrás do prejuízo”. competitiva.

Nem todos os executivos e municípios funcionam assim. Há exceções. E, suponho, fará sentido nesses casos apoiar a recondução dos projetos políticos e dar-lhes segurança para continuar num mandato subsequente. Cada munícipe saberá o que fazer melhor com a voz que o voto lhe confere e, estou certo, será bem capaz de distinguir o fogo de vista da competência séria – muito embora seja cada vez mais difícil fazer essa distinção, infelizmente.  O fulcro da questão não é, neste caso, a exceção, mas sim a regra. Por outras palavras: os locais (normalmente situados no Portugal mais profundo e interior) em que a política tem pouca chance de ganhar substância acrescida por várias razões e onde é notória uma instrumentalização do poder por parte dos executivos vigentes, sedentos de garantir a continuidade. No meio de toda esta poeira, que perspetivas poderemos ter para estas autárquicas e para a nossa região?

É comum que, com o passar das décadas, com a indisponibilidade profissional, com o envelhecimento dos protagonistas, a limitação de mandatos consecutivos, o desgaste da imagem pública, haja mudanças. Se estas ocorrerem pelos melhores motivos, é efetivamente saudável e positivo que aconteçam. Se trouxerem valor acrescentado para a população, com pessoas mais competentes a quererem integrar projetos políticos em curso, mas que buscam renovar-se, ainda melhor.

A questão, que todos sabemos, mas que muitos acabam por ignorar, é que por trás de algumas destas alterações de plantel estão autênticos golpes palacianos. Assim se desloca o conjunto dos interesses do bem comum da população para o sucesso eleitoral a qualquer custo e para as redes de influência e amiguismo que se criaram. Ainda antes das eleições, começam as danças das cadeiras e não há lugares para todos. Nesta roda, por várias razões, fica de fora quem teria muito para dar. Para infortúnio da população, assistimos, por vezes a outro fenómeno: tal como um buraco negro tem uma força de atração brutal, também o vazio ideológico possui essa propriedade. Que seria da mediocridade se não se agremiasse e entreajudasse? Em alguns campos da sociedade é importante que essa solidariedade se manifeste, noutros (como a política), é nefasto.

É preciso coragem e condições para que se possa romper com esse exemplo que tem prestado tão mau serviço às populações ao longo dos anos. As populações do interior, tantas vezes deixadas à sua mercê pelos poderes centrais, merecem que política se eleve e alcance um nível de estratégia concreto e que cubra todos os anos do mandato. Hoje, em demasiados locais, assistimos ainda às obras para encher o olho e ao tapar buracos em ano de eleições. Recapitulando: tudo isto sucede por três razões principais: correr atrás do prejuízo; necessidade de mostrar expediente que se veja; falta de visão de que a estratégia municipal se consubstancia em muito mais do que em infraestruturas.

Será que esta correria toda tem razão de ser? Será que, enquanto eleitores, deveremos continuar a permitir que este ciclo continue a acontecer? De par com as obras e o alcatrão, o interior precisa de visão e, acima de tudo, de um pensamento estratégico. Mesmo no que é tocante às obras públicas para beneficência das populações é necessário agir com propósito. Urge que cada município e cada freguesia olhe para o seu caso específico e que os decisores correspondam às necessidades concretas, atuais e futuras, do território e das populações. Basta olhar em volta para perceber que vão existindo “modas” (muitas delas polémicas e importadas de cidades do centro da Europa, com características completamente diferentes das nossas, nomeadamente em termos de clima e de relevo). Onde quero chegar: fazer por fazer não equivale a valor acrescentado. E mesmo quando se faz, é preciso trabalhar noutros pontos, que não só os infraestruturais.

O interior precisa que, mesmo em ano de eleições (ou em qualquer outro ano) se ponderem medidas que possam ajudar a esbater as desigualdades territoriais, ao mesmo tempo que abrem o caminho para um amanhã mais próspero. A política tem uma grande dimensão de gestão, mas a gestão é mais abrangente do que a política. Justifica-se, por isso, que haja ação, em vez de reação. É da mais elementar necessidade dar conta dos problemas prementes das populações e ir colmatando as falhas que vão surgindo. Contudo, é preciso ir além disso. Vale a pena jogar por antecipação, criar um plano e executá-lo, em vez de praticar uma gestão de emergência, improviso ou de ocasião. O litoral é beneficiado por várias razões e os ciclos de crescimento tendem a autoalimentar-se. Porém, é importante que se note que crescimento de algumas zonas litorais (especialmente no litoral fora das zonas das duas grandes cidades) está, também, muito ligado a políticas com visão e que foram muito para além de tomar conta das localidades tal como elas se apresentam.

É importante que olhemos de forma crítica para a política (autárquica, neste caso), os seus ciclos, aquilo que efetivamente importa e quais as prioridades que valorizamos. Seja para que lado queiramos seguir, há um longo caminho a percorrer. Contudo, deveremos refletir que tipo de administração mais nos convém.

 

 

 

Autor: André Rui Graça

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