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Fantasia em torno de uma sessão, que seria recente, de um Executivo Municipal. Autor: Carlos Martelo

Uma destas últimas noites, regressámos à leitura do «Auto da Lusitânea» desse enorme vulto da cultura nacional que é «Mestre» Gil Vicente – do Teatro, da sátira assumida, da ironia artística e da brejeirice mais popular –  pese embora também tenha ele escrito demasiadas vezes, que nos perdoe, em Castelhano, mas era hábito na sua época.

Os personagens principais deste Auto (2ª parte) dão pelos nomes próprios de : «Ninguém –  Todo o Mundo  –  Belzebu – Dinato» e a ironia da trama apoia-se bastante nesses nomes que suscitam múltiplos trocadilhos.

Vamos a um curto trecho:

– «Ninguém: O meu nome é Ninguém e busco a consciência.

Belzebu: Esta é boa experiência.  Dinato escreve isto bem.

Dinato: Que escreverei companheiro ?

Belzebu : Que Ninguém busca consciência e Todo o Mundo dinheiro».

Pronto, «Mestre» Gil foi enorme e em Português e em Castelhano quinhentistas.

Aqui e agora, não nos pretendemos sequer insinuar «destarte» mas entrou-nos na cabeça a ideia de, nós próprios, tentarmos um pedaço de prosa a cheirar a fantasia premonitória.  Não vamos versejar muito que isso é tarefa demasiado árdua para quem não curte o estilo.

Querem assistir connosco ?  A cena recai sobre a sessão do Executivo em que o novo Presidente em chefe distribui funções pelos seus supostos colaboradores principais  :

Sessão de um Executivo a iniciar funções (no caso autárquicas)

No espaço cénico, vê-se uma mesa grande com oito personagens sentadas à volta.

No topo, está o Presidente em chefe do Executivo que inicia a sessão em tom pró solene :

– Senhoras e Senhores, dou início a esta reunião.  Aqui, connosco está também o Secretário, Ditocujo, para ir escrevendo a Ata, função que é a primeira a ser atribuída por mim, o vosso Presidente em chefe.  Ninguém tem nada contra e todo o mundo está de acordo – remata.

Interrompe-o a voz de um pró-edil,  dito da «oposição» e já repetente nestas lides:

– Perdão, não conclua por nós que não fazemos parte da sua corte partidária de subordinados.

– Esságora !  Isto aqui não é a tropa embora eu nunca lá tenha ido !  E faço notar que eu não sou subordinado.  Eu cá sobretudo sigo a minha cabeça e por isso a tenho alta e muito visível mesmo à distância – diz um outro edil que tem um pequeno portátil aberto à sua frente.

– Senhores, peço que respeiteis a boa ordem a manter na sessão.  Quem quiser falar deve primeiro pedir-me a palavra, esperar a sua vez e não interromper os outros – sentencia o Presidente em chefe.

– Mas logo o interrompe uma Senhora outra vez edil e em principio da mesma equipa do Presidente: Ah !  Olhe que o anterior Presidente não se impunha assim e era mais do que Presidente em chefe, era-o também em presença, em dedicação e até por religião.  Era um Presidente predestinado quer dizer, era como a pescada, antes de o ser já o era.

– Interrompe por sua vez o Presidente em chefe virando-se para o já nomeado «secretário escrivão» : –  Ditocujo, isto não é para ir para a Ata…  Como a entendo minha Senhora, como a entendo… Mas peço-lhe que olhe para mim e veja mudança.  Há circunstâncias que se não vão repetir neste mandato, nesta casa.

Ditocujo – ordena de seguida –  põe agora na Ata: Proponho que o nosso companheiro edil alegadamente não subordinado seja o nosso Vice-Presidente quer dizer, que seja ele quem manda, a seguir a mim e apesar de um outro presidente que temos eleito para outra função.

– Volta a falar a Senhora de há pouco:  Oh ! Não é isto que era suposto vir a acontecer.  Então, vai buscar este homem que jogava em equipa secundária, e mete-o logo a titular como «vice-capitão» desta nossa equipa ?  Então, já cá estava na nossa equipa principal, e há uns anos, o nosso outro companheiro também ele homem do desporto ?!   Aliás, antes, tínhamos por cá dois homens do desporto e a coisa andou bem entre nós, sem «faltas» e antecipações à margem da nossa lei.  E, principalmente, já cá estava eu própria enquanto «vice» em potência e vocação, e com experiência conquistada a vários níveis e âmbitos !  Então ?   Não era isto que supostamente deveria acontecer!  Terei que apelar… Vou mesmo «meter uma cunha» presidencial, aliás como bem sabemos por aqui fazer !

Agora, o Presidente em chefe sou eu !

– Mas isto, neste Executivo, não vai e não irá, aqui o afirmo, pela sua simples vontade nem que fale com Deus  – atira para a Senhora, em tom todavia contido, o Presidente em chefe que, afinal, receia precipitar más consequências com estas suas decisões…

– Perdão, caro Presidente em chefe – diz o outro edil e homem do desporto, membro da anterior equipa principal.  Antes, desde há 12 anos atrás, o Senhor batia a bola mais baixinho e de facto agora está bater alto sem jeito e sem necessidade. O Senhor não é homem do desporto para poder preferir entre dois especialistas na matéria.  Assim, primeiro deveria ter ouvido os seus companheiros de há anos, antes de se pôr a distribuir este jogo.  Mas optou por trazer, a esta nossa primeira sessão, o cozinhado já feito, e decerto em cozinha fina, onde se usa aventais e luvas.  Agora, podemos vir a ter de recorrer ao «var» destas coisas.  Aliás, o «var» mantém-se por aí, como sabem…

– Ditocujo que escreves tu ?

– Que escreverei companheiro ?

– Que o Senhor crítico quer vice-comandar e a Senhora alto poleiro. A Senhora parece que ainda não percebeu mas o Presidente em chefe sou eu ! – conclui.

– Peço a palavra, Senhor Presidente magnificamente em chefe até agora ! – interrompe um pouco agitado o Senhor nomeado «vice» de cabeça luzidia.  Com esta conversa ressabiada que aqui trazem os queridos Colegas, apetece-me sair e ir cumprimentar uns amigos enquanto revejo o estado dos buracos da obra na Zona Histórica – afiança.

– Interessante – fala um experiente pró-edil agora colocado na dita «oposição» – ainda agorinha estão a iniciar funções e já começam a tropeçar uns nos outros.  Hum, assim o «carro municipal» vai andar aos solavancos e ainda que com recurso a motoristas.  Porém, manifesto a minha disposição para ajudar este nosso barco a singrar melhor nas águas dos projetos municipais e afins.  Mas, atenção, não o farei «a leite de pombo», disposição que, em geral, existe cada vez menos.  Se é que me compreendem…

– Oh ! – exclama em tom de lamento um outro participante na reunião – onde é que eu já vi isto ?!  Que raio de tendência, a deste homem !… – suspira cabisbaixo.

– Replica o Presidente em chefe: Ditocujo, isto não vai para a Ata. Desculpe caro Senhor supostamente opositor mas estou muito escaldado em relação a si para aceitar a sua oferta, enfim, pelo menos por agora…  É que já antes tive que o «batizar» com um nome feio que remete para traição…  De facto, tenho que evitar ter de vir a utilizar mais uma figueira para si, senhor…

– Ditocujo que escreves agora ?

– Sim, companheiro que escreverei eu a findar ?

– Que ninguém é de fiar e todo o mundo quer mandar ! – remata o por enquanto Presidente em chefe ajeitando os óculos que lhe tinham descaído para a ponta do nariz.

 

Ouve-se logo de seguida e vindo cá de fora da sala, o novo/velho coro dos «boys and girls»:

– «Nosso jeito é conhecido

Somos afilhados do ´patrão´

Queremos o tacho apetecido

É essa a nossa vocação !».

E, por agora, cai o pano nesta encenação.

 

Carlos Martelo

 

 

 

Autor: Carlos Martelo

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