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Carlos Mendes, o deputado municipal com mais mandatos no activo, na madrugada do dia 25 de Abril de 1974 dormia a sono solto na sua casa da Bobadela.

Figuras: Carlos Mendes

Imagem vazia padrãoÀs seis da manhã desse dia ficou desperto pela notícia do “golpe de Estado” e a sua vida, a exemplo de outras, mudou de forma radical. O Luís, guineense, amigo e colega do liceu em Coimbra, um dia “abriu-lhe” as fronteiras da sua consciência política…

“Se não fosse a Revolução de Abril, certamente nunca teríamos conhecido e apreciado os talentos amordaçados de mulheres e homens …”. É uma forma redutora e simplista de contemplar à distância os efeitos da revolução, mas esta afirmação de um militar de Abril é significativa, daí que as “cantigas sejam muitas armas…” para José Mário Branco, Sérgio Godinho, Fausto….e dezenas de outros poetas, músicos e cantores, com o maior de todos a liderar a prestigiada lista: Zeca Afonso.

Luís Cília era um desses cantores que o jovem Carlos Mendes ouvia na sua residência, nos tempos de estudante – as cantigas e as conversas de ocasião, de certo modo, ajudaram a moldar o seu carácter político.

– “A casa onde estava era uma espécie de “república” (residência de estudantes); a política não estava sempre presente nas conversas, mas às vezes falava-se, comentava-se…” – e as cantigas davam o mote para ideias “mais ousadas”…

– “Um dos meus melhores amigos e companheiro de todas as horas, o Luís, natural da Guiné, uma vez disse-me que queria jantar comigo no dia seguinte. Então, cara a cara, trouxe à conversa a nossa profunda amizade e perguntou se eu era capaz de guardar um segredo – claro, respondi. Contou que havia sido convidado pelo PAIGC para tirar um curso, salvo erro na Checoslováquia, e que decidira aceitar. Parecia-me bem, se isso era o melhor para si, que fosse, a minha boca não se abria.

Como estávamos em guerra nas colónias, possivelmente iria lá parar, por isso, atalhei: – “Se um dia, por azar, ficarmos frente a frente, de arma na mão, que fazemos? O Luís pensou uns segundos, a resposta veio curta e arrepiante: – “cada um de nós defende uma ideologia, por isso…”.

– “Nesse dia tomei consciência de que eu não defendia coisa alguma, ao contrário do meu amigo. A partir daí passei a olhar melhor o que se passava à minha volta, percebi que tinha chegado a hora de me assumir publicamente, e as minhas posições cívicas passarem a ser diferentes ”.

Talvez por isso, Carlos Mendes não compareceu à incorporação militar na altura certa, foi dado como refractário, tudo se compôs, mas em Abril de 1974 resolveu, em definitivo, a sua situação militar – os festejos extravasaram todas as alegrias imaginárias.

Candidato à Assembleia de Freguesia da Bobadela em 1976, é eleito deputado municipal em 1979 – começa nesse ano a sua carreira política, que mantêm até hoje. Galardoado com a medalha de Mérito Municipal ao atingir um quarto de século de trabalho efectivo, honra-se do desempenho das missões para que tem sido eleito, e reconhece que estar na oposição é muito mais cómodo do que exercer o poder, e salienta o mérito que é devido ao ex presidente Simões Saraiva, no tempo em que “…o concelho estava meio abandonado e a Câmara sem dinheiro para fazer face às necessidades mínimas”.

– “O concelho deve-lhe imenso, sempre se mostrou interessado na solução dos problemas, e a sua maneira de ser, apaziguadora e dialogante, foi importante nessa altura de carências de toda a ordem”.

– “Passados todos estes anos, julgo poder dizer que a minha consciência não me acusa de qualquer comportamento menos digno, mantenho-me fiel aos valores que sempre defendi, sou respeitado e estimado, retribuo do mesmo modo, há amizades que vêm de outros tempos, longe das minhas actividades políticas, e que se mantêm até hoje. A política não deve afastar mas unir as pessoas para benefício do bem comum, quer estejamos no poder ou na oposição; o modo de gerir a coisa pública pode ser diferente, as ideias podem ser outras, mas a preocupação é a mesma: fazer mais e melhor”.

Acabado o liceu, após a morte do pai, entendeu por bem permanecer junto da família. Seguem-se tempos de grande intensidade profissional: cinco anos na Cooperativa de O.H. e depois “quase uma vida” na SÉPORAVI. Pelo meio “sonhou” e deu vida a uma galeria de arte na cidade, foi presidente dos Bombeiros, voltou a “sonhar”, desta vez com uma entidade bancária no concelho, e nasceu a Caixa de Crédito Agrícola; eleito para o conselho fiscal, continuou a fazer parte do “núcleo duro” da instituição, agora como presidente, e é no desempenho dessas funções que se desenvolve todo o projecto do edifício sede da CCA, inaugurado com pompa merecida – verdadeiro ex-libris da cidade.

– “O edifício, como se sabe, tem duas vertentes: bancária e social, postas ao serviço da população e das instituições públicas e privadas do concelho. Sempre que nos é solicitado, disponibilizamos os espaços reservados para manifestações culturais, sem custos..

 

O amigo Luís, por onde andará? 

– “Como instituição bancária, desempenhamos as nossas funções em prol dos associados e clientes em geral, e posso afiançar que há muitas empresas no concelho que continuam de pé graças ao apoio da Caixa; sem esse apoio, possivelmente teriam encerrado as portas, o que agravaria ainda mais a economia do concelho. Não podemos esquecer que temos três sectores em crise: a construção civil, as madeiras, e as confecções, com algumas fábricas a subsistirem, felizmente, graças à qualidade dos seus produtos, mas se essa qualidade se perder…”.

Multifacetado na actividade profissional, Carlos Mendes mantém a coerência dos valores cívicos e de cidadania. Por alturas de Abril de cada ano, a memória fica mais luminosa e lembra-se do Luís, o amigo guineense com quem nunca mais se cruzou…

Por onde andará?

Carlos Ramos

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