Home - Destaques - “Fiz tudo o que foi possível para que isto (extinção da freguesia) não estivesse a acontecer”
“Fiz tudo o que foi possível para que isto (extinção da freguesia) não estivesse a acontecer”

“Fiz tudo o que foi possível para que isto (extinção da freguesia) não estivesse a acontecer”

É com sentimento de “revolta” e ao mesmo tempo de consciência tranquila que a presidente da Junta de Freguesia de Vila Pouca da Beira caminha para o final do mandato autárquico e para a anunciada extinção da freguesia.

Para Maria Graciosa Fontinha, a anexação a Santa Ovaia é uma “injustiça e um contrasenso”, da qual garante não ser responsável pela opção de não pronúncia. Pelo contrário, entende que o PSD local é que deveria ter interferido junto do governo, no sentido de que fossem poupadas as freguesias do PSD.

Correio da Beira Serra – Com a a anunciada extinção da freguesia, com que sentimento avista o final do presente mandato autárquico?
Maria Graciosa Fontinha 
– Com sentimento de revolta. É uma injustiça a anexação da freguesia de Vila Pouca da Beira a Santa Ovaia, ou qualquer outra freguesia. Vila Pouca é uma terra com história. Foi concelho durante centenas de anos e teve carta de foral. Em 1257 já tinha o sue município próprio com juiz, e temos ali o pelourinho que embora um pouco destruído é símbolo dessa municipalidade. É um marco histórico que preservamos. Para além disso, nos últimos 10 anos foi das poucas freguesias do concelho que não perdeu população. É sinal de que nos últimos 10 anos foram criadas condições para as pessoas não saírem daqui. Alguma mudança houve para que as pessoas quisessem ficar. No entanto, muita gente também partiu devido à situação económica do país.

CBS – Foi apanhada de surpresa com esta decisão?
MGF 
– Sempre tive esperança de que Vila Pouca fosse poupada. Também é um contrasenso quando a lei tem em vista a extinção de freguesias com mil habitantes e depois vai unificar duas que não chegam a perfazer os mil habitantes. Então, isto não é um contrasenso. A Unidade Técnica nem deve ter conhecimento disto. É o tal trabalho de gabinete. Não vêm ao terreno e não sabem a realidade do interior. Essas pessoas deveriam ser aqui postas a viver, para sentirem na pele. Isto vai afetar sobretudo as pessoas idosas. Ainda não sabemos onde vai ser a sede, mas as pessoas que se tenham que deslocar de Digueifel para Santa Ovaia é complicado. O povo da Digueifel é que vai ser o mais prejudicado. Está mais ligado a Vila Cova, no concelho de Arganil e até é capaz de ter a sua razão, apesar de nestes 12 anos também terem sido beneficiados com a minha presença.

CBS – Acha que o processo que levou à extinção da freguesia poderia ter sido conduzido de forma diferente, ou seja, por via da pronúncia?
MGF – 
Não. Também fui a favor da não pronúncia. Pela pronúncia acho que haveria conflitos. Era capaz de não ter sido tão pacífico. Para além disso, houve concelhos que seguiram esse caminho e depois a pronúncia não foi levada em conta, como aconteceu em Arganil, em que defendiam a continuidade de Barril do Alva e a proposta não foi aceite pela Unidade Técnica. Estava destinado que tinha que ser assim…

CBS – Não concorda, por isso, com o PSD concelhio quando acusa os presidentes de Câmara e da Assembleia de serem responsáveis pelo abate de cinco freguesias no concelho?
MGF – 
Não. Pelo contrário, acho é que o PSD local poderia era ter interferido com o governo para que as freguesias do PSD fossem poupadas.

CBS – Qual é o sentimento da população em relação à extinção?
MGF –
 Estão aborrecidos, mas ainda não não têm real noção do que vai acontecer. Estão expectantes no que isto vai dar e, ao mesmo tempo, receiam que a freguesia seja esquecida.

CBS – Termina aqui o terceiro mandato, pelo que não se poderia recandidatar à Junta de Vila Pouca. Pondera uma candidatura à União de Freguesias de Santa Ovaia e Vila Pouca?
MGF –
 Não. Vou ficar por aqui. É altura de dar a vez aos que tanto se incomodam com o que é feito. Está na hora de mostrarem aquilo que valem. De onde menos se espera, por vezes surgem bons candidatos. Por agora, dou este meu caminho por terminado.

CBS – Vai ficar na história da freguesia como sendo a última presidente de Junta de Vila Pouca da Beira. Sente-se coveira?
MGF – 
Não sinto. Não fiz nada para que isto estivesse a acontecer. De modo nenhum. Tenho pena que isto esteja a acontecer comigo. Mas fiz tudo o que foi possível para que não acontecesse. Não estava nas minhas mãos.

CBS – Qual considera ter sido o seu maior contributo em benefício de Vila Pouca da Beira?
MGF –
 O meu trabalho teve várias vertentes. Na área social, devo destacar a criação do Centro de Dia para idosos e o apoio domiciliário em parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Galizes. Antes não existia nada na freguesia e era complicado criar uma IPSS, pelo que esta foi a melhor forma encontrada para assegurar os dois serviços na freguesia. Porém , a continuidade do Centro de Dia dependerá do futuro executivo que vai presidir à União de Freguesias, porque o seu funcionamento é assegurado pela Junta de Freguesia. Só as refeições é que são asseguradas pela Santa Casa. O Centro de Dia é hoje muito importante em Vila Pouca porque temos vários utentes que dependem daquele apoio. Também fiemos vários melhoramentos. Posso dizer que praticamente alcatroámos e calcetámos tudo. Só me faltam quatro caminhos que gostava de ver arranjados. Pelo menos um gostava que ainda fosse arranjado neste mandato.

Também houve melhorias na área de limpeza e tratamento de águas residuais. Com exceção de duas ruas em Vila Pouca e no bairro da Felgueira, temos saneamento em toda a freguesia. Ainda batalhei pela resolução deste problema junto da Câmara Municipal, mas até agora ainda não consegui. Por outro lado, Vila Pouca nunca foi tão divulgado como agora na comunicação social. Dou o exemplo da Festa do Bodo que foi recriada pelo meu executivo já no primeiro mandato e que permite que a freguesia seja falada por bons motivos. Vila Pouca tem ido longe. Também criámos um grupo de cantares tradicionais que ajuda a divulgar o nome da freguesia. Também temos a nosso favor o facto de termos em Vila Pouca a Pousada do Convento do Desagravo, que é um ex líbris do concelho. E a recente edição do livro sobre o convento também deu um contributo importante à boa divulgação da nossa freguesia, permitindo também que a história da freguesia fique perpetuada. O livro já estava há muito pensado e chegou, agora, em momento oportuno.

“Ainda estou à espera que o caminho seja alcatroado”

CBS – O que é que ainda gostaria de ver feito em Vila Pouca da Beira?
MGF 
– Gostava de ver feita a ligação de Vila Pouca a Lourosa e que é de apenas dois quilómetros. Atualmente, para nos deslocarmos a Lourosa temos que percorrer entre 10 a 12 quilómetros. Trata-se de um caminho agrícola que precisa de ser pavimentado. É uma obra que o presidente da Câmara me prometeu desde a primeira hora. Transmiti-lhe essa necessidade e ele sempre me disse que ia ser feito. Já falta pouco para o final do mandato, mas eu ainda acredito que o presidente cumpra com a sua palavra e mande executar a obra. Ainda estou à espera que o caminho seja alcatroado. Outro sonho era fazer uma praia fluvial em Digueifel. Há lá uns caneiros que poderiam ser aproveitadas. Ainda cheguei a falar com o antigo presidente da Junta de Freguesia de Vila Cova do Alva. Era um sonho comum fazermos ali a praia fluvial, mas implicava comprar um terreno. O presidente faleceu e quem o sucedeu já não tinha a mesma opinião, talvez porque se tratava de uma obra em território de Vila Pouca da Beira.

CBS– Como avalia as condições de vida em Vila Pouca?
MGF – Julgo que se vive bem aqui. Pelo menos a comparar com há 12 anos atrás, julgo que não tem nada a ver. Quando vim para a Junta, o Bairro do Outeiro parecia o terceiro mundo. Era esgotos a céu aberto e muito lixo naquelas ruas, enfim era uma porcaria…só visto. Acho que vim dar um ar mais digno à freguesia. E se me chegar o dinheiro ainda gostava de requalificar a berma desta estrada principal. Esta é uma estrada nacional (EN 230) e competia à direção de estradas arranjá-la. Esta estrada está em muito mau estado e se não for arranjada não vai aguentar o próximo inverno. E por ser Estrada Nacional, tem sido um grande problema, porque não podemos arranjar uma berma sem pedir autorização, nem pôr uma placa identificativa de freguesia junto às Vendas de Galizes. Não podemos fazer nada. Andei cinco anos a escrever ofícios à Estradas de Portugal para arranjar a estrada até à saída da povoação. Foram feitos alguns remendos. Ultimamente nem tenho insistido muito, porque queria ver se conseguia, junto da Câmara, que fosse substituída a conduta de água entre as Vendas e Vila Pouca, porque está sempre a rebentar e temos imensa falta de água. Às vezes acontece todas as semanas. Tenho falado com o presidente da Câmara para procedermos à substituição e, assim, estarmos em condições de fazer força junto da EP para arranjar a estrada. Não vamos arranjar a estrada, para depois voltar a esburacar.

CBS – Que outras condições são garantidas à população?
MGF –
 Na freguesia já não há escola. A escola fechou no ano em que entrei para a Junta. Eu não queria, mas como abriu a Escola do Vale do Alva foram proporcionadas melhores condições aos alunos. Também não temos, nem nunca tivemos posto médico. A Pousada do Convento do Desagravo é hoje a principal empregadora da freguesia. Ainda temos alguns construtores civis, um café, um restaurante, empresas de jardinagem, táxis, tratores, uma oficina de pintura automóvel, agência funerária e uma empresa de transformação de pedra. A Associação de Melhoramentos de Vila Pouca e a Associação Recreativa e Cultural de Digueifel também dão vida à freguesia que, em termos de festas é animada pela Festa do Bodo,  Festa dos Carolos e Festa Nª Srª do Rosário, em Digueifel.

CBS – Neste mandato não partilha a mesma cor política do executivo municipal. Como têm sido as relações entre a Junta e Câmara Municipal?
MGF – 
Não tenho nada a apontar. Sempre fui muito bem recebida e bem tratada pelo presidente e todos os vereadores.

CBS – Gostaria de continuar a ver José Carlos Alexandrino à frente dos destinos da autarquia?
MGF – 
(Risos) Prefiro não responder a essa pergunta. Mas devo dizer que tenho a maior consideração pelo presidente da Câmara Municipal.

LEIA TAMBÉM

Aperta-se o cerco ao condenado Presidente da CM de Castelo Branco que contratou, durante a pandemia, mais de meio milhão de euros em espectáculos cancelados

O presidente da Câmara de Castelo Branco, Luís Correia, que já foi condenado à perda …

Fornos reabre Mercado Quinzenal a todos os sectores

A Comissão Municipal de Protecção Civil de Fornos de Algodres, no âmbito das medidas municipais …