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“Foi uma malandrice. Limparam um caminho fazendeiro e deixaram as vias principais”

A freguesia de São Joaninho, uma localidade com mais de mil almas no concelho de Santa Comba Dão, foi das mais atingidas daquele município pelos incêndios de Outubro de 2017.  Aos muitos prejuízos materiais, somam-se ainda cinco vítimas mortais. O presidente daquela Junta de Freguesia nos últimos oito anos teme que o cenário se venha a repetir e, garante, que tem solicitado desde 2019 à Câmara Municipal a limpeza das faixas de segurança de dez metros. Pedro Cruz, 67 anos, que lidera a única autarquia social democrata, num concelho socialista, refere que a Câmara se limitou a limpar um caminho “fazendeiro”. “Certamente a pedido de alguém, porque a promessa de fazer a limpeza como manda a lei, de Pedrais ao limite do concelho, nunca se realizou”, conta este autarca em entrevista ao CBS.

CBS- Está preocupado com a possibilidade de se repetir outra catástrofe como a que ocorreu em 2017?

Pedro Cruz – Estou eu e toda a comunidade. Tenho-me batido para que a faixa de segurança nos caminhos seja feita, tal como manda a lei. O presidente da Câmara prometeu-me que seria concretizada de Pedraires até ao limite do concelho. Anunciou isso mesmo numa Assembleia Municipal. Para minha surpresa, mandou limpar num caminho fazendeiro rural, provavelmente a pedido de alguém. O resto ficou esquecido. Foi uma malandrice. Aquele caminho não serve para facilitar o acesso aos meios de socorro, nem para evacuar a população.

Porque é que a junta não assume esse papel dentro da área da freguesia?

Temos feito o que nos é possível. Limpamos alguma coisa. Mas não temos os meios, nem a obrigação. Depois, para além do “Contracto Programa”, também foi prometido pela Câmara Municipal uma verba de três mil euros para todo o tipo de limpezas na freguesia, para 2020 e cinco mil para 2021, mas ainda não foi feito nenhum pagamento. Como o Presidente da Câmara, nas poucas vezes que atende diz sempre que vai pagar, acabei por ter conhecimento, não pelo município, que este pagamento está suspenso. Como a junta de freguesia contava com esta verba, já alterou o orçamento porque se teve de retirar dinheiro de outras obras para ir pagando as limpezas obrigatórias. O nosso concelho vizinho de Tondela, por exemplo, já realizou por duas vezes essa limpeza. Qual a razão da Câmara de Santa Comba Dão não cumprir a lei? É uma questão que fica.

Como foram apoios para repor os bens que a população perdeu?

Muito complicado. Sempre se tentou pedir ajuda e informação sobre apoios disponíveis quer à Câmara Municipal quer ao “suposto” gabinete de apoio aos incêndios. Nunca houve qualquer informação ou disponibilidade para ajudar a freguesia. Alguns agricultores que perderam os seus barracões e que não tinham qualquer forma de os reconstruir a única ajuda que tiveram foi da Cáritas de Viseu, através do Padre Virgílio e da junta de freguesia e, também, de alguns particulares, principalmente emigrantes, que ofereceram algum dinheiro para comprar materiais de construção.

Considera que está a ser discriminado pelo facto de ser a única freguesia do PSD num concelho com uma Câmara PS?

Preferia dizer que não, mas se calhar é capaz de existir alguma falta de vontade para uma autarquia que é contrária às cores do executivo camarário. Mas estou é preocupado com a comunidade. Com todos. Do PS ou do PSD. E já se sente algum pânico nas pessoas que não vêem as limpezas feitas. Fazem em caminhos rurais e deixam os principais. Inacreditável.

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Estou indignado com aquilo que foi feito. Já falei várias vezes com o presidente da Câmara desde 2019. A resposta é sempre a mesma: que vai ser feito. Mas na verdade fica tudo igual. É isso e o sinal de internet. Desde os incêndios nunca mais tivemos um sinal como deve ser.  Mas também aqui a Câmara não se mostra preocupada.

Tem reclamado sobre isso?

Claro, mas o presidente da Câmara não dá resposta a nada. O que eu queria era resolver isto da faixa de combustível e da internet que nos causou problemas durante o período em que os alunos tiveram de ficar a estudar a partir de casa.

Mas esta sua indignação só surge agora em período de eleições?

Não tem nada a ver com isso. Está em causa a segurança das pessoas e um problema para o qual ando a chamar a atenção desde 2019 e de forma persistente. Não é de agora. Tomara eu que, pelo facto de haver eleições, viessem resolver estes problemas com urgência. Mas não acredito. Somos completamente ignorados.

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Muitas vezes quando dou conta andam por aí a fazer uma ou outra obra e nem sequer dão conhecimento à junta. É uma completa falta de respeito institucional. Houve mesmo um momento caricato. Em Santa Comba Dão há um evento que se chama “Momentos de Cá”, em que percorrem as freguesias. Acontece que a nós ninguém nos avisou que vinham cá e não tinham electricidade. Não estava cá e não podia resolver o problema. Tiveram duas ou três pessoas a assistir. Uma vergonha.

Também tem dito que ainda não lhe devolveram os beliches que cedeu na altura dos incêndios?

Tínhamos 60 beliches da Casa do Povo de São Joaninho. Foram cedidos à Câmara. Nunca os devolveram. Fui pedindo e foram entregando alguns, mas alguns eram velhos e não eram claramente os nossos. Conseguimos recuperar 34. Quando foi do COVID-19 vieram pedi-los outra vez e só nos devolveram 25. Tenho reclamado, mas a resposta é que os vão devolver, mas nunca mais chega o dia. É um drama. O presidente da Câmara chega a estar semanas sem me atender.

 

 

 

 

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