Home - Opinião - Fusão – por “incorporação” – dos Créditos Agrícolas de Oliveira do Hospital e de Seia. Porquê? Com que verbas? Para quê?  Para quem? Autor: João Dinis

Fusão – por “incorporação” – dos Créditos Agrícolas de Oliveira do Hospital e de Seia. Porquê? Com que verbas? Para quê?  Para quem? Autor: João Dinis

Está convocada para 7 de Abril próximo, uma reunião em Assembleia Geral Extraordinária do Crédito Agrícola de Oliveira do Hospital, para apreciar e votar uma proposta da actual Administração/ Direcção para a fusão com a Caixa de Crédito Agrícola Mútuo da Serra de Estrela, CRL ( Cooperativa de Responsabilidade Limitada) que tem Sede em Seia.

Somos sócio da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Oliveira do Hospital.  Também por isso temos direitos e deveres na Instituição.  E temos opiniões também.  Sabemos que, em princípio, os Sócios presentes poderão exprimir opiniões durante a Assembleia Geral Extraordinária em causa.   Aliás, já assim aconteceu durante uma outra Assembleia Geral de há alguns anos atrás quando a proposta em apreciação foi a de fusão com Tábua e Arganil (Beira Centro).  Entretanto, no mesmo dia e à mesma hora, também decorreu uma Assembleia Geral desta Instituição que “chumbou” a adesão e fez morrer o assunto.  Oliveira do Hospital estava a aprovar a fusão por maioria mas, nessa altura, nada adiantou.

Agora, muda-se a geografia e a geometria da “coisa” e lá temos mais uma proposta de fusão, desta vez com esta instituição “Serra da Estrela” (Sede em Seia) a qual, e ao que julgamos saber, já votou e já aprovou a “nova/velha” Entidade financeira que deverá começar a funcionar o mais rapidamente possível. 

Afinal porquê ?  Para quê ?  Para quem ?

Dir-se-á que esta parte da conversa deve ser reservada para a Assembleia Geral.   Pois sim, estas matérias impõem um debate esclarecido e esclarecedor, em que apenas os Sócios possam participar.  E participar em Assembleia Geral é isso mesmo, é ir lá e falar.  Escrever um artigo de opinião não é a mesma coisa que debater às escâncaras questões internas e muito menos aspectos sujeitos a sigilo assim tipo “seita”…  

Aliás, também é necessário balizar esse debate, com antecedência em relação à data da Assembleia Geral para se poder reflectir com mais calma e ponderação em vez de se “improvisar” em plena reunião, além do mais sobre uma decisão de tamanha importância para a Instituição.  Depois, esta Assembleia Geral Extraordinária deverá decorrer ainda debaixo dos “distanciamentos sociais” da pandemia, portanto com capacidade limitada de presenças e ainda que vá ter lugar em sala mais espaçosa.  Aliás, na “Convocatória”, vem expressado um apelo para o voto “por correspondência” ou por “delegação de poderes”, portanto, apelo para o voto afastado de debate presencial em Assembleia.  

Aqui, a dinâmica (ou a falta dela) puxa para uma espécie de “afunilamento de opinião” quer dizer, para a centralização em poucos Sócios da decisão final e daquilo que mais a motiva.  Ou seja, o processo tende para o prevalecer das opiniões apriorísticas por parte de quem “comanda” a partir dos núcleos de dirigentes.  Assim, há uma entorse antidemocrática na formulação das premissas em presença e das consequentes decisões por o debate interno estar já condicionado e desde dentro, tipo “lógica de aparelho”.  É, portanto, um arremedo de debate feito em “ambiente controlado”, à partida.

Oliveira do Hospital, como tal, vai ser “canibalizada” pela parceira de Seia…

Entretanto, procura-se desde já respostas/informações :

1 – O que é que obriga, do ponto de vista legal/formal – ou via Caixa Central – a que tenha de haver uma fusão das duas Instituições vizinhas ?  Supomos que nada do foro jurídico-formal e ainda bem pelo menos da parte de Oliveira do Hospital.

  1. 1– Sim, na (ainda) Sede em Oliveira do Hospital, até estão disponíveis, para consulta dos Sócios, elementos sobre o processo.  Nós consultámos.  Porém, surge um problema a esse nível relacionado com a falta de autonomia da grande parte dos Sócios para “ler” e interpretar esses elementos, normalmente “volumosos” e carregados de especialização “técnica”, o que dificulta a compreensão simplificada e directa da essência da “coisa”…

2- Desconhece-se se há algum “estudo prévio” a avaliar das vantagens e desvantagens em concreto e designadamente das financeiras ?  Prevê-se ou não haver outros e maiores níveis de distribuição de proventos financeiros pelos Sócios da nova Instituição resultante da “fusão por incorporação” ?  E se há um tal “estudo”,  é feito por quem e qual é a sua síntese ?

3 – E logo a abrir o “dossier” para consulta, vem a maior de todas as informações:- afinal, trata-se de uma fusão MAS  POR  INCORPORAÇÃO  de Oliveira do Hospital na Serra da Estrela” (Seia).  Ou seja, a “nova” Instituição manterá a designação Caixa de Crédito Agrícola Mútuo da Serra da Estrela, CRL,  e manterá a Sede em Seia onde a “Serra da Estrela” já tem a sua Sede… Entretanto, todo o Património global da Caixa de Crédito de Oliveira do Hospital é para ser “transferido” para a “nova/velha”  Caixa Agrícola com Sede em Seia.

4-Não conseguimos descortinar indicações quanto ao número de Sócios de cada Instituição.  Enfim, Oliveira do Hospital terá um máximo de 4 mil Sócios.  Sabe-se que o Crédito Agrícola Serra da Estrela tem uma área geográfica que abrange 7 Concelhos com um total de 15 “Agências” espalhadas por esse território.  O  Crédito Agrícola de Oliveira do Hospital tem apenas 4 “Agências”  e, como é sabido, tem a Sede em Oliveira do Hospital onde funciona a Administração (e Balcão também).  Portanto, a Instituição “Serra da Estrela” tem, de certeza, muito mais Sócios que tem Oliveira do Hospital…

5- E com o manifesto desequilíbrio – sempre muito favorável a Seia – em número de Sócios; em capacidade financeira inicial; em cobertura de território; em peso institucional; em peso específico de Administradores; Oliveira do Hospital, como tal, vai ser “canibalizada” pela  parceira e nunca mais terá “voto significativo” em matérias importantes. Portanto, o Crédito Agrícola de Oliveira do Hospital vai ser literalmente “comido” – incorporado – pelo Crédito Agrícola que tem Sede em Seia !

5.1 – E, sim, contem-nos agora a estória que nos quiserem contar mas dos resultados finais desta “incorporação” é que em Oliveira do Hospital vai passar a haver apenas um “balcão” da nova Instituição e os impostos da mesma vão ser pagos no concelho de Seia e deixarão de ser revertíveis (nas percentagens da praxe) para o concelho de Oliveira do Hospital…

6 – Todavia, a conversa que em geral surge  para “convencer” os Sócios, essa conversa anda em torno de “não sei quantas” vantagens de:- financiamentos e ganhos em escala; em “rácios” ponderados; em capacidade operativa; em ganhos de racionalidade funcional; em competitividade; em capacidade “negocial” com “grandes” clientes; etc.  Aliás, é conversa mais do que batida nestas circunstâncias…

7 – Depois, a futura Administração vai começar com cinco “administradores” dos quais a maioria vai ser  remunerada – e principescamente como já é hábito.

7.1 – Aliás, e tendo em conta a “personalidade” que vai ser o Presidente (não executivo) do futuro Conselho de Administração, é legítimo recear que ele “invente” alguma remuneração “extra” e muito pouco recomendável como já “inventou” na Caixa Central durante alguns anos…

As desvantagens que não aparecem nas “contabilidades” e nos “estudos” habituais.

E a dar forma – contexto – a muitas e muitas considerações, mais ou menos concretas, aparece, logo, uma característica em DNA destas Instituições e que é a sua natureza de instituição “parabancária”, ligada ao sector cooperativo onde ainda importam, e devem pesar de facto, objectivos sociais.  Ora, a “tentação” que se observa é a de que estas “fusões”, embora surjam “embrulhadas” em palavreado tipo propaganda, muitas vezes acabam é por afastar as Instituições abrangidas dessas boas características e objectivos sociais.  Por outro lado, os maus exemplos – as consumadas e desastrosas vigarices cometidas por Bancos e banqueiros, uns atrás dos outros – deitam por terra qualquer conversa pretensamente enaltecedora dessas instituições “puramente” bancárias.   Afinal, especulam, especulam…

Ao mesmo tempo, centralizar, fundir, também produz o afastamento maior das “sigilosas” Administrações dos Sócios que, afinal, são os “donos” da Instituição.  E também afastam essas Administrações e as Instituições da vida real ao âmbito mais local, afastam-nas das Pessoas. Pergunto-me já que pode acontecer, a curto ou médio prazos, por exemplo, à Delegação do Crédito Agrícola aqui na Cordinha a Norte do concelho de Oliveira do Hospital e a Poente de Seia ?…  

E os membros, tendencialmente “sem rosto e sem alma”, dessas futuras Administrações tendem para se julgarem e comportarem como autênticos “mandarins” à escala…   Assim, ganha força institucional a falta de transparência democrática  e, não raras vezes, os negócios tendem para “negociatas”…

A consumar-se a “fusão por incorporação”, o concelho de Oliveira do Hospital 

perderá com o “negócio”…

Neste caso em apreço, assume ainda alguma relevância o facto do Presidente da Assembleia Geral do Crédito Agrícola de Oliveira do Hospital ser o (ainda) Presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital. E ser ele o Presidente da Mesa da Assembleia Geral acarreta-lhe maior responsabilidade no processo apesar de estar previsto continuar a ser Presidente da futura Mesa da Assembleia Geral da “nova/velha” Serra da Estrela.  

É que, como se disse e está previsto, a eventual Sede da “nova/velha” Instituição será em Seia.  Logo, o concelho de Oliveira do Hospital perde mais uma “valência”.  Aliás, e tal como já se disse, até haverá impostos a pagar pela “nova” Instituição, os quais (impostos), por esse facto da mudança de Sede, também mudam para ser recebidos por Seia… 

E, também como já se disse, sendo em Seia a futura Sede da Instituição a formar, para a cidade de Oliveira do Hospital vai “sobrar” um simples “balcão”, meramente utilitário… Para o mal e para o bem bastante menos em importância que agora… E as actuais Delegações (ou “agências”) que há dentro do nosso Município, essas passam a ser observadas à lupa do ponto de vista dos seus resultados estritamente financeiros.  Portanto, vão ser sujeitas a um permanente “stress” administrativo e financeiro…e sobre elas penderá, mês após mês, ano após ano, a ameaça de encerramento puro e duro…sem apelo nem agravo…

Ou seja, não se compreenderá que o (ainda) Presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital esteja de acordo com esta “fusão” – em que Seia “incorpora” Oliveira do Hospital — por ela ser lesiva do nosso Município.   

Sim, afinal quem mais ganhará, de facto, com esta eventual “fusão por incorporação” ?…

16 Março 2021

 

 

Autor: João Dinis, Jano

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