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“Hoje dói-me o joelho, amanhã deve chover”. Autor: Dr: Hugo Lopes

Todos temos aquele amigo que adivinha a meteorologia pelas dores que tem no joelho ou na anca. Curiosamente é o mesmo amigo que se senta torto na cadeira, que não faz aquecimento antes de ir jogar futebol e que diz que não pode praticar exercício físico porque “faz mal às suas dores nas costas”. Na verdade, um dos problemas mais prevalentes na nossa sociedade é a patologia músculo-esquelética: seja por lesão desportiva ou por mazelas da idade e é certo que, no decorrer da nossa vida, vamos ser importunados por algo relacionado com os nossos músculos, ossos, tendões ou ligamentos. Por isso, e dada a sua prevalência e incidência, devemos adotar estratégias e comportamentos que nos permitam proteger e evitar lesar o nosso aparelho músculo-esquelético.

Quando nos dói algum músculo/osso é fulcral começarmos por perceber o padrão da dor, isto é, devemos perceber quando surge a dor (se após esforços ou quando acordamos), como reage ao repouso (alivia ou intensifica), como surgiu (repentinamente ou com instalação insidiosa) e se existe algum sintoma que a acompanha. Os estudos científicos mostram que a larga maioria das queixas osteoarticulares se referem a uma dor que classicamente agrava com os esforços e alivia com o repouso e/ou com o uso de medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios. Este padrão de dor é observado em patologias extremamente comuns, que afetam imensas pessoas, falamos nomeadamente das artroses e das tendinites.

Existe artrose quando existe uma degeneração da cartilagem situada entre duas superfícies ósseas, o que aumenta o atrito do movimento da própria articulação. Quando a cartilagem é totalmente destruída pela fricção constante, intensifica-se o desgaste dos ossos agora justapostos. A sua prevalência aumenta exponencialmente após os 60 anos, sendo, por isso, a idade um dos fatores de risco que predispõe para a existência de artrose, juntamente com outros, tais como: obesidade (principalmente para artrose do joelho), Diabetes Mellitus, inatividade física, atividades laborais repetitivas e lesões traumáticas. As regiões mais comumente afetadas são as articulações das mãos e as articulações que suportam o nosso corpo (denominadas articulações de carga): coluna vertebral, coxofemoral (anca), joelho e tornozelo. As artroses manifestam-se essencialmente pela dor, que pode ser incapacitante, impedindo-nos de trabalhar ou praticar atividades de lazer. É importante perceber que nem sempre a intensidade da dor se relaciona linearmente com a gravidade da lesão, isto é, um indivíduo pode apresentar apenas um desconforto e ter uma artrose avançada, assim como existem casos em que o indivíduo experiencia uma dor excruciante e o compromisso articular, objetivado em exames de imagem complementares, é mínimo. A artrose é um problema crónico e irreversível pelo que a melhor estratégia é a prevenção. A mais recente evidência científica aponta como principais estratégias de prevenção a manutenção de um peso considerado adequado para a nossa altura (reduzindo o peso que a articulação tem que suportar), evicção de posições viciosas no trabalho/casa (nomeadamente quando carregamos ou transportamos objetos pesados) e a prática regular e regulada de exercício físico (excetuando os desportos de alto impacto ou desportos com exercícios repetitivos).

Uma vez que existem muitos fatores de risco que não são mutáveis, tal como a idade, no caso de já termos desenvolvido uma artrose, devemos ter em atenção as seguintes recomendações: manter um peso adequado; fazer curtos períodos de repouso (12-24 horas) durante as agudizações do problema, com retoma rápida da atividade física planeada; aplicar calor húmido na articulação em questão e utilizar cintas e talas de contenção durante o esforço físico (denominadas órteses). É crucial desmistificar o preconceito enraizado de que o exercício físico estruturado prejudica a articulação que apresenta a artrose, pelo contrário, ajuda na sua evolução favorável visto que aumenta a flexibilidade, a resistência e a força dos músculos que envolvem a articulação, suportando assim parte do esforço que esta teria que realizar.

Exemplificando: no caso particular da lombalgia aguda está contraindicado o repouso absoluto, sendo aconselhada a realização precoce de um plano de exercícios que promovam o fortalecimento da musculatura lombar. Para auxiliar o tratamento não farmacológico, a primeira linha de tratamento farmacológico passa por realizar períodos curtos (5-7 dias) de medicação analgésica (paracetamol, por exemplo) e/ou anti-inflamatório (ibuprofeno, por exemplo). Esta estratégia terapêutica relevou-se também eficaz em contextos de tendinite, até porque artrose e tendinite são patologias que podem surgir sinergicamente. Caso a dor não atenue, devemos procurar ajuda especializada nomeadamente recorrendo a uma consulta com o médico de família, fisiatra ou ortopedista.

Conclui-se que a patologia musculo-esquelética pode ser deveras incapacitante, pelo que deve ser primariamente prevenida e, caso exista doença estabelecida, tratada adequadamente. Ainda que seja extremamente útil ter um amigo que saiba que amanhã vai chover, não queremos ser esse amigo, pois não?

 

 

 

Autor: Dr. Hugo Lopes

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