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Imaginemos que o Interior Será Mais do que Uma Bonita Paisagem. Autor: André Rui Graça

Por vezes é difícil (embora cada vez mais necessário) olhar para o que temos diante de nós com perspetiva. A realidade é o que é, mas o futuro não tem que ser a continuidade do presente. É nosso papel, hoje, imaginar aquilo que a realidade poderá ser amanhã. Para os poderes centrais, a ideia do que é o interior de Portugal é um ato particularmente desafiante (especialmente porque, no geral, não o conhecem). Para os ministérios de Lisboa, a imagem do que é o Portugal profundo ou é baseada em estatísticas ou termina numa visão caricatural e parcial, com menor ou maior adesão à realidade. Dados recentes confirmam o que já todos intuíamos: o país está a perder população e o interior é particularmente afetado por isso. De facto, a perda de 100 habitantes num território de alta densidade (como o Porto) ou num de baixa (como Tábua) tem impactos completamente diferentes.

Por isso, cabe-nos a nós ter sentido crítico, prestar atenção ao que nos rodeia, informar com propriedade quem nos governa e, dentro das nossas possibilidades, tomar a iniciativa. Para isso, proponho um breve exercício de imaginação.

Imaginemos uma região que, para quem não é de cá, passe a ser mais do que um postal paisagístico ou uma referência para desfrutar de alojamento local. Imaginemos um território onde seja possível perseguir a felicidade pessoal, familiar e comunitária. Isto é, um sítio onde existe uma parte substancial do que as grandes cidades oferecem de bom e interessante, sem o “imposto de stress” que estas aplicam a quem lá habita.

Imaginemos que, de uma vez por todas, se entende a diferença entre território “rural” (terminologia aplicada à densidade populacional) e “agrícola” (característica da atividade económica predominante de determinado território). Por outras palavras, é possível viver-se de forma cosmopolita na ruralidade, tal como é possível (embora mais raro) praticar-se atividade agrícola num território considerado urbano.

Já que falamos em aspetos rurais e agrícolas, imaginemos que, em termos de gestão do território, se abandona a fantasia de que Portugal – especialmente o seu centro – deve ser um país predominantemente florestal. Já vimos e sentimos as consequências da ganância do eucaliptal e da exploração intensiva de culturas que destroem e contaminam o solo, para grande benefício de empresas sediadas no litoral. Insiste-se numa paisagem que pouco tem que ver com a economia agrícola do presente e do futuro. Cada vez mais as soluções de alimentação irão passar por produtos biológicos, formas sustentáveis de agricultura e sucedâneos vegans para carne e leite. Os hábitos alimentares mudam com o tempo e com as necessidades e a procura, por conseguinte, aumenta. Imaginemos, por isso, uma região que se antecipa a esse futuro e consegue criar condições para recondicionar o seu solo e lança as bases para que as empresas de transformação se possam aqui implantar.

Imaginemos que poderemos viver num território que deixe de ser, sistematicamente, um ponto de partida. Primeiro, no início do século passado, o êxodo rural (que ainda hoje se verifica). Depois, o grande movimento migratório para o estrangeiro nos anos 50 e 60 – situação que originou comunidades tão fortes nos países que acolheram os nossos conterrâneos, que ainda hoje estes países exercem atração para os familiares destes emigrantes. Por fim, uma outra “fuga”, mais recente, caracterizada pela partida de pessoas altamente qualificadas para outras paragens. Um local que é emissor de emigrantes é um local com problemas, que necessita de soluções para estancar a sangria. Por mais que as famílias daqui se habituem a dizer adeus aos seus e a vê-los só no verão e no Natal (com sorte), não quer dizer que isso se torne mais fácil.

As pessoas, de diferentes faixas etárias e com diferentes quadrantes de saber, são a “cola” das comunidades. Imaginemos uma zona centro em que a sociedade não se desestrutura e fica condenada pelo envelhecimento da população e pela saída dos jovens; em que os valores não se perdem, mas que se adaptam progressivamente; em que os saberes artesanais não caem no esquecimento, mas se transformam por virtude das novas tecnologias, deixando, no entanto, um legado importante de práticas e éticas laborais que perdura nas gerações. Em resumo: uma região em que possa existir uma continuidade entre o melhor que o passado tem para o oferecer ao presente, para, assim, se poder criar um melhor futuro.

Imaginemos um centro de Portugal decentemente governado pelas instituições locais. Com menos população, quem resta para fazer política e levá-la a sério, dignificando o espírito dos mandatos? Quem permanece para combater pelos interesses dos que ficam? É conhecido que é um problema geral da política a sua dificuldade em atrair talento. No interior esse desafio acentua-se. As populações, ficam, muitas vezes, à mercê de uma mediocridade que se perpetua no poder e que se fecha em si, incapaz de se rodear de quem tenha novas ideias, provas dadas e competência confirmada – seja por inveja ou receio que a sua já notória mediocridade se evidencie ainda mais no contraste. Diz o velho ditado que “fracos líderes fazem parecer fracas as fortes gentes”. Olhemos à volta e reflitamos sobre isto.

Para que o ciclo possa ser invertido é necessário encontrar um equilíbrio entre os setores primário, secundário e terciário. São precisas soluções de “banda larga”, onde exista espaço para todos – desde quem se queira dedicar ao cultivo e produção das matérias-primas, até aos que se especializam de forma a poderem prestar serviços de excelência, passando por aqueles que queiram investir na indústria de transformação e criar polos de inovação. Assim, nos curto e médio prazos, poderemos lançar as bases para atrair ou segurar população. A longo prazo, será possível estabelecer tradição de bem fazer e transmitir valores de “saber fazer”, tornando as atividades económicas locais em referenciais nacionais e internacionais.

Em décadas anteriores, a competitividade era ditada apenas pela “guerra de preços”, o que levou as grandes empresas a deslocarem a sua produção para a Ásia. Hoje, com o retorno do mercado da qualidade e a procura por formas éticas e sustentáveis de produção (aspetos em que a Ásia tem dificuldade em competir), os países europeus com mão de obra boa e barata (como Portugal), têm a oportunidade de dar uma palavra ao mundo em termos de competitividade.

Presentemente, urge melhorar os acessos no interior. Apostar na ligação entre os polos urbanos, já desenvolvidos e atrativos, e os territórios interiores, para que trânsito seja mais fácil e, assim, a Beira, pela sua qualidade de vida, possa ser uma opção à aglomeração das cidades. Para esbater as desigualdades, necessitamos de infraestruturas (transportes públicos que sejam uma realidade e não apenas uma miragem; alternativas às estradas de montanha; a aposta em aglomerados populacionais a meio caminho, descentralização de serviços de saúde, de justiça, etc…), mas também de um investimento sério e concreto nas pessoas, no seu bem-estar e no aproveitamento do seu potencial. Precisamos do cimento e do tijolo, do mesmo modo que necessitamos que essas estruturas tenham alguém para acolher.

Urge criar condições para que os mais idosos e doentes possam ter dignidade no tratamento e acompanhamento das suas dificuldades e maleitas. Ao mesmo tempo, é importante que se dê prioridade à educação de excelência e à cultura – para que o horizonte de ambição dos adolescentes seja mais vasto do que virem, apenas, a tornar-se nos próximos concorrentes de reality shows. Cultura e educação andam de mãos dadas e, juntas, são uma combinação poderosa contra o abandono escolar precoce e potenciadora da dinamização social e do empreendedorismo.  Só assim poderemos combater as desigualdades territoriais, tornar a juventude mais audaz e preparada e construir uma sociedade coesa, solidária e cosmopolita, em que os mais jovens olhem à sua volta e reconheçam que têm lugar nas terras que os viram nascer. Sair será sempre uma possibilidade, claro. Ver mundo é importante. Só num trânsito de dois sentidos se pode criar interação e, muitas vezes, aprender a valorizar o sítio de onde se vem. No entanto, se houver saída, que seja feita por opção – e não por necessidade.

Enfim, sabemos que o interior é mais do que paisagem. Agora, imaginemos o que poderá vir a ser.

 

 

 

Autor: André Rui Graça

Professor universitário e consultor

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